sexta-feira, 24 de agosto de 2012

AGENDA 1965



31/01/agosto

De Nauro Machado, como sempre desde 1958, recebo seus últimos dois livros publicados: ¨Segunda Comunhão¨e ¨Ouro Noturno¨. Grande poeta do Maranhão. De Alcides Pinto recebo o ¨Ciclo Único¨, poemas em prosa.

03/agosto

Muito já se falou a respeito do trabalho artístico, inclusive das qualidades que distinguem o criador do inventor. Essas leituras fazem falta entre os nossos jovens poetas.

03/agosto

Telefonema do Afrânio Castro me informando que hoje ele rasga a folhinha de seu natalício. Convida-me, pois, para almoçar em sua companhia.- No jornal ¨A Crítica¨,a resenha da Assembléia Legislativa divulga o pronunciamento do Deputado João Valério sobre o Curso Intensivo de Cultura Brasileira, destacando, como pontos altos, as conferências de Thiago de Mello, Benedicto Nunes, Jorge Tufic e Arthur César Ferreira Reis.

04/agosto

Delenda Caixa Econômica.- Notícias de Brasília dão conta de mais 1302 readaptações de funcionários do MA assinadas pelo Presidente da República. Os sinais favoráveis avançam, embora devagar.


terça-feira, 21 de agosto de 2012

AGENDA 1965

FOTO DE ROCHA




21/julho

Izabel necessita operar-se da vista. Eu também de tratar os dentes.- Instala-se na sede do Luso o Curso Intensivo de Cultura Brasileira, orientado pelo nosso amigo do Pará, professor Benedicto Nunes. Antonio Olinto também virá do Rio. Faço minha inscrição.

24/25/julho

Prossegue o Curso Intensivo de Cultura Brasileira. Me encontro com o Roberto Jansen na avenida Eduardo Ribeiro, quando sou convidado por ele a tomar parte de uma tartarugada, no Xangay.


27/julho

Minha conferência no Curso Intensivo de Cultura Brasileira, dividir-se-á em três fases: a) A Nova Poesia do Amazonas; b) Reflexos do Movimento Concretista; e c) A Poesia como Tarefa Revolucionária.

30/julho

Recebi hoje os 271.592 referentes a dois meses e 24 dias de Função Gratificada (Turma do Interior). Para garantir a gradativa liquidação de minhas dívidas, confiei à guarda do Murilo a importância de 160.000, isto é, 40% dos 400.000,000 que devo ao BCP. Débitos mais urgentes foram saldados.


sábado, 18 de agosto de 2012

DUETO PARA SOPRO E CORDA

SONETO A UMA AGENDA

Para quem chega ou sai, vide na agenda
telefone, endereço, e assim, talvez,
o número da campa onde o freguês
terá deixado a última legenda.

Todo um passado nela se desvenda
com a rolagem dos anos. No entremês
de novas baixas, outros, por sua vez
plantam seus nomes e refaz-se a lenda.

Nomes famosos como Pedro Nava,
poetas humildes como Jota Cê,
já se foram da letra que os guardava.

Antigas pautas mostram-nos, porém,
que entre os vivos há mortos; estes que
nunca respondem, nada, pra ninguém.


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

AGENDA 1965

15/julho

Será amanhã a visita do Presidente Castelo Branco a Manaus, o que vem coincidir com mais dois eventos locais: a homenagem que vamos prestar ao Thiago de Mello na Chapada Sírio-Libanesa, e o aniversário de Eliana.

16/julho

Dia repleto, festivo, alegre. Na Chapada com Thiago, Alberto, libamos o ¨Quinta do Pinhal¨ Tarde igualmente feliz, com mergulhos na piscina e muito assunto poético debaixo do mocambo. Já em casa, Izabel organiza os parabéns a nossa querida filha, com bolos e refrigerantes. Oito anos de idade.

17/18

Com o Teatro Amazonas cheio, a cidade triunfou do marasmo vivendo o melhor de seus dias num clima de arte, ao despedir-se de seu pianista maior Arnaldo Rebello, de volta ao Rio de Janeiro. O ponto alto da noite esteve com a soprano Blanca Antony Bouças, acompanhada por Arnaldo ao piano. Uma breve letra de minha autoria, com música dele, foi cantada em coro no encerramento da programação, sob a batuta do velho maestro:

Saudades antecipadas,
saudades deste momento,
nas futuras madrugadas
que sejais meu pensamento.



sábado, 11 de agosto de 2012

DUETO PARA SOPRO E CORDA





SONETO PARA UM VELHO TELHADO


De calha em calha ondula o gato; a janta
Vai chegando ao final sob este espaço
Onde não chega o ácido mormaço
Quando a tarde é mais forte e a lua tanta.

Diante do gato um pássaro levanta
Seu vôo meticuloso, ao gesto e ao passo
Do romântico chano: agora é de aço
O brilho visceral que a noite espanta.

Enquanto ossadas limpam-se da mesa,
Secam lá fora os grilos da incerteza,
Telhados ardem na paisagem suja.

Não sei mais desse gato. O passarinho,
Mandei que fosse em busca de outro ninho.
Naquela casa, pia uma coruja.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

DUETO PARA SOPRO E CORDA

SONETO A UMA TELA ESQUECIDA

Douradas estações fazem seu lume
de ontens sangrados e amanhãs nevoentos.
Que somos nós? Tutores desses ventos,
breve fulgor, insólito perfume.

Celebrar esse instante era costume
sob as copas de bosques cismarentos;
dele jorraram vinhos sumarentos,
dele a canção do afeto e do negrume.

Entre o sono e a vigília, amor e tédio,
crestam videiras; lá, barra-se o dia
que à cena empresta um rústico debrum.

Assim pintores viam, sem remédio,
fixar-se o tempo escasso da alegria
na sucessão de um brinde apenas um.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

DUETO PARA SOPRO E CORDA

SONETO PARA BOCAGE

Que sabes tu de mim, rosto sereno,
mão armada de cálamo, chinelo
diante do pé lanhado e não pequeno,
em tudo a imagem de polichinelo?

Que sabes do que sou, profundo anelo,
sempre avesso ao teu lodo, embora ameno
ou pálido me adentro em teu castelo
e bebo do teu vinho e teu veneno?

Que sabes deste outro que procuro,
Se reverbero enquanto te consomes,
e entre nós se levanta um novo muro?

Fardo que me aprisiona, quem imagina
ser um monstro fugaz, com tantos nomes
a fera em que me escondo e me assassina?