sábado, 14 de abril de 2012

DUETO PARA SOPRO E CORDA


  SONETO AO POETA ALMIR DINIZ

(respondendo sua carta}

 

Almir Diniz, que em poucas linhas diz

tanto quantas imagens necessita

para saudar a quem, por essa dita,

vai ser agora muito mais feliz:

 

Não fora coincidência, a sorte quis

que a pluma nos unisse; estava escrita

esta amizade que entre nós habita,

sendo eu, do mestre, humílimo aprendiz.

 

A carta que recebo neste dia,

carta-poema desse velho amigo,

abre clarões na sombra que me guia.

 

Muito obrigado pelos teus florais

dourados, com que vês o que não digo,

fazendo ser o menos algo mais.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

AGENDA 1965



06/maio


Prossigo na leitura do Terceiro Reich. Assalta-me uma vaga certeza de que já estamos em plena Terceira Guerra Mundial. E o pior de tudo é que os métodos dos nazistas passaram às normas políticas das chamadas democracias do Ocidente.- O pau canta em São Domingos. Tropas brasileiras de prontidão para o embarque, enquanto os esforços maiores dos ianques ficam concentrados no Vietnam do Norte.


07/maio


Na opinião de um crítico português, Fernando Pessoa representou bem uma corrente naturalista e simbolista de transição ao modernismo de hoje. O curioso disso é que eu, sem ser português nem crítico de literatura, falei sobre esse fato numa de minhas palestras informais sob a copa do mulateiro, na praça do Ginásio. Pura intuição.

Acordo e tomo o rumo do jornal. Horas de muito abatimento íntimo.


08/09/maio


Percebo que meu velho (e bom) pai começa a perder a lucidez. Agora que espero colher os frutos de minha luta da vida inteira, e dividi-los com eles (meus pais). Adentro, pois, essa antiga morada da avenida Joaquim Nabuco a sentir um aperto cada vez mais forte nas vacilantes coronárias: a cena rústica do convívio doméstico deteriora com mesas e cadeiras desconjuntadas, ambiente escuro, paredes úmidas, quintal tomado pelo mato.


N. do A.: Neste mesmo ano eles foram transferidos para a casa de meu irmão, à rua J. G. Araújo, 40, no bairro de Santo Antonio, ao qual fiz o repasse da indenização paga pelo Dr. Paulo Jacob, proprietário do imóvel desocupado, tendo em vista a necessidade de construção de um anexo para seu abrigo. Amiudei minhas visitas ao bairro e ao seu novo lar, até que, em 1973, iniciando a edificação de minha última casa em Manaus, passamos a residir perto deles, mais precisamente na mesma rua J. G. Araújo, número 94.

* Comunico ao Ulisses Paes de Azevedo minha decisão de renunciar ao cargo de Redator da empresa Archer Pinto. A seu pedido, contudo, permaneço ainda por mais duas semanas.


quarta-feira, 11 de abril de 2012

DUETO PARA SOPRO E CORDA


NATAL EM MEU BAIRRO

                                          para Almir Diniz

     

 Depois da chuva queda-se uma pluma

 sobre o bairro em que moro. E das janelas

 vê-se o dia enrolado nas flanelas

 de um céu que cresce e aos poucos se avoluma.

 Em busca de outro azul o olhar se exuma

 das cavernas do ser; ainda mais belas

 as mãos de Deus dão sopro às aquarelas

 e as estrelas se acendem, de uma a uma.

 A pluma agora pousa na varanda

 de um pedaço de chão, onde há, contudo,

 auras e nuvens que o desterro abranda.

 Corre um frisson no ar: pelejam-se asas

 por trás da luz que paira sobre tudo,

 e acolhe o Cristo em todas estas casas.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

QUANDO AS NOITES VOAVAM



Foi assim que Boléka retirou do paricá


o seu fio de plumas

e traçou os caminhos do universo.

Para iniciar essas andanças,

um trocano escondido o guiava,

tocando sozinho.


no mesmo lugar

ele deixou também um espelho invisível

que soltava faíscas

enquanto o guiava pelos quatro cantos do mundo.


domingo, 1 de abril de 2012

DUETO PARA SOPRO E CORDA


SONETO PARA SÉRGIO PANDOLFO

 

 

Da Ribeirinha aos cantos da conquista,

de Camões a Pessoa e deste a nós,

o português geofônico e a sós

se expande além do mar e além da vista.

 

Caravelas de luar, sol de ametista,

nele outras línguas antes dele e após

fazem seu néctar: músicas da voz

sobra enfim do massacre indigenista.

 

Delícia azul, velejo ultramarino,

marca-lhe os sons o ferro da saudade,

prisão do afeto náutico e salino.

 

Para tanto sofrer, tão grande fama.

Morre num catre o gênio dessa Idade.

Por todo o orbe seu clarão derrama.

domingo, 25 de março de 2012

DUETO PARA SOPRO E CORDA


SONETO PARA MARCOS GOMES

Com meu alef te brindo por ser abd
Das suras no adaã que faz  o adab
Dos sábios na adafina da linguagem
Dando ao soneto acordes de alaúde.

Navegas como a lua sendo alfange
Despertando anafis, andaluzias,
Polissêmicos fogos, Meca e pedra,
Tal fossem os arabescos de alefris.

Sem aravias, o alcatrão destilas
De um novo idioma a síntese, o acanto
Trançado com jasmins para o salã.

Despertas Mai das noites indormidas,
Serralhos do Butão; e esta vontade
De ser derwiche, um zégel solitário.

Jorge Tufic

Glossário

Alef- principal letra do alfabeto arábico.
Abb- servo; escravo de.
Sura- série, sequência, o mesmo que surata.
Cada um dos capítulos do Alcorão.
Adaã- fala do muezin do alto do minarete,
convidando os fiéis à oração.
Pedra- Pedra Negra, objeto que é o centro
simbólico de todo o Islã; foco material de
toda a religião muçulmana.
Adafina- coisa oculta; tesouro.
Anafil- longa trombeta usada pelos mouros.
Alefris- incisão, corte, entalho.
Aravia- arabia, linguagem atrapalhada e difícil.
Algaravia.
Salã- a paz (de Alá seja contigo). Palavra de
saudação ou cumprimento. Salmo, salema.
Mai- pseudônimo de Maria Zlady, poetiza
árabe contemporânea.
Serralho- harem.
Derwiche- místico de seita islâmica.
Zégel- bailado; gênero de poesia popular em
Al-Andaluz.




quarta-feira, 21 de março de 2012

CARTA AO JORGE TUFIC

CARTA AO JORGE TUFIC

Jorge Tufic, o meu nome é José Martins Rocha, sou um caboclo de Manaus, tenho um blog denominado BLOGDOROCHA, voltado para a cultura amazônica, cheguei até você através do poeta e escritor Rogel Samuel. Estou sabendo que você acabou de fazer 80 anos de vida, que coisa boa e bonita! Parabéns, meu amigo!

Não sei se você foi homenageado em Manaus, caso negativo, irei fazê-lo agora, neste pequeno espaço.

Jorge Tufic, um brasileiro de Sena Madureira (Acre), nasceu poeta, pois o poeta não se faz, ele já nasce feito! Morou e produziu muito na cidade de Manaus, foi agraciado, em 1976, como “O Poeta do Ano”, homenagem do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Amazonas.

Foi um membro ativo do “Clube da Madrugada”, da Academia Amazonense de Letras, da União Brasileira de Escritores e do Conselho Estadual de Cultura. A data maior do Estado do Amazonas é no dia 5 de Setembro, na qual se comemora a sua liberdade política – Jorge Tufic foi a pessoa que fez a letra do “Hino do Amazonas”, que coisa bonita ele escreveu: “Amazonas, de bravos que doam. Sem orgulho, nem falsa nobreza. Aos que sonham seu canto e lenda. Aos que lutam mais vida e riqueza”. Palmas, muitas palmas para o Amazonas e para o Jorge Tufic!

Ele foi um funcionário público, ao se aposentar mudou-se para Fortaleza, onde passou a exercer integralmente a literatura. Escreveu "Varanda de Pássaros",  "Poema-Coral das Abelhas", "Agendário de Sombras", "Trinta Anos de Clube da Madrugada", "Chão Sem Mácula", "Sonetos de Jorge Tufic" e outros tantos.

Jorge Tufic, que Deus o proteja. Parabéns pelos seus oitenta anos! Valeu!