sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Poemas para minha aldeia


Poemas para minha aldeia


Jorge Tufic




São raros, hoje, os textos de poesia que não temem a crítica por assumir uma postura independente da parafernália daqueles que estão mais para as letras de música pop, do que mesmo para uma lírica moderna, ainda em paz com a arte do soneto, do verso livre, das redondilhas que lembram Rosália de Castro, a par de cânticos e louvores da terra, quase evocativos de autores como Ronald de Carvalho e Judas Isgorogota. Pois este Poemas para minha aldeia, de Sarah Rodrigues, traz-nos de volta as delícias de todo esse cancioneiro perdido entre as névoas de um passado recente, sem, contudo, deixar de ombrear-se aos maiores de nossa atualidade, quer pela escolha e desenvolvimento de seus temas, quer pelo senso lapidário de suas estrofes solares, com maior empenho formal quando elege o soneto como seu modo predileto de forjar os momentos eternos da vida e da morte. Exemplos disto iremos encontrar naqueles intitulados de “O corpo da paixão não terá sono”, “O olhar se perde agora na moldura”, “Coração deserto”, “A velha seringueira”, o dedicado a seu pai, para citar apenas alguns de uma série realmente antológica.

Os demais são poemas intercalados que tratam de motivos diversos concernentes ao planeta amazônico, seu amor à terra, com a imagem do rio, das paisagens e dos fenômenos cromáticos e meteorológicos, num diálogo permanente de quem ama a vida e sabe cantá-la tão bem quanto os pássaros mágicos do lendário perdido. Ou seja, daquele que só os poetas compreendem nas vozes da natureza.

domingo, 10 de novembro de 2013

Centauros urbanos



Centauros urbanos


Jorge Tufic

 

Neste livro, que considero um dos melhores da trajetória poética de Francisco Carvalho, hão-de encontrar seus leitores, nas duas vertentes que lhe nutrem a inspiração e o trabalho –  quais sejam, o lirismo e a problemática do ser – pascalino ou litúrgico, como vivente de uma esfera sujeita à morte e à decomposição – aquela pausa maior em que nada pode ser resolvido senão através da poesia. É nessa fronteira, também, que o filósofo E. M. Cioran descarboniza o pessimismo de seu famoso breviário: “o universo não se discute, se exprime”.

 

A marca expressiva do Autor, festejada desde que se estreara nas “artes músicas”, continua, ao ver de alguns críticos, inalteradamente progressiva em cada uma de suas gloriosas etapas, não sendo estes Centauros urbanos uma exceção à regra: ele é uma prova a mais de sua força verbal e do poder que lhe anima para atingir o núcleo metafórico dos mais límpidos diamantes da escrita.

 

Ao prosseguir nas minhas anotações, tendo em vista escrever alguns parágrafos sobre o livro, detive-me um pouco numa resposta de Lêdo Ivo quando fora este solicitado a fazer uma seleção antológica de sua obra poética. Disparou, então, este mestre das nossas desilusões da literatura “que todos os poemas de sua autoria foram escritos simultaneamente”, e que ele não percebia neles “o emblema do passado ou o estigma do presente. Todos eram contemporâneos, habitavam o mesmo momento” (Vera Lúcia Oliveira, Revista da ABL, pág.201, ano 2002).

 

Assim tem sido e assim contemplo, a distância, a impregnante e sugestiva poesia de Francisco Carvalho, magnum opus que está a merecer uma edição especialmente cuidada por editores qualificados, reunindo sua obra completa, sem prejuízo de que o vate, ainda por longos anos, prossiga dividindo o seu tempo entre a burocracia da Universidade Federal do Ceará e a colheita umbrosa de Hafiz, ou das insônias de Van Gogh.

 

Mas qual o preceito, a diretriz do poeta?

 

Em nenhuma lógica se enquadra o poeta, em particular o poeta cujo original tenho aqui para honra da minha escrivaninha. Ele é ubíquo, introvertido, onilateral e onipresente; numa palavra, demiurgo. Nessas viagens, por acaso, ele vai ao encontro de Proust, Homero, Fernando Pessoa ou Rimbaud. Pode até ser barroco, no que tende a sentir, como no primeiro citado, as tenazes do “tempo perdido, a obsessão do tempo como evanescência, o apego inútil à sensualidade do instante, as horas que voam, o vanitas vanitatum, a vida sonhada mais que vivida, o ser e não ser entre dois agoras, entre há pouco e daqui a minutos”. (Augusto Meyer, Proust, Vida e Obra, Correio da manhã 19/11/96, Rio de Janeiro).

 

Tais sentimentos se fundem e se estilizam por uma representação mais forte do objeto invocado, ou pelas ambiguidades, traços estes comuns na poética de Francisco Carvalho. Há outros ângulos, porém, um denso textuário, riquíssimo e vasto, ao dispor dos leitores.

 

Deste modo, quem tenha observado o “movimento” ou os “movimentos” na poesia desse veterano, há-de notar que ele sabe, tanto quanto os mais atentos exegetas ou filólogos, que a persistência dos hábitos adquiridos em séculos de cultura estratifica os conteúdos da palavra. Quando ele diz, por exemplo, “formigas elétricas”, “papoulas de arame”, ou repete a preposição “sem” como se fora “cem”, numeral, dialetizando a ausência de algo com a possibilidade “real” do que pode ser visto e captado, isto revela, sobretudo, um domínio da experiência exaustiva sobre o léxico estático, de que se devem tomar por empréstimo um mínimo de peças para um máximo de jogo.

 

E, então, como se veste o poeta em sua nova performance?

 

Aqui são fios de lã, no recesso doméstico, em atrito com os “pneus no asfalto”. São galos “prenunciando genocídios”, onde as vidas íntimas se evaporam. É a noite “que chega dos pântanos/e solta sua matilha de dentes amolados”. São “torres que desabam”, “destroços do apocalipse”. “Uma aranha tece a teia/ nos galhos ressequidos/ de uma roseira morta”. Em “Reflexão Urbana”, “Homens e robôs manipulam algarismos/ e fórmulas matemáticas/ para um mundo devastado pela fome”.

 

Ao lado dessa temática atualíssima, contudo, ambientada agora nos centauros mecânicos, essas incríveis entidades alegóricas que se tomam de amor pelos oráculos da cibernética, não deixa o poeta de quedar-se, elegíaco, diante da bela da tarde, ou fechar-se na câmara do tempo circular, transmentalizando o inescrito de sua provisoriedade acadêmica, oposta ao sensu cosmicu. Mas, não será por isso, nem por aquilo que o Esteves vai ficar sozinho ou que as águas do Tejo se possam deslembrar de Camões ou das serestas coimbrãs. Convém frisar, ainda, que Francisco Carvalho não abre mão, neste livro, nem da metalinguagem nem do metapoema, tudo conforme as acepções conferidas a este verbete pelo mestre Batista de Lima, ao discorrer sobre a poesia de Mário Quintana, (Batista de Lima, Caderno Cultura, Diário do Nordeste, 23/02/03).

 

Concluindo: trata-se de um livro denso, com muitos poros semânticos a recenderem visões apavorantes, por um lado, como na “Ode ao Episódio”, e, por outro lado, a nos chamarem a atenção para o João Pimenta, carregador de anjos, entre tantos outros achados raríssimos do mesmo cotidiano, a exemplo das “formigas elétricas”, dos “caninos podres das espigas”, do balir da flauta...Valeu, Poeta!

 

Nota: as obras completas de Francisco Carvalho foram publicadas anos após esta resenha. E até hoje, graças a Deus, o poeta continua a produzir o melhor que pode, e sempre podendo mais.           

 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Adeus, amigo Neto!



Alencar e Silva, na Academia Amazonense de Letras,
em julho/2007.

Jorge Tufic




Hoje, dia 25 de setembro de 2011, se aparta de nós o poeta-irmão Joaquim de Alencar e Silva (o Neto, como sempre foi chamado), e, em seu lugar, nesse Rio de Janeiro que ele tanto amara, fica a primavera recém chegada, somando às flores do seu velório uma galáxia de bogaris e crisântemos, numa festa também de rosas ao lírico de LUNAMARGA e tantos outros livros de sua autoria. Chegou-nos a notícia através de um telefonema do Max Carphentier, e, logo, pela Internet, começa a expandir-se a foto do poeta e um resumo de sua biografia. Tudo muito rápido, enquanto as grandes famílias Dutra e Alencar pranteavam o trespasse desse inigualável pai e esposo, sem a menor quebra de harmonia entre sua pena de ouro e os encargos decorrentes do aconchego doméstico, frequentemente dividido com os amigos de longos anos, parentes e a gente humilde de Botafogo, bairro onde a Casa de Rui Barbosa permanece como um símbolo de tradição e respeito à história de nossa cultura.

Para mim, que devo tudo o que sou a ele, no que tange ao saber e ao aprendizado das letras, e apesar do quadro de saúde nada esperançoso que vinha apresentando nos últimos meses, a notícia dada pelo Max à Izabel, pelo telefone, encontrando-me eu ausente de casa, conseguiu nos abalar como se o mundo acabasse de ser atingido por aquele meteoro de que nos fala Henri Klibnik, autor de “La Grande Peur de Lan 2000”. Sem ação, contudo, restava-nos apenas ficar imaginando o que realmente teria acontecido ao Neto, sem ninguém disponível, nesse domingo, a nos dar qualquer luz nesse túnel de angústias e dolorosas interrogações, tendo às voltas dramas e tragédias como estas das cidades desertas pelo final de semana, a par de uma inexplicável ausência de profissionais da saúde nos postos de atendimentos. Em seguida, porém, telefonou-me o Renato Farias, ansioso também para obter informações concretas sobre aonde poderia se dirigir para o último adeus ao querido amigo. E, por último mesmo, recebi o telefonema do Saulo, quando, enfim, já não tinha mesmo jeito, choramos juntos.


Alguns meses antes, presenteou-me o Alencar com um bilhete de passagens Fortaleza-Rio-Rio-Fortaleza, com estada em sua própria residência, em Botafogo, tempo esse, de dez dias, em que estivemos juntos, ajudados pela Hilma, sua filha, na escolha de 200 sonetos de todos os seus livros, para futura publicação, cujo prefácio escrevi, tomado por uma alegria e um orgulho imensamente juvenis, chegando a sentir-me azul diante desse mistério narcísico, segundo uma parábola de Oscar Wilde, em que o discípulo se vê como se fosse o mestre, olhando-se em seus olhos.

Antes de meu retorno a Fortaleza, ele e Nair, sua esposa, deram-me um terno novo do poeta, para que eu o provasse, e, dando certo, ficasse com ele como lembrança daqueles dias memoráveis. E assim o fiz, não contendo as lágrimas, já a bordo da aeronave, quando pude compreender o segredo e o mistério do verdadeiro afeto, diante do mar e da eternidade.

 


 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Palavras de leitor

Palavras de leitor

Jorge Tufic

Se é que existe uma poesia espontânea, leve, despojada, sem, contudo, abdicar da metáfora e do insight, aqui ela se encontra neste livro de Maria de Fátima Maia, em cujas rimas ocasionais, teatralização comedida e um lirismo permeado de sabedoria e bom humor, a simplicidade é o toque mágico de belíssimos poemas, alguns em tom de oração, outros contidos mas cheios de encantamento e ternura.

Há versos, neste livro, que mal tocam a superfície do papel, e nem precisam de reticências para flutuar entre o sonho e a realidade, entre a lágrima e o riso, entre o gesto grosseiro e a fuga para dentro de si mesma, esse abrigo sagrado donde se emana o bálsamo das grandes revelações em processo, embora lento, mas seguro do caminho que palmilha.

A poética de Fátima desvela um pouco de seu estofo bibliográfico, talvez ainda modesto, mas rico das influências recebidas a partir de Florbela Espanca, a quem dedica um dos poemas de “Palavritas”. É importante ressaltar, inclusive, a diversidade de estilos e técnicas com que deita e rola, dominando os segredos da métrica e do mais puro minimalismo, de causar inveja aos poetas que ainda insistem em confundir hai-kai com o trístico português.

Magia, precisão verbal e pudor diante da esfinge que nos devora com seu olhar feiticeiro, dão à textura de cada “objeto” deste volume um brilho diferente do outro, sendo todos, contudo, personas de uma única face iluminada pelo signo das transfigurações criadoras. Daí que, aos passos de hoje, ecos vindouros responderão com mais poesia ao que antes se reduzira a meras indagações em torno de sua existência abstrata, ou simplesmente hipotética. Por outras palavras, a tematização do fenômeno poético, de que ninguém jamais escapara, vai cedendo terreno à captura dos símbolos refratários.

Não será necessário dizer que a gente lê os poemas deste livro de um fôlego só. E o que vem a ser poesia senão uma busca contínua e pertinaz de seu nome verdadeiro, ou seja, do que é isso, afinal. Até que parece, às vezes, uma redundância tentar defini-la exatamente com as palavras de que ela nunca poderá sair, como sai a libélula de uma árvore.

E como faz, por brincadeira, Maria de Fátima Maia.

sábado, 2 de novembro de 2013

Voz Ceará, de Stella Leonardos

Voz Ceará, de Stella Leonardos

Jorge Tufic
 
 
                A seleção de “fragmentos” que dinamizam a rapsódia, se funda também nos princípios da Legenda e da Saga, a primeira incorporando a clássica “Legenda Sanctorum” ou “Legenda Aurea” (coisas a dizer, vida dos santos: legere = reunir, escolher), e a segunda como “relato, narrativa referente ao passado e, mais particularmente, ao passado remoto, tal como se transmite de geração em geração” (Jolles, André, in  “Formas Simples”, Cultrix, 1976). Dentre as várias experiências narrativas de Mário de Andrade, insere-se “Macunaíma, o herói sem nenhum caráter”, publicado em 1928, chamado, às vezes, de “idílio”, outras, de “rapsódia”, que assinala, segundo Massaud Moisés, “o caráter miscelânico da obra, ou sua indeterminação no painel dos gêneros literários”. 
 
                Neste “Voz Ceará”, a que a autora, Stella Leonardos, também denomina de rapsódia, nos surpreende descobrir como esta “voz” arrecada uma extensão bastante considerável de história, lendas, costumes, mistérios, fauna e flora, além de abraçar, com o tépido encantamento de seus versos, uma área igualmente consagrada de nomes da poesia cearense contemporânea, a exemplo de Virgílio e Luciano Maia, Artur Eduardo Benevides, Francisco Carvalho, folcloristas da cepa de Florival Serraine e cantadores da fama de João de Cristo Rei, João Lucas Evangelista e José de Matos. 
 
                Muito mais do que isso, ela conta, qual fosse um passarinho ágil e noturno, o que vê e o que tantos não viram ou deixaram de ver, mas de que ouviram certamente falar sobre estes inúmeros cearás que atravessam suas páginas, fazendo-nos deter, aqui e ali, ante passagens deveras exemplares da forma e do modo áspero desse imenso nordeste brasileiro, versátil e contraditório. Tecendo à vontade, sabendo que dispõe, para o feito em lavra, da matéria insone dos fatos consumados e do eloquente testemunho dos barcos e da paisagem, Stella empresta a cada traço verbal a leveza dos “elles” em que seu nome fulgura. Ela tem os olhos colados nas proas das jangadas, que por sua vez a olham, familiares, e transmitem, através de suas metáforas, a odisseia regional das “três raças-mamães brasileiras”. 
 
                Raramente um poeta, como ela, soubera harmonizar os elementos singulares da fala corrente, espontânea e carregada de significados, com uma linguagem tão fluida e tão bela, onde os espaços entre as frases constroem, alternado ao espaço gráfico propriamente dito, aquele sopro visível da poesia enlaçada à palavra mágica, inseparável do mito. 
 
                Começar a leitura desta rapsódia nos parece igual a reviver, de olhos abertos, de um lado, uma história que pouco conhecemos, e de outro, o avesso de uma realidade que somente a visão épica do rapsodo consegue transpor para a escrita. E aqui homens, serras, bichos, caminhos e tragédias, como que voltam filtrados por uma luz que se reflete na paisagem dos evos. Lendo-a, algo se restabelece dentro de nós: talvez a certeza de que tenhamos sido este passado; e o crédito de novas esperanças alteia-se nos arcos dos sonhos que ainda podemos viver e tocar para outros futuros. Como as jangadas, entre outros versos de SL:
 
 
                                               “Pertences de herdados mares?
                                               ou eu é que lhes pertenço?”
 
                                               .................................................
 
                                               “por sofridas tentativas
                                               de erguer a Cruz a caminho
                                               rumo à sonhada conquista
                                                            do inóspito território”
 
                                               .................................................
 
                                               “a voz ceará prosseguindo,
                                                              cantando dos povoadores
                                               arribados de mar brabo,
                                                               por terras híspidas vindos:
                                               – conquistemos estas bandas
                                                               ocupadas pelos índios!” 
 
                O poeta aceita, neste particular, a ótica dos velhos colonizadores – e passa a olhar os índios, não mais como donos da terra, mas como simples ocupantes do espaço a ser conquistado. 
 
                Não é, contudo, a Clío que Stella Leonardos rende a homenagem de seus afiadíssimos acordes poéticos; é à doce Polímnia, essa musa da retórica, cujo discurso persuade enquanto transfigura. É assim que a vislumbramos, nós, seus leitores, no decurso de uma leitura sem pressas desnecessárias, senão apenas faminta de prosseguir ao longo de um texto elaborado sem o rigor dos formalistas ou parnasianos, mas aberto como o sol de uma túnica diante do altar de Apolo. 
 
                Rendilhado febril, diríamos até certo ponto obediente aos paralelos da linearidade artesanal e aos desenhos de um mapa interior que se vai revelando, em carne, terra e osso, mediante pesquisa, confronto e vivência da própria autora, este poema é único, no todo e em parte. Composto com a matéria viva da memória e do louvor a que e a quem merece ser louvado, é o Ceará, afinal, de Ana Triste e o Ceará dos jovens “padeiros” de hoje, que esplende e se eterniza em cada lance do bilro, no traçado da rota e no pouso, avelíssimo, das imagens fecundas.

 

 


quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O QUE É CONTO?


O que é conto?

 

Os manuais e os dicionários de literatura ensinam que o conto deve ter em si um só drama, um só conflito, uma só unidade dramática, uma só história, uma só ação, uma única célula dramática. Por isso, o conto rejeita as digressões e as extrapolações, ou seja, o passado anterior ao episódio é irrelevante, assim como o são os sucessos posteriores. Sendo o tempo limitado ao momento do drama, também o espaço seria circunscrito a uma sala, um cômodo. Sendo tudo tão restrito, por que as personagens seriam muitas? E a linguagem do conto? A da concisão, com predomínio do diálogo. Chegado o epílogo, o contista há de ter guardado um enigma. Ou o desfecho inesperado, embora determinado desde o começo. E mais uma infinidade de regras, limites, modelos.

Se todos os contistas assim elaborassem contos, há muito teríamos deixado de lado esse gênero cada vez mais rico, por se empobrecer, se uniformizar. Pois não é difícil escrever conto com obediência ao enunciado nos manuais. Os próprios escritores de manuais, os dicionaristas, os professores de literatura, os estudiosos do conto seriam bons contistas. Bastava-lhes seguir o modelo. E assim se deu durante muito tempo. E assim se dá há muito tempo. Não se pode negar, no entanto, que bons contistas não se afastaram de todo (ou em todas as composições) desse molde. Machado de Assis elaborou contos de estrutura tradicional. Guimarães Rosa também. E tantos outros. Assim como escritores medíocres realizaram contos de forma nova, moderna ou revolucionária. Ou seja, o bom conto tanto pode se moldar na tradição como na inovação. Ou não se moldar a nada.

Wilson Martins, no artigo “Contistas”, fez estas observações: “Em termos de literatura, escrever um conto não é contar uma história por escrito — é contá-la com estilo literário, ou seja, com elegância linguística, verossimilhança, sábia estruturação no desenvolvimento da intriga, desenho convincente no caráter dos personagens e invenção de pormenores, tudo concorrendo para defini-lo como obra de arte literária. Também nessa arte tem validade a lei de economia segundo a qual a moeda má expulsa a boa: desanimado com a enxurrada de pseudocontos publicados por pseudocontistas, Mário de Andrade, em desespero de causa, declarou ser conto tudo o que os autores designam como conto – afirmação sarcástica cuja ironia passou larga e convenientemente despercebida, com este resultado inesperado e não menos irônico: passou a ser conto tudo o que se publicava como conto...”

Segundo Assis Brasil, em A nova literatura (Rio de Janeiro: Companhia Editora Americana, 1973), o conto brasileiro se renovou com Samuel Rawet, cuja estreia se deu em 1956 na coleção Contos do Imigrante. E assim argumenta o crítico: “Aquela história linear, de começo, meio e fim, prima-pobre da novela e do romance, quebrava sua feição tradicional em busca de outros valores formais” (...) “o conto adquiria uma forma autônoma, não mais ligado ao convencional do enredo.”

Muitos são os contistas e poetas que mantinham engavetados (ou, melhor dizendo, arquivados em computador) seus escritos e, estimulados por leitores de sites e blogs (também escritores em potencial), resolveram publicar o primeiro livro. Alguns não vêm de muitas leituras, de muitos exercícios de escrita, ou leram e leem, apressadamente, tudo o que lhes aparece diante dos olhos, desde piadinhas e os chamados “contos eróticos” até clássicos da literatura universal. Leituras açodadas, sem anotações, sem consulta a dicionários, etc. A maioria desses novos escritores segue uma linha, um roteiro, uma estrada larga e longa, certos de que lhes espera a fama, a glória. Não conhecem as veredas, os atalhos, as pedras no meio do caminho, os córregos escondidos na mata. Muito menos os subterrâneos e os céus. Vão em procissão ou atrás do trio elétrico. Todos juntos, unidos, de mãos dadas. Seguem o padre, o pastor, o caminhão do som. Cantam o mesmo refrão. Estão na folia de reis ou na folia do carnaval. São foliões.

            Poucos desses contistas e poetas novos vêm da leitura dos contos de fadas, dos poetas românticos, parnasianos e simbolistas, dos romancistas russos e franceses do século XIX, dos rabiscos na adolescência, dos primeiros versos na juventude, dos arremedos de contos e romances ao tempo da escola e da faculdade. Poucos se vão fazendo escritores. Sabem que não nascemos feitos, prontos. Muito menos que esse “estar pronto” (ou quase pronto) não se dá num passe de mágica.

Estreou em livro Graciliano Ramos aos 41 anos de idade. Isto não quer dizer que tenha começado a escrever tarde. O exercício de escrever está para o escritor como o exercício de andar e falar está para os recém-nascidos. O aprendizado faz-se lentamente. Escrever, no entanto, não é um mecanismo inerente a todos. Como não o é compor música ou pintar quadros. Exercitar o ato de escrever pode resultar num São Bernardo, após anos e anos de exercício contínuo, diário, quase febril. Ou pode redundar em historietas de gosto discutível. Isso quando o candidato a escritor é muito pretensioso. Quando não o é, termina escrevendo artigos ou reportagens. Se chegar a tanto.

A arte, ao contrário da ciência ou da sabedoria, é um mistério até para seu criador. Porque o artista é também um homem comum, embora momentaneamente arrebatado pelo mistério da arte. O artista não “entende” a arte que ele mesmo reflete, exceto no instante da “criação", ou, melhor dizendo, da captação. Se o chamado artista entende sua chamada arte, nem ele nem ela são artista e arte. São copiadores, no pior dos casos, ou técnicos em escrever, no caso do simplesmente escritor. Ou apenas homens inteligentes. O artista não é necessariamente um homem inteligente.

O narrador (autor de prosa de ficção), como o poeta, é um curioso, um escavador, um repórter. Um vagabundo à cata de aventuras, de pessoas, de fatos. Para disso extrair a matéria-prima de suas “criações” ou “criaturas”. Os outros não percebem nada, porque, no máximo, veem. Ou não veem, porque não buscam ver.

Nenhum ficcionista cria tipos, inventa personagens. Se o fizesse, estaria abstraindo o homem e fracassaria como escritor. O que realiza é, primeiro, uma descoberta, porque o ser humano é sempre terra desconhecida. Descobre o seu semelhante. Crê na sua existência, como os navegadores antigos acreditavam nos mundos novos. E parte no seu rumo. E o explora, sozinho. Penetra-o, confunde-se com ele. Revela-o. O ficcionista é um revelador. De mundos reais e quase sempre ignorados.

A história curta, tradicionalmente conhecida como conto, não só tem servido de objeto de discussões de ficcionistas e teóricos da literatura em busca de definições, como tem dado ensejo a constantes rebatismos, mercê das transformações que tem sofrido. Muitos encontraram belas e grandiosas definições. Arranjar, porém, novos nomes para o gênero parece tarefa sem proveito. Porque a cada definição e a cada transformação seria preciso um novo batismo. Assim, o termo relato, se serve a Borges, não se amolda a Rubião. Até um mesmo escritor cultua o gênero sob diversas formas.

Todo contista sonhará escrever um grande romance? Contos mais longos seriam ensaios para romances? Talvez sim, inconscientemente. Ensaio que não deveria ser levado ao palco, sob pena de vaias do público. Os bons narradores escrevem contos ou romances e novelas. Nunca confundem alhos com bugalhos.


Talvez seja equivocada a ideia de unidade temática em livro de contos. Ora, uma peça curta, como conto e poema, será sempre uma peça curta, mesmo que momentaneamente inserida num volume junto a outras. Quando se fala de “Cantiga de esponsais”, pouco importa se foi publicada neste ou naquela coleção de Machado de Assis, embora só pudesse estar em Histórias sem data, porque assim o quis o autor. Mas isso não significa nada para o leitor (é de interesse do pesquisador, do estudioso, do historiador, etc).

Os gêneros literários estão em constante mutação e interligação. No Brasil ainda se praticam contos aos modos de Flaubert, Balzac, Eça de Queiroz, Machado de Assis, Edgar Allan Poe, Maupassant, Tchecov e outros, todos diferentes entre si. Uns se perdem no meio do caminho e enveredam pela crônica. Outros querem escrever História, que também é crônica. Há até o conto-ensaio. A maioria, no entanto, permanece presa aos ditames do velho e bom realismo. Uns não se afastam do sertão ou do mundo rural. Outros se transviam pelos becos das urbes. Há os que não sabem de matos nem de ruas e preferem os meandros da mente. Uns leram muito, outros nada leram. Uns souberam vagar pelos abismos de Poe, pularam fora dos livros, outros permaneceram de olhos vidrados na paisagem aberta diante de suas janelas. Uns se exercitaram mais, outros se contentaram com os primeiros mugidos. Tem sido assim, é assim, será assim sempre. 

            Não há mais o conto, no sentido tradicional, dicionarizado do termo. Conto é apenas termo literário de manual e dicionário. Para orientação dos editores e dos professores de literatura. Quem disse que Machado só escreveu contos, romances, poemas e crônicas? Gilmar de Carvalho escreve legendas, Carlos Emílio escreve delírios verbais, Jorge Pieiro escreve contemas, outros querem imitar Maupassant ou Tchekov. O que importa não é a forma, se há atmosfera ou não, se há enredo ou não. Ser ou não ser conto, isto é lá para os filósofos. Importa ser arte literária.

Quanto à literatura amazonense, eu lhes sugiro, aqui, se for o caso, recorrerem aos meus livros ¨Existe uma literatura amazonense?¨, ¨Roteiro da Literatura Amazonense¨, ¨Curso de Arte Poética¨ e  ¨Amazônia: o massacre e o legado¨, todos ao dispor de consulentes e estudantes na sede da Academia Amazonense de Letras, na qual são mantidos, também, os arquivos pessoais de cada membro desta Casa. No entanto, a partir de 1982, com o surgimento da nova geração de escritores e poetas, essa história muda de rumo na questão do suporte (Internet), podendo ser avaliada nos sites e nos blogs, a exemplo da palavradofingidor, de Zemaria Pinto, hppt://Jorge-tufic.blogspot.com/, entre vários outros que interligam a palavra ao vasto universo amazônico.

A palavra na ficção, problematiza-se ou resulta em ficção. Ave, palavra! De quem saúda, no voar do pássaro, o poder, imenso, que nos engrandece e torna sublimes.

 

(*) Uma entrevista com Nilto Maciel tornara possível o êxito desta nossa palestra, na Academia Amazonense de Letras.

domingo, 27 de outubro de 2013

A PALAVRA NA FICÇÃO


A PALAVRA NA FICÇÃO

                                                                                    

 

                   Tenho encontrado leitores que me fazem perguntas embaraçosas como esta: “O que devo fazer para aprender a escrever conto, novela, romance?” No mais das vezes, digo-lhes: “Comece lendo os clássicos.” Alguns me responderam: “Mas eu já li quase todos e, mesmo assim, ainda não sei como escrever um conto.” Ora, há dicionários, manuais, tratados que dão noções sobre espaço, ação, incidente, drama, conflito, unidade dramática, história, célula dramática, lugar, tempo, passado anterior ao episódio, tom, personagens, tipos, caricaturas, linguagem, concisão, concentração de efeitos, diálogo, diálogo interior, monólogo interior, discurso direto, narração, descrição, ponto de vista, foco narrativo, primeira pessoa, narrador onisciente, começo, fim. Também o conhecimento de tudo isto parece não ser suficiente para dar ao aprendiz de escritor o cadinho para a realização da obra de arte. E, por falar em cadinho, captei a seguinte lição de Adolfo Casais Monteiro, em Os Pés Fincados na Terra: “A arte não é invenção pura; o artista é como que um cadinho em que se realiza a mistura dos ingredientes que são o pó da experiência.” Muitos sociólogos ditos marxistas insistem em afirmar que toda pessoa é capaz de criar qualquer obra de arte, desde que se lhe deem condições sociais, culturais para o exercício dessa capacidade. Ora, milhares e milhares de pessoas letradas, bem vividas se dizem poetas porque sabem escrever versos. No entanto, não são poetas ou não conseguem escrever bons poemas. Os gramáticos seriam então os melhores poetas, contistas ou romancistas.

                   Muitos desses escritores principiantes estudaram gramática, leram os principais livros – da Antiguidade aos dias de hoje –, se debruçaram sobre manuais, tratados, dicionários de literatura, e, crentes de já saberem tudo e estarem prontos para a criação literária, tentaram escrever contos, novelas, romances. O resultado, porém, tem sido desastroso. Faltou-lhes o quê? Persistência? Nem sempre. Humildade? Talvez. Imaginação? Quem sabe? Talento? Não sei.

                   Há quem pense ser mais fácil escrever contos ou poemas curtos que romances. Como se tudo fosse questão de tamanho. Ora, contistas são contistas, poetas são poetas, romancistas são romancistas. Alguns escritores conseguem ser bons como poeta, contista e romancista. Muito contista sonha com um grande romance e frequentemente o ensaia nos contos mais longos. Já o narrador mais afeito à arte de narrar nunca confunde alhos com bugalhos. Confunde-se também conto com crônica, o que é menos grave. Pior é chamar de conto simples anedota, piada, notícia, comentário, etc. No livro A Nova Literatura: O Conto, Assis Brasil faz didática distinção entre conto, crônica, prosa poemática e poema em prosa. Crônica é um relato, bastante pessoal, onde o autor nomeia e descreve acontecimentos, criando enredos num tempo histórico passado. O poema em prosa e a prosa poemática são formas confessionais, ausentes de fabulação.

                   À medida que o homem avança no tempo em sentido contrário à caverna (ou todo movimento é um retorno?) mais se torna difícil expressar-se por conceitos. Assim, a oralidade primitiva se confunde cada vez mais com a escrita dos novos tempos. Isto não quer dizer que o caso, o conto oral tenda a desaparecer. Ora, como não encontrar semelhanças entre o conto rural, que se confunde com a lenda, e o conto urbano de feições realistas? Difícil também delimitar os campos do imaginário e do real.

                   A história curta, tradicionalmente conhecida como conto, não só tem servido de objeto de discussões entre narradores e teóricos em busca de definições, como tem dado ensejo a constantes rebatismos, mercê das transformações sofridas pelo gênero. Muitos estudiosos elaboraram vastas enunciações do conto. Arranjar, porém, novos nomes para o gênero parece tarefa sem proveito. Porque a cada conceituação e a cada transformação seria preciso um novo batismo.

                   Os manuais, os tratados, os dicionários não tratam de questões menores ou de noções rudimentares da arte de escrever literatura. Pois eu quero aqui dedicar algumas palavras a essas “outras noções” de como escrever “corretamente” prosa de ficção. Ou como não escrever “incorretamente” prosa de ficção.

                   Comecemos pelo emprego exagerado de lugares-comuns e gírias. Os livros estão cheios de “nariz aquilino”, “lágrimas de crocodilo” e outros chavões. Se não é possível a metáfora, que se descreva o nariz do personagem com criatividade. Vejamos a gíria na frase: “O gatinho andava ao meu redor.” Ora, daqui a alguns anos quem poderá imaginar que o narrador se referia a um rapazinho e não a um felino? O escritor poderá passar como genial: o “gatinho” seria uma metáfora.

                   Há escritores que abusam da grafia distorcida de vocábulos, na certeza de estarem sendo fiéis à língua do povo, realistas, e de estarem preservando o idioma português. Ora, por que escrever “home” em vez de “homem”, “bêbo” em vez de “bêbado”, “eu tô com fome”? Neste caso, para ser fiel ao propósito de escrever como fala o zé-povinho, melhor seria: “eu tô cum fomi”. Guimarães Rosa fez malabarismos para não cair nessa esparrela. Escreveu sempre a fala do povo do sertão mineiro, porém com invejável inventividade, sabedoria, consciente do significado de cada sílaba, de cada vocábulo, de casa frase.

                   O mau uso dos diálogos tem sido outro pecado de muitos escritores. É o caso de personagens do tipo Zé-prequeté falando como literatos, isto é, o oposto do uso excessivo de gíria ou transcrição da fala do joão-ninguém. José de Alencar é criticado por ter posto nos lábios de seus índios o modo de falar dos portugueses. Porém, o romantismo tinha lá suas leis, como a de que os diálogos nunca reproduzissem a fala dos “sem fala”. O sertanejo que falasse como o doutor da cidade, com acatamento e respeito às normas gramaticais.

                   Há também o vício da repetição exagerada de vocábulos, na mesma frase, no mesmo parágrafo, no mesmo capítulo, no mesmo conto. Os mais comuns são: “que”, “mas”, “estava”, “era”. Vejamos este caso: “João dos Bois ia levantar mais tarde. Antes de levantar...” Contemos os “que” neste trecho: “Mieko achava que devia voltar à lavoura novamente e conversa com o Noriel e pedir que ele não contasse a ninguém o que tinha acontecido.” Do mesmo livro é a frase: “Foi só depois que o Roberto tinha levado a Arume que a Mieko  achou que podia escrever.”

                   Semelhante ao senão apontado é o uso forçado de figuras de linguagem, o emprego desnecessário dos artigos, o descuido na conjugação dos verbos, os cacófatos. Tudo isso é muito comum em narradores brasileiros do final século XX e depois. Para isto, dizia-se: “Fulano não tem estilo.”

                   Passemos aos personagens. Um dos erros mais comuns é o excesso de personagens em contos. A não ser que somente dois ou três deles participem diretamente da ação. A primeira causa disso será o surgimento de personagens desnecessários, sem lugar na ação, supérfluos. Depois, a confusão no enredo. O tamanho da narrativa não comporta muitos personagens. E não será a evolução do gênero que irá mudar isso.

                   E para que personagens sem nome? Cabível em contos com muitos personagens. Somente os principais, dois ou três, terão nomes.

                   Outro equívoco de alguns narradores: o aparecimento súbito de um personagem secundário, irrelevante, e o seu repentino desaparecimento. Melhor excluí-lo da história.

                   Vejamos a descrição dos personagens. O narrador não precisa descrever o caráter dos personagens. Se fulano é mau ou bom, não cabe ao narrador qualificá-lo e, sim, ao leitor. Suas ações e suas palavras o pintarão aos olhos do leitor. Também é ocioso descrever o aspecto físico dos personagens, especialmente em conto. No romance realista e naturalista a descrição não podia faltar. Como não se deliciar o leitor com o corcunda de Notre-Dame? Porém, a descrição não se fazia gratuitamente. Sem o aleijão do personagem o romance não existiria. A descrição de defeitos ou características não faz sentido, a menos que o aspecto físico do personagem seja imprescindível à história. Se fulano é cego, manco, perneta, se assim descrevendo o personagem quis o narrador simplesmente “enfeitar” a história, homenagear alguém, seja lá o que for – a descrição então será uma excrescência.

                   Agora a questão do narrador. Durante muito tempo prevaleceu em prosa de ficção a onisciência do narrador, fosse personagem ou não. Porém, tudo mudou a partir de James Joyce. O narrador onisciente desapareceu. Os pensamentos dos personagens não podem ser do conhecimento do narrador. “Fulano tencionava matar sicrano.” “Ele se sentiu culpado de alguma coisa.” A interferência excessiva do autor-narrador é um mal maior para a narrativa. Assim como o excesso de observações e explicações. Não deve o narrador dar informações, sobretudo se inúteis à trama. Exemplo: “Na curva do caminho surgiu um cavaleiro: era o Vadico, um velho conhecido que batia muito na mulher.” Tal informação é até sem sentido no conto, vez que Vadico nem sequer volta à cena.

                    Mencionar nomes de cidades, logradouros, somente se absolutamente necessário ao enredo. Dizer que fulano mora na Rua São Sebastião ou na Avenida Dom João poderá ser necessário, sim. Se não o for, para que o nome do logradouro? Nunca explicar o óbvio. Como assim: “Em Fortaleza, a bela capital do Ceará, vivia fulano.” Aliás, nunca explicar nada. “Isto aconteceu porque...” Melhor o mistério. Cada leitor fará uma dedução. Nunca opinar. “Aquela mulher era má.” Cabe ao leitor o julgamento dos personagens. O narrador não é juiz, não decreta nada. Sua função é tão-somente narrar.

                   Moreira Campos, um dos mestres do conto brasileiro ou um dos melhores discípulos dos grandes mestres, seguia à risca as lições de Tchecov. Em “Breves palavras”, apresentação do livro Dizem que os cães veem coisas, escreveu: “Sou fiel, quanto à síntese, ao conceito de Tchecov: ‘Se a espingarda não vai atirar no conto, convém tirá-la da sala.’” Ainda desse mestre a advertência de que, “se você vai derrubar a casa, apodreça de logo a cumeeira.”

                   Em suma: para escrever boa prosa de ficção é preciso, além de conhecer todas as técnicas de narrar e muito talento, saber lapidar, transpor, alterar, substituir, riscar, cortar, remendar, costurar palavras, frases, parágrafos inteiros. E não ter medo do cesto de lixo, de ser cruel consigo mesmo. Não ter complacência com o vício, o erro, a mediocridade. Não ter piedade nem de si mesmo nem de personagens.