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sábado, 2 de maio de 2015

QUANDO AS NOITES VOAVAM






QUE SERÁ DE TI, AMAZÔNIA ?











JorgeTufic





Que será de ti, Amazônia,
enquanto o homem que te desfruta
considerar-te perene, imortal
como se imagina um duende ?


Que será de ti, Amazônia,
enquanto se pensa no teu destino
sem nunca separar-te dos interesses
daquele que te golpeia,
te reduz e te maltrata ?


Que será de ti, Amazônia,
enquanto se teima em desconhecer
que teu reino se acaba
onde a tua imensa vegetação termina ?


Que será de ti, Amazônia,
enquanto os cegos herdeiros
do Lêmure implacável,
buscam fórmulas vazias
para explorar-te racionalmente,
quando se sabe que os fins econômicos
já são, por si mesmos,
irracionais ?


Que será de ti, Amazônia,
enquanto não forem avaliadas tuas perdas
e teu desgaste
em quatrocentos anos de falsa
prosperidade para o homem;
e de lenta ,
lentíssima agonia
para os sonhos e as riquezas
que te habitam ?



Que será de ti, Amazônia,
enquanto o índio que te protege
e guarda os teus mistérios,
continuar sendo reduzido
e transformado em caboclo ?


Que será de ti, Amazônia,
enquanto o revolvimento de teu solo,
à cata de minérios,
envenenar os teus rios ;
e as toras de madeira submersas
desabarem sobre ti
numa queda insalubre e frenética
de chuvas ácidas ?


Que será de ti, Amazônia,
enquanto o desmatamento e as queimadas
transferem para os teus ares o sezão
dos pântanos
e a temperatura dos infernos ?


Que será de ti, Amazônia,
quando tuas lendas não tiverem mais
onde pousar; e a doce flauta
do uirapuru
quebrar-se numa profunda elegia
sobre os rios que minguam
e os areais que avançam ?


Que será de ti, Amazônia,
última página do Gênesis,
quando os seres que fazem a tua escrita
enigmática,
mergulharem na usura
que te rebaixa
aos olhos do mundo ?



Que será de ti, Amazônia,
se continuas espoliada e sujeita
ao voto
que elege os teus algozes ?


Que será de ti, Amazônia,
cujo tamanho incomoda pela ausência
de amor,
e cuja perda nem mesmo um rio
de lágrimas
há-de chorar-te com justiça ?


Que será de ti, Amazônia,
navegável piscosa hidra mesopotâmica
resistência dos fracos
buzina dos ermos
igaçaba de fogos-fátuos
agora que teus peixes,
de há muito impedidos de crescer
e desovar corretamente
já não saciam a fome dos que
nada fizeram
para ver o futuro ?


Que será de ti, Amazônia,
grandeza física que,
no entanto,
pode caber dentro de um ninho qualquer,
desde que ele tenha a leveza
de tuas palhas
e a úmida ternura
dos ventos que te embalam ?


Que será de ti, Amazônia,
enquanto as crianças do globo
não souberem te amar em plenitude,
ou seja,
do bicho mais rasteiro
às frondes mais altas de teus bosques
e teus igapós ?
Que será de ti, Amazônia,
se as fronteiras que te abraçam
numa ciranda geográfica de isolamento
e fraternidade,
não aprenderem também a sentir
o pulsar de teus mares sepultos
e a beber, em tuas águas,
a música das sombras ?


Que será de ti, Amazônia,
paraíso da natividade cósmica
porto de lenha
sertão de especiarias
inferno verde
berço do progresso
refúgio de degredados


sorvedouro de talentos
remate dos vencedores,
quando és, praticamente,
a última baliza do verde
com as terras-do-sem-fim ?


Que será de ti, Amazônia,
esfinge dos néscios
apetite dos glutões
motivo de inspiração e de escárnio
natureza morta
peixe colorido de estrelas importadas
autofagia mítica
cipoal de batalhas demiúrgicas
aleijão vegetativo
sementeira de astronaves,
agora que meia dúzia de sábios
te colocam no banco dos réus
e te julgam
em nome da ecologia ?


Que será de ti, Amazônia,
quando a própria ecologia,
no sentido global e verdadeiro,
deve partir da humanização urbana ?
Não é fácil acreditar nas palavras
de quem se declara a favor
da Natureza
se cultiva a poluição
e contribui para a miséria.


Que será de ti, Amazônia ?
Os tucanos pedem socorro.
Ao fugirem das queimadas,
eles invadem as cidades em busca
de comida. Primeiro foi o homem
das margens e terras firmes
que se evadiu para sempre.
Agora são as aves de tuas matas
que se desfazem na escuridão.


Os nichos sagrados estão em chamas.
Teu coração também se revolta
e sangra, Amazônia.
Fetos de carbono
imitam pajés enforcados
nas enviras do luar.


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

QUANDO AS NOITES VOAVAM

(foto de Albert Samuel)

os desenhos de um banquinho de madeira
ainda pensam na Cobra
e podem esticar-se até o arco-da-chuva.

nosso Primeiro Pajé foi a Cobra.

o último foi Jurupari.
Tudo na terra do trovão pode esticar-se
e encolher como o tipiti.

os nossos movimentos têm ritmo sagrado.
estribilhos são jatos de sêmen.

o kumu senta-se com o lado esquerdo
virado para a entrada principal da maloca.
ele fica de costas para as nascentes do rio,
olhando para o oriente.
este é o modo certo de quem vigia.

nossas casas são abrigos consagrados
do ventre da Cobra-Grande.
Ali nós colocamos o sopro.

sábado, 10 de novembro de 2012

QUANDO AS NOITES VOAVAM,



A Cotiara aconselha que na hora de dormir
é que se tem de ficar acordado.

A Cutia estraga a roça
porque sempre se julga convidada.

Por gostar muito de criança,
a Preguiça é avó da gente.

o Tamanduá, leitor assíduo do chão,
adivinha chuva e tempo bom.
os bichos ouvem as frutas
antes de comê-las.
Quando se calam, é porque estão maduras
ou deixaram escoar o veneno.


o dono do sono demora a chegar.
Primeiro ele manda os filhos,
e a gente boceja.
A Puçanga da Jiboia
é do tamanho de sua barriga.


quarta-feira, 24 de outubro de 2012

QUANDO AS NOITES VOAVAM,




Iapinari


é a pedra que vê.



kixti Tukano

(estória e sabença)

o bacurau vive sozinho
e não tem quem o ajude a construir sua casa.
Por isso ele dorme no cerrado.
só se sabe que o sapo fêmea existe
quando ele coaxa.


Antes, o vozeirão do guariba pertencia à anta,
e o assovio da anta pertencia ao guariba.
essa troca foi feita
para evitar o pânico e o medo na floresta.


Pelos mesmos motivos,


o cachorro ficou com o faro da onça
e a onça ficou sem nenhum.
o morcego, enquanto suga,
fica ouvindo os traques de suas vítimas
como se estivesse enfrentando um tiroteio.
o jacu, pela sua vaidade,
perdeu a vez de acordar os outros pássaros.
Ficou em seu lugar o Cujubim,
que não gosta de enfeites e é bom madrugador.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

QUANDO AS NOITES VOAVAM




Báli Bó

Báli bó chorou muito a perda de Abé.
Prometeu chorá-lo durante um mês inteiro.
sua tristeza era tanta
que desejou sumir junto com o filho.


o pesar de Báli bó foi ouvido
por todos os homens e animais da terra,
que se juntaram para chorar com ele.
A anta, sendo grandalhona,
chorava com voz fina, assim:
– panikan, panikan, panikan.7
Panikan: meu bisneto.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

QUANDO AS NOITES VOAVAM




Pinlun

Pinlun perguntou à filha

o que era que seu genro comia.
respondeu ela que comia a eles mesmos, os peixes.

Meio triste, o pai lhe disse, então,
que tinha um velho criado, Maku,
e iria matá-lo para o genro comer.


Gaim pañan aceitou a oferta do sogro.
ele assou e comeu o velho Maku fora da maloca.


Pinlun ficou muito desgostoso
por ter perdido o criado
que lhe preparava o ipadu.

terça-feira, 17 de julho de 2012

QUANDO AS NOITES VOAVAM




Pinlun

Pinlun perguntou à filha

o que era que seu genro comia.
respondeu ela que comia a eles mesmos, os peixes.

Meio triste, o pai lhe disse, então,
que tinha um velho criado, Maku,
e iria matá-lo para o genro comer.


Gaim pañan aceitou a oferta do sogro.
ele assou e comeu o velho Maku fora da maloca.


Pinlun ficou muito desgostoso
por ter perdido o criado
que lhe preparava o ipadu.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

QUANDO AS NOITES VOAVAM



A origem da noite

A noite era um fantasma que se repartia
entre a luz e a escuridão.


Um lado desse fantasma era escuro e feio.
o outro lado era claro e bonito.


nãmi, era como se chamava o dono da noite.


os grilos teciam as folhagens do sono,
enquanto o pássaro japu tratava de afastar,
com seu bico,
as cortinas da madrugada.


Antes de dar a noite a seus netos,
nãmi comeu ipadu e fumou olé-o (cigarro).


o resto dessa estória ninguém sabe,
porque uma parte dela ficou com a Gente da noite
e a outra parte ficou com a Gente do dia.6
Gente da noite e Gente do dia: Tukano e dessana.

terça-feira, 3 de julho de 2012

QUANDO AS NOITES VOAVAM





A LANÇA RITUAL



A invenção do Curare e
da Zarabatana

Para matar sem Pinlun,
ngoamãn (4) inventou o curare e a zarabatana.

Pegando, então, da zarabatana,
ele soprou-lhe uma seta bem no pescoço.

sentindo-se envenenado, sem Pinlun (5) deslocou-se
num pulo, em direção do leste.

o lugar onde caiu
ainda hoje pode ser reconhecido
pela forma de uma pedra que ali troveja. 



4 ngoamãn: o Criador.
5 sem Pinlun: trovão sobrenatural.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

QUANDO AS NOITES VOAVAM


3. Antes o mundo não existia.

Com a reza de breu escondem suas malocas
e renovam o fio de plumas invisíveis.
Assim, os pajés caminham sobre ele
e não deixam cair os raios sobre as casas.


Com a fumaça do cigarro, os kumuá escondem
a si mesmos para não serem vistos.


na ida dos pajés eles fazem a reza do breu
e do cigarro; e na volta deles,
um mês mais tarde,
apenas a do cigarro.


Ainda hoje os kumuá fazem esses ritos,
para evitar que os pajés se desviem de sua rota
e pratiquem barbaridades...



Com a prisão de Boléka pelos brancos,
toda a sabença do mundo
virou conhecimento;
todo conhecimento virou progresso,
e todo progresso, como fez aquele,
acabou por errar o caminho de volta
para a casa de seus avós.

A onça Invisível do Universo,
agora mesmo ela está em suas mãos.


sábado, 26 de maio de 2012

QUANDO AS NOITES VOAVAM



XIV
os caminhos que Boléka traçou
ficaram para sempre.
“Ainda hoje, poderosos pajés sombreados
andam por eles, cortando o espaço,
na estação chuvosa.
Quando aparecem, começa a relampejar.
é sinal de que estão passando”.


Pajés transluzem em todo o universo.

os grandes kumuá
fazem seus ritos com breu e com cigarro,
ao pressentirem sua vinda.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

QUANDO AS NOITES VOAVAM




XIII

recolhida na Casa Guardiã,
ou casa principal/transformadora,
a onça Invisível do Universo
estava ali, amarrada,
sem nunca poder soltar-se.


A menos que alguém, desavisado,
cheirasse o paricá.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

QUANDO AS NOITES VOAVAM



XII


Transmitindo aos irmãos sabença e coragem,

Boléka, no entanto, ensinava a matar.

Matava por brincadeira.

Um formidável exército de onças

seguia-lhe os passos,

comendo os despojos da luta

e aumentando de tamanho.


reinava a escuridão, chovia sangue.

As onças infestavam o mundo.


Por isto, os kumus confundiram Boléka,

retirando seu caminho de volta.

logo, todas as feras desse bando

já foram se metendo, de uma a uma,

na pele da onça Invisível do Universo.


só então Boléka notou

que o trocano voltara a guiá-lo,

tocando devagarzinho.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

QUANDO AS NOITES VOAVAM



Foi assim que Boléka retirou do paricá


o seu fio de plumas

e traçou os caminhos do universo.

Para iniciar essas andanças,

um trocano escondido o guiava,

tocando sozinho.


no mesmo lugar

ele deixou também um espelho invisível

que soltava faíscas

enquanto o guiava pelos quatro cantos do mundo.


quinta-feira, 15 de março de 2012

QUANDO AS NOITES VOAVAM


subindo pelo lado esquerdo do lago do leite, e. s. Pan Iãmin e e. M. Boléka
foram colocando casas de transformar gente

XI

Boléka, o chefe supremo dessana,
olhara detidamente para o sol
quando todas as casas invisíveis
tornaram-se numa Grande Maloca.


Pedaços de claridade, objetos,
peles de onça, foram sendo preparadas,
entregues e vestidas
pelos grupos heroicos dessa tribo.


Casas transformadoras e casas terrenas
abrigavam riquezas e onças ferozes.

sábado, 10 de março de 2012

QUANDO AS NOITES VOAVAM



Ao chegarem na quadragésima casa,
desembarcaram as primeiras mulheres.

nenhuma delas ainda tinha vagina,
somente o buraquinho de mijar.

os índios de cu branco,1 por sua vez,
ainda não tinham descoberto os furos
que guardavam a música do sopro.

nem sabiam vestir-se como os passarinhos.

1. os índios de cu branco são descendentes do trovão Guelabé-Bolei.

Por esse tempo,
os cabelos da humanidade eram tão brancos
que pareciam flocos de algodão.


Mas ao chegarem na quadragésima quinta
/casa transformadora,2
seus cabelos ficaram pretos.


Aí, sim,
todos pisaram a terra pela primeira vez.

quinta-feira, 8 de março de 2012

QUANDO AS NOITES VOAVAM,



Continuando a viagem,
os dessana seguiram no bojo do terceiro trovão
/Canoa Transformadora.


Já no rio Tiquié,
as mulheres começaram a enluar.
Tudo acontecia pela primeira vez.


numa serra de pelos dourados,


o Criador do Universo açoitou os meninos
de toda a humanidade,
para crescerem e ficarem fortes.
depois disso,
a Canoa submergiu novamente.
Além dos dessana, baixaram com ela os Tukano,
Pira-tapuia, siriana,


o Maku e o branco.

sexta-feira, 2 de março de 2012

QUANDO AS NOITES VOAVAM

Certo dia, porém,
as visões do Caapi borraram e multiplicaram
os desenhos da planta de arumã.
As cores desses desenhos
também se multiplicaram.
Caras e enfeites mudavam de pessoa.


Como as visões eram tantas,
os sexos uivaram como lobos
rompendo as amarras de tucum.
os irmãos chamaram-se de primos,
as tias, de sogras.


A partir daí,
cada qual passou a falar diferente.
ninguém mais se entendia.


Toda a humanidade, contam,
ficou sob os efeitos da bebida.


As tribos se dividiram,
cobras-canoas enfiaram por outros rumos,
levando e plantando gente.


Foi quando os dessana e os Tukano
se uniram para sempre.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

QUANDO AS NOITES VOAVAM


navegando debaixo das águas,
a Canoa Transformadora dos dessana
plantava e numerava.


enfeites transmutavam-se em gente.
de um rosto subitamente visível,
brilhara o sol, lá no alto.
os trovões já tinham os seus nomes,
as casas já tinham seus números,
os bichos e as frutas
já tinham os seus donos.


Todos habitavam a esfera do universo,
que era o modelo da maloca.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

QUANDO AS NOITES VOAVAM,


Cada ser, objeto ou ritual,
já nasceu com seus lugares.

substantivos ganhavam corpo, som,
transparência e volume.

Mas somente o ipadu e a casa
dirigiam a transformação,
cuidavam da paisagem.