domingo, 18 de agosto de 2013

A METONÍMIA E A SINÉDOQUE

(LIRIA PALOMBINI, GRAVURA)


A METONÍMIA E A SINÉDOQUE
 
                   Não se deve confundir a metonímia com a metáfora, pois a figura metonímica tem o seu objeto real e a este objeto se acha ligada pela nomeação ou “transformação” daquilo ou de algo que com ele se relacione (de causa a efeito, de matéria a objeto, de continente a conteúdo, de ação a sujeito, do genérico ao específico etc.). Como Waterloo, que substitui a derrota de Napoleão Bonaparte no poema “O Livro e a América”, de Castro Alves:


O Livro este audaz guerreiro
que conquista o mundo inteiro
sem nunca ter Waterloo...

                   Sinédoque é a figura do todo que nomeia a parte, ou da parte que nomeia o todo. Vela por barco; água por lágrima etc. Dirigindo-se a uma área específica do ensino de Literatura, alguns mestres advertem tanto para o significado (lógico) das palavras, quanto para a significância destas como instrumentos de poesia, onde a semelhança aparente metáfora/metonímia/sinédoque, confunde os leitores. Será, portanto, fundamental observar as diferenças entre os planos de idealização e a realidade em foco.



II.5.5 - O SÍMBOLO
 


                   Como significado ou representação de algo, o símbolo, em poesia, concretiza-se em, ou passa de metáfora a símbolo pela repetição ou pela incorporação de elementos afetivos, estéticos, entre outros, com força necessária para fixar, geralmente numa só palavra, o terror ou a beleza dos fenômenos evocados. Nelly Novaes Coelho exemplifica o “corvo” como símbolo da morte e do jazigo, citando Bocage. Na galeria dos animais – escreve o professor e crítico Othon M. Garcia – quantos não são os símbolos ou personificações de sentimentos, idéias, vícios e virtudes do homem? A águia, talento, perspicácia e também velhacaria; o cágado e a lesma, lentidão; o cão, servilismo e também fidelidade ao homem, seu senhor; o chacal, voracidade feroz; a coruja, sabedoria; o camaleão, mimetismo e versatilidade de opiniões; o leão, coragem e bravura; a lebre, ligeireza; o rouxinol, canto melodioso; o touro, força física; a pomba, inocência indefesa; a víbora, malignidade... Símbolos... Símbolos... (Comunicação em prosa moderna, Othon M. Garcia, 7ª ed., Fundação Getúlio Vargas).
 


II.5.6 - A ALEGORIA


 
                   Figura inseparável da fábula e da parábola, a alegoria detém um poder de transfiguração total. Suas normas, como espécie de figura, remontam a Quintiliano, que a dividia em pura (a um passo do enigma) e mista, esta última provida de indicações marginais possibilitando a associação da coisa descrita com a subentendida (PDAP, Geir Campos, etc). Com mais pormenores, explica Nelly Novaes Coelho, ob. cit.: “Na transfiguração alegórica já não se trata de um termo real, mas de um todo real (A) que se oculta sob um todo ideal (B). Na alegoria o plano literal vale por si, mas só adquire a sua real significação quando transposto para o plano figurativo. Veja-se, por exemplo, o soneto de Olavo Bilac, “Sahara Vitae” (= o Saara da vida), onde temos – no plano literal da figuração poética – a visão de uma caravana que atravessa o deserto e que é exterminada pelo simum, vento muito quente e avassalador que sopra do centro da África para o norte. Pode-se afirmar que tal soneto é todo ele expresso com signos reais (= a caravana, o céu, o sol, o simum etc.), porém o valor essencial de sua mensagem poética repousa em seu plano significativo transliteral: a visão da vida humana como uma dura e sofrida caminhada para a morte. Aceito nessa perspectiva, ele passa a ser lido como uma série de sugestivos signos metafóricos.”


                   Caindo em desuso e transformando-se desde a Antiguidade Clássica e a Idade Média, a alegoria assume, na prosa, “formas especiais” como o apólogo, a parábola e a fábula.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

QUASE ELEGIA

QUASE ELEGIA
 
Como depois de uma
EXPLOSÃO,
estou só.
 
Uma chuva, talvez,
escurece minha rua.
Estranha e fina,
ela penetra o solo do bairro
e desce pelos meus ombros.
 
Tão límpida,
que eu me retiro do caos
com as sobrancelhas
do arco-íris.
 
 

domingo, 11 de agosto de 2013

POESIA FALADA



POESIA FALADA

 

As palavras

só mudam de posição,

quando mudam.

 

O léxico pára, constipa-se.

Dilui-se numa torrente

de bocas paralelas.

 

Fecha-se o trânsito.

Emergem os calçadões,

canteiros, placas,

monumentos. Os

copos de plástico

asfixiam as bactérias.

O bronze roubado

divide as metalúrgicas.

 

As colisões são tantas

que os nomes

soterram os numes.

 

 

sábado, 10 de agosto de 2013

ODE À AMÉRICA DO SUL


ODE À AMÉRICA DO SUL

XIV (sursum corda habemus)

O giro vesperal das andorinhas
sobrevoa os transcursos das cordilheiras;
paira, depois, sobre os telhados gastos
pelo mofo dos armários vazios
e o esquecimento das chuvas.
Elas tomam as sereias de tuas falanges,
dedilham a ira dos terremotos.
Mais do que nunca teu coração vacila,
mas sente-se pleno em curtir a polêmica união
entre o Ocidente dos filósofos
e a pátria dos cardos ensolarados.
Terá sido esta a pausa dos monumentos,
o tremor que se estabiliza nos ossos,
a reflexão que se deixou cair das pálpebras de água
no enterro dos navios.

Uma sombra te acompanha desde que nasceste,
orográfico e triste,
de pais que vestiam a paisagem dos trens de ferro
com os andrajos da mulher de Bolívar,
a insepulta de Paita.
Teus versos são lições de uma geografia da alma,
rochedos floridos de ternura.
Soltos na madrugada,
eles rastreiam fragrâncias, matizes,
números e signos gravados na espuma
e no cansaço das festas.
São metáforas da hora incalculável,
a incrível marca do passageiro.

Depois das estradas, Neruda,
o amor te concedera uma pausa,
um silêncio neutro que irrompe dos tanques
cobertos pelo trigo;
uma pausa que pergunta a cada coisa
se tem algo mais. E a cada palavra
endereça uma rosa. Neruda épico, lírico,
e que tampouco deixa de seguir os passos noturnos
de Lautrèamont, de Pascal e dos Três Mosqueteiros.


Teus cantos são cantarias de luar,
pólens de ouro e neblina.
Oh América do Sul


(Publicado no jornal O PÃO de Fortaleza-CE, Ano V-No. 36-em 13-12-1996). Atualizado em 2008)..




quinta-feira, 8 de agosto de 2013

ODE À AMÉRICA DO SUL


ODE À AMÉRICA DO SUL

XIII (entrefala e louvação)

Deixemos, portanto, as amoras,
o etéreo veludo celeste, o filme vazio,
a novela das oito
e as ruas por onde não passaram
bandeiras despedaçadas por um grito maior
que a esperança dos mortos.

Deixemos de lado as violetas
que ardem nos versos prematuros
daqueles que nunca percebem o gemido
das salamandras
nem a fuga dos girassóis alucinados.

Deixemos de lado o jarro de Matisse,
a gôndola que imita o cisne de Isolda,
as olheiras roxas das janelas caiadas
pelo terror dos massacres.

Louvemos Neruda que, em sorvos miúdos,
provara do vinho amassado com a terra,
o suor e as lágrimas de quantos,
no Chile, na Espanha e na Turquia,
conseguiram, em seus momentos finais,
erguer a face do entulho e da lama,
cuspir na bota dos tiranos.

Louvemos Neruda pelos gestos perenes
de salvar um carneiro da morte,
uma rosa da escuridão e muitos,
centenas de amigos,
do cárcere infecto e da bofetada humilhante.

Saudemos Neruda
com uma taça de beija-flores.


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

ODE À AMÉRICA DO SUL


ODE À AMÉRICA DO SUL

XII (a Pedra do Reino)

Como então esquecer,
neste painel de teus milagres,
oh América do Sul,
a oficina armorial desse múltiplo Ariano Suassuna,
a poesia e a prosa que se deixam fundir
em seu romance d´A Pedra do Reino?
Assim também, igualmente,
como esquecer os poemas de Carlos Newton Júnior,
a cerâmica de Côca,
as lâminas e os palimpsestos de Virgílio Maia
ou a tenda agreste, mística e versátil de Audifax Rios?
E como esquecer as andanças dos ¨padeiros¨cearenses
em busca das cacimbas,
do aboio crepuscular,
do alpendre de seus avós e da espada
de algum rei com sua túnica de abelhas?
Pois é das artes desse Ariano vulcânico
e de seus valerosos cavaleiros,
as surpreendentes iluminogravuras,
diante das quais apenas o arco-íris, o novilúnio
e as doze talhas apócrifas da Via Dolorosa,
não são réplicas inúteis.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

ODE À AMÉRICA DO SUL


ODE À AMÉRICA DO SUL


XI (Thiago de Mello)

Por caminhos de San Tiago,
volta o poeta das angras
a quem doara o seu canto
pela causa dos humildes.

Levara o corpo sadio,
como quem leva a esperança
marcada a fogo no brigue
que, novo, se lança ao mar.

Os Estatutos do Homem
riscando o teto da noite
com seus mastros decididos,
quantos vilões não cegaram!

Mas, igual à copa náutica
das sapopemas gigantes,
que pelas vias de Tiago
desprendem flocos de sonho,

retorna, depois da luta
para o feno das raízes:
a copa – rica de estrelas,
o tronco – de cicatrizes.