terça-feira, 17 de setembro de 2013

O PAPEL DO ESCRITOR CONTEMPORÂNEO DA AMAZÔNIA


O PAPEL DO ESCRITOR CONTEMPORÂNEO DA AMAZÔNIA

(Discurso do presidente do Conselho Estadual de Cultura do Estado do Amazonas, Sr. Jorge Tufic, pronunciado na abertura do I Encontro Cultural da Amazônia, promovido pela SCA, de 20 a 28 de agosto/88)

Senhores escritores da Amazônia, sejam bemvindos ao Conselho Estadual de Cultura. É com imenso prazer que atendemos ao pedido e às recomendações da Superintendência Cultural do Amazonas, propondo a este Encontro, à guiza de tema, o papel do escritor contemporâneo da Amazônia.

Assim, perguntamos: de que modo poderão as Amazônias conhecer-se para melhor integrar-se em sua própria defesa, enquanto preocupação daqueles que a vislumbram ou intensificam na trama de um romance, na metodologia de um ensaio ou na metáfora de um poema? O que, afinal, se conhece deste fenômeno, numa visão conjunta de sua história, ou de quantos deslumbramentos se tenham convertido na exploração de motivos tirados de sua paisagem, sem excluir o exótico e o pitoresco? Podemos, ainda, considerar exauridos os ciclos econômicos da região, o diálogo de suas grandezas naturais, os episódios de guerra, a ecologia, o problema das populações autóctones e as atmosferas localizadas, com larga tematização e quase nenhum empenho em aprofundar ou renovar os instrumentos da língua e da linguagem?

sábado, 14 de setembro de 2013

O DÉCIMO QUINTO DIA

                        O DÉCIMO QUINTO DIA
 
 Depois de algumas tentativas, no teatro e na simples recolha do lendário para fazer “estrelismo”, cujos autores acabaram falhando por culpa da pressa, exatamente nessa pausa estratégica em nada favorável para editar livros, Getúlio Alho solta o produto de seu trabalho, conquista o prêmio “Cidade de Belo Horizonte”, e resgata a boa prática do trançado indígena em seu plano de romance. Ele já tinha, inclusive, a experiência de “Anhuera”, o inventor do futuro. Aqui também – neste “O Décimo Quinto Dia”-, estão reunidas as marcas vivas de suas inquietações pela posse de elementos capazes de fazer a textura do enredo, sem cair no relatório. Daí a interferência do nheengatu e do tucano, alternando as falhas da História com a vigília cósmica daqueles filhos das águas pretas.
Nos dois incidentes mais graves da expedição, onde quatro índios e um branco são mortos, verifica-se claramente que o que houve entre eles foi falta de comunicação, essa mesma que falta entre o homem e a natureza. Nem por isso, contudo, Balbina deixaria de ser construída: “Um lago de um milhão de metros cúbicos numa área de mais de quinhentos mil hectares...” Expedições anteriores dizimaram as tribos de autóctones e despacharam os garimpeiros para uma outra área. As folhas das árvores ecoam nas folham do livro, e esse trânsito de imagens fertiliza o registro das menores ocorrências, fenômenos, coisa, ação. Súbitos mergulhos no passado de cada personagem ligada à região pelas raízes do umbigo, descortinam, por outro lado, os tremendos conflitos que arrazaram os parintintins. Numa outra viagem de memória, Domingos revive a maloca de seus antepassados, e a breve “cerimônia” de seu casamento: - “Taqui tua mulher. Cuida dela pra que ela te dê muitos filhos!” – A moça pirá-tapuia ficou ao seu lado, humilde, quieta, submissa. Ele se levantou, deixando-a só, e foi pescar. Voltou com um peixe: - “Toma. Prepara pra gente comer.” – Ela recebeu o  peixe, limpou-o e preparou-o, servindo-lhe com beiju e pimenta; só depois que ele acabou de comer é que se serviu e comeu. Estavam casados.”
A constante da obra, no entanto, é o empenho de Batista, o chefe da expedição, em tornar viável o projeto de Balbina. Racionando à maneira dos  primeiros colonos portugueses, parecia-lhe anormal e descoberto de lógica deixar “milhões e milhões de quilômetros quadrados de matas virgens à disposição de meia dúzia de índios que logo morreriam de fome, desprovidos de ferramentas ou capacidade para tirar da terra o mínimo para seu sustento diário”. A lógica formal, o Santo Ofício e o “martelo das feiticeiras”, exorcizavam agora, em nome da Represa, a todos quantos, filhos da gleba primitiva ou netos do trovão, se oporiam de algum modo ao traçado dos altos gabinetes de Brasília. O destino da região já estava decidido. Desse no que desse!
Linguagem simples, informação copiosa, realismo-naturalismo sem retórica, técnica segura, relato vivo, crítico e atual para avaliar-se o tamanho da violência para tão poucos resultados práticos – este é o livro do escritor-arquiteto Getúlio Alho, e onde, ao término de sua leitura, esta pergunta desaba sobre nós como se fosse a própria represa de Balbina: - Valeria a pena fazer isso?
Hoje sabemos que não. Que não valeria.
 
 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O DÉCIMO QUINTO DIA

 






               

                      O DÉCIMO QUINTO DIA
Em termos de física moderna, “um objeto em movimento parece contrair-se na direção de seu movimento e se encurta à medida que sua velocidade aumenta, até que, ao alcançar a velocidade da luz, desaparece completamente ( “A Dança  dos Mestres Wu Li”, Gary Zukov, ece editora, pag.141). Em tempos de ficção literária, essa teoria extrapola da realidade da física no continuum espaço/tempo, em sentido contrário: aqui, a narrativa se expande no tempo real e, quando atinge as soluções mais imprevistas, já não cabe no espaço imaginário de  um simples dia cronológico, mas ala-se com a noite para nunca mais terminar. Na “velocidade” de cada situação ou segmento da estória, a duração joyciana trava as  cordas do relógio para conferir o terreno descontínuo da marcha obrigatória. E assim, num só dia, o autor deste livro instaura, na selva amazônica gizada para a construção de uma grande hidrelétrica, a “Odisséia” de uma expedição científica nas matas do Uatumã. A semelhança de “Ulisses”, de James Joyce, seus capítulos obedecem à uma divisão ternária, mais convencional  do que propriamente cabalística , enquanto o texto da obra se comporta tranquilamente numa só divisão quaternária, aí sim, querendo talvez sugerir a alternativa de várias escalas em busca de uma quarta musical, onde todos os sons, ruídos e mistérios da biota tragam porventura a resposta certa para uma única pergunta: - “Valerá a pena fazer tudo isso?” 
Mas enquanto a resposta não vem, os seis integrantes do grupo estão a caminho: um botânico, chefe da expedição, um zoólogo, um geólogo e um engenheiro florestal. No apoio, José, caboco da região, mateiro e cozinheiro, e Domingos, guia. Domingos, o índio, surpreende com as suas andanças, previsões e descobertas durante todo o percurso. Componente mágico da pesquisa em demanda das terras altas ou do platô, sede e comando virtual do gigantesco projeto, divisor de águas das bacias do Uatumã e Urubu, o guia nativo parece vencer o mutismo  e não se cansa de afastar a cortina invisível do som e da sombra, para revelar os perigos da floresta. Implica também com a burrice e o instinto predatório do caboco: “Caboco não tem cara de nada. É mistura” (pag.21). Chega-se a ouvir a bulha do mateiro rompendo, com seu terçado, a galharia fechado e o cipoal teimoso. Atrás dele ou passando à frente embrulhado no jogo das nuvens, ora indulgente com a falta de sutileza do caboco, ora dono da trilha e do mato, Domingos é o pé de onça. Enquanto um pisa, o outro levita. Enquanto um caminha, o outro se desloca. E assim vão, com os homens do instrumento, da ciência e da dúvida reunindo e dando ordens para acampar. De 6 às 9, de 9 às 12, de 12 às 15, de 15 às dezoito horas de um dia qualquer, o décimo quinto de uma expedição parcialmente esmagada pela ameaça do confronto desigual, movido a diesel, com a selva primigênia, algo maior do que todos os papéis da equipe inspira o autor onisciente a pesar os dois lados. Jorra então o saber, ou a sabença que gera o ensaio. Na verdade, ressalvada a técnica e a linguagem próprias do romance, este livro de Getúlio Alho tem desde já assegurado lugar de destaque entre os melhores que falam da Amazônia.


 
 


 

sábado, 7 de setembro de 2013

Violeta Branca e sua época


Violeta Branca e sua época

                           Jorge Tufic

A partir de 1930, portanto, fraquíssimos eram ainda os reflexos da Semana de Arte na literatura amazonense. Contam-se a dedo os nomes que defendiam a Escola moderna. Mas ocorre aí um fato bastante singular na vida literária de Manaus, talvez inexplicável sob o ponto de vista da coerência intelectual: em 1935, a poetisa “modernista” Violeta Branca publica no Rio de Janeiro, seu livro de poemas “Rythimos de Inquieta Alegria” e, dois anos depois, consegue eleger-se membro da academia Amazonense de Letras. O fato assume um tom de saborosa incoerência, de vez que a poetisa, além de modernista, e como tal deslocada no meio acadêmico, fora a segunda mulher brasileira a figurar numa Academia.

 

 

Violeta Branca Menescal de Vasconcelos nasceu em Manaus, no dia 15 de setembro de 1915 e faleceu no Rio de Janeiro, em 7 de outubro de 2000. Ocuparam-se de sua obra, dentre outros, Genesino Braga, Tenório Telles e Marcos Frederico Krüger, tendo merecido , de Almir Diniz, em seu livro Mulheres, a homenagem de um soneto intitulado Canto de Liberdade. Não são poucas, contudo, as homenagens que ela tem recebido no decorrer destes últimos dez anos, destacando-se, para estudo e consulta, Violeta Branca (O poetismo de vanguarda), ensaio e documentário de Carmen Novoa Silva, de quem foi amiga até a data de seu trespasse. Vale a pena reler este livro, no qual, também, comparece uma transcrição da Antologia Poética da Mulher Amazonense, do escritor Danilo Du Silvan, editada em 1984. Embora sem os recursos formais de Cecília Meireles, nem, também, sua profundidade conceitual diante do mundo, Violeta Branca, afinal, segundo Tenório Telles, pertence à primeira fase do modernismo. ¨Seu discurso poético é fluido, despojado de qualquer pretensão acadêmica¨, conclui esse mestre. Feminina, inclusive, não nos parece, em nenhum momento, preocupada com o gênero de sua própria  inquietação lírica ou existencial, enfatizando, sobretudo, a monumentalidade interior que se apressa a fazer de seu canto um jornal de surdinas e confidências, algumas vezes pueris, mas sempre como se estivesse entre árvores e pássaros.

Não me garanto a suposição, mas, segundo um velho amigo e colega do Clube da Madrugada, cruzáramos no Rio de Janeiro e em Manaus, sem que Violeta Branca soubesse qualquer coisa sobre mim ou eu duvidasse da sorte que me envolvera, por segundos apenas, no ar de sua presença profundamente evocativa, suavemente encantadora. Assim é a vida, e o que poderia ter sido pouco bate com as perfumadas lembranças do que realmente, foi.

N do A: palestra proferida na noite de 21 de dezembro de 2012, no auditório da Academia Amazonense de Letras, em comemoração ao centenário de nascimento de Violeta Branca.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Violeta Branca e sua época




Violeta Branca e sua época 3

                           Jorge Tufic

 Mesmo depois dessa etapa, quando o movimento modernista assume novos aspectos, filtrando a experiência estética libertadora numa tomada de consciência em face da problemática nordestina, nada podemos constatar na literatura amazonense como reflexo positivo daquele movimento artístico e literário. Enquanto isso, Pernambuco já tinha lançado seu famoso “manifesto regionalista” enquadrando em seu contexto “a realidade histórico-cultural nordestino, com seu cenário geográfico, sua dramaticidade, a sua tipologia humana e a sua mitologia popular”. Os resultados concretos desta tomada de posição nós vamos encontrar nas obras de José Américo de Almeida, José Lins do Rego e Graciliano Ramos. No romance, os nossos escritores fincavam baliza entre o ensaio e a prosa de ficção, ressaltando-se, contudo, a importância documental  e sociológica dos temas enfocados, do “inferno verde”, de Alberto Rangel à “A selva” de Ferreira de Castro. Perdidos no cenário amazônico, passávamos aos poucos da noção de inferno verde para a tônica ufanista da terra verde, sem, nem por acaso, lograr-se ultrapassar as fronteiras da “informação copiosa”, da observação “fidedigna”, isto situados genericamente na literatura amazônica, onde, inclusive, repontam as novelas de costumes, as contribuições de fundo ecológico e o lado puramente descritivo, cujo pano de fundo são os célebres “gaiolas”, as lendas regionais e o contraste pitoresco dos enredos amorosos de Hollywood enxertados na paisagem fluvial. Segundo Peregrino Junior, a fase chamada “modernista” da literatura amazônica, está ligada apenas aos nomes de Abguar Bastos, Dalcídio Jurandir, Gastão Cruis, Raul Bopp e Peregrino Junior. “Ao lado dessas” – relata Peregrino Jr. – “muitas figuras secundárias e acessórias, de filiação difícil que nem por isto deixam de ter sua parcela de interesse. Como se sabe, no regionalismo, muita coisa de escassa importância literária tem grande importância sociológica, isto é, pela documentação e pela informação”.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Violeta Branca e sua época 2

Violeta Branca e sua época
                           Jorge Tufic
 
 
Em 1929 surge “Equador”, também dirigida por Clóvis Barbosa. Esta revista fazia parte da série “Panorama literário do Norte de hoje”, um verdadeiro slogan de renovação cultural. Seu prefácio dá a entender que ela vigora na prática do melhor antropofagismo sulista, e condena a subliteratura que se exercitava em seu nome, em outras regiões do país. E defende um regionalismo comportado na trilha aberta por Mário de Andrade e Cassiano Ricardo. “Uma etiqueta passadista viciou a arte brasileira com estrangeirismos retóricos. Está errado. Tão errado como compreenderem que brasilidade modernista é escrever em cassange o elogio dos lugares-comuns da nossa paisagem”. “Neste brado grandiloquente só reboaram as investidas de seu primeiro e único número”, de conteúdo que nada tinha do que se pregava no introito referido. Seu denodado proprietário e orientador não conseguiu atingir as culminâncias previamente anunciadas, por contingências mesológicas. É preciso notar, porém, que Clóvis Barbosa não descurou da capacidade de nossos homens de letras, ou seja, daqueles que acreditavam nas possibilidades do movimento renovador, visto pelos passadistas como um ciclone no pensamento literário, a exemplo de hordas iconoclastas”. Arrostando toda a sorte de imprevistos e má vontade, ele investiu novamente voltando a publicar, dessa feita, a revista “Redenção”, que alcançou, em parte, sua verdadeira finalidade. É o que se deduz pela verificação dos nomes de realce que dela participaram. Em “Redenção” militaram figuras representativas do ¨modernismo¨ amazonense , a saber: Miriam e Aldo Moraes. Abguar Bastos, Ramayama de Chevalier e Francisco Pereira. Esse órgão “oficial” dos “modernistas”, o mais importante que tiveram, viveu duas fases: a primeira, de 1924 a 1927. A segunda fase vem de 1931, com uma nova reação ao próprio modernismo impregnado de sentimento nacionalista, que se fazia sentir nas metrópoles do país – para desaparecer definitivamente, entre 1934 ou 35. “Ainda podemos mencionar a revista “Vitória Régia”, dirigida por Francisco Benfica, que abrigava, como filhos bastardos, produções de poetas “futuristas”. A revista “Cabocla”  contribuía, por igual, no sentido de propagar o movimento de 1922 no Amazonas, publicando poemas e crônicas que traziam a chancela de Genezino Braga, nem inteiramente divorciado do passadismo nem integrado na psique revolucionária do modernismo. Havia também, o jornal Reação de Moacir Dantas, cuja  pagina literária domingueira editava poesias de Sebastião Norões e Mário Ypiranga Monteiro. “Era desnorteante” – escreve Francisco Batista – “o contraste da página literária do jornal “Reação”: Parnasianismo e modernismo, o que atesta o empirismo telúrico. O próprio dirigente da folha, Araújo Neto, era poeta passadista, regido pelos cânones ditados pela musa de Bilac. Nessa mixórdia parnaso-modernista víamos dois interesses, diametralmente opostos, conciliarem-se pelas injunções espaciais de um suplemento de jornal”. Tudo parece ter ficado nisso.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Violeta Branca e sua época

Violeta Branca e sua época

                           Jorge Tufic

 

A semana de arte moderna de 1922, em São Paulo, apesar da violência renovadora insuflada pelos seus prógromos e lúcidos admiradores, não chegou por aqui senão após o ano de 1954, exceto por algumas tentativas poéticas isoladas, tendentes a um regionalismo ufanista ou apenas seduzidas pelo culto do verso livre sem qualquer liame com as velhas formas parnasianas de arte-pela-arte.

Francisco Ferreira Batista, em sua conferência feita em 1955, na escola de Serviço Social, subordinada ao título “Conceituação do Modernismo no Amazonas”, aponta “O poema do Tarumã”, de José Chevalier, como o primeiro artefato modernista publicado em Manaus, “equivalendo seus efeitos, na oportunidade, aos causados pelo discurso proferido por Graça Aranha, na Academia Brasileira de Letras”. Na primeira fase destes surtos individualizados, com intuitos simplesmente adesistas na divulgação de uma que outra tentativa poética “Futurista”, assim chamadas na época, fora a revista “Redenção”,de Clóvis Barbosa, surgida por volta de 1924, que dera abrigo à incipiente manifestação rebelionária de alguns pioneiros. Em 1927, o ex-deputado Francisco Pereira da Silva lança a coletânea “Poemas Amazônicos¨, fortemente marcada pela corrente modernista que se arraiga aos motivos da terra, dentro do esquema nativista sublimado pelo grupo “anta”, constituído por Menotti del Picchia, Plinio Salgado, Cândido Mota Filho, Raul Bopp e Cassiano Ricardo.