quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Tiara do verde amor



Tiara do verde amor


Jorge Tufic

 


Duas epígrafes, imagino agora, deveriam ter sido impressas nas páginas de entrada desta tríplice coroa de sonetos , Tiara do verde amor, de um dos melhores poetas brasileiros de todos os tempos, Max Carphentier, autor, inclusive, de um livro de contos e de um romance premiado pela SUFRAMA (Superintendências da Zona Franca de Manaus). Uma delas eu tirei da Cartilha da Amazônia (Livro do aluno, SEDUC/INPA, 1979) e traz a seguinte frase ou período simples: “A Amazônia vai até onde acaba a vegetação amazônica”. A outra é minha, e tem forma de trova:


                                                               Floresta é tudo o que encerra
                                                               fauna, flora, sol e ermo:

                                                               entre o verde e a moto-serra

                                                               não pode haver meio-termo.


Não se trata aqui, porém, de um livro técnico, embora se trate de livro que tenha, aliado ao poético e à difícil arte da espécie coroa, o interesse de infundir amor pela nossa Amazônia, última grandeza natural que testemunha o homem e o nascimento da poesia.

Como no tempo dos árcades, o autor festeja o advento da Amada, repleta de bons prenúncios. O verbo chega a marcar-lhe a presença, nem muito sutil nem muito ruidosa, pelo fato de já tê-la em si mesmo e no todo que ainda vai ser narrado e percorrido. Ela chega assim veículo e companheiro, musa e pão, tapete mágico e flor aquática. E ambos partem, depois desse introito, a tecer, nos ares perfumados e bosques atentos, sonetos que tecem sonetos, sonetos que tecem de verde o amor através do qual, o poeta e sua Amada, nutrindo-se da seiva agonizante que instaura a vida e protege os seres do planeta, tentam salvar a Amazônia do maior e mais longo enterro ecológico da História. A tiara, símbolo do poder místico, eleva-se do canto em ramos luminosos que se agitam de esperança.

Transferida para os mísseis de alcance continental, a intensidade poética em jogo através da terra e dos mitos da coroa intermediária, redobra em potência. A verde tiara do Amor, contudo, alando-se cada vez mais em descobertas e leves registros metafóricos, sem a cor alarmante das caixas de alta tensão, pretende colocar o bom senso, em vez do pânico; a vigília, em vez do ódio; a árvore, em vez do poste; a vida, em vez da morte; o verde em vez das queimadas.

Em verdade, poeta, só o Deus venerado pelos brancos, ou os deuses rubros da forja de Vulcano, podem salvar esse conjunto de matas e águas em absurdo que se juntaram no ecossistema da Amazônia, vista e sonhada por gregos e troianos, ianques e russos, pretos e amarelos, mas onde apenas alguns reconhecem a impossibilidade de um meio-termo que seja, entre o desenvolvimento colocado pelos homens de empresa e a necessidade de sua preservação, como parte que é de tantos outros sistemas, ainda hoje desconhecidos.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Samuel Benchimol e a paixão amazônica

Samuel Benchimol e a paixão amazônica

Jorge Tufic



Honrado estou, nesses dias de julho de 2011, quando revisito Manaus, com a difícil mas também agradável tarefa que recebo de meu velho e nobre amigo João Renor Ferreira de Carvalho, de apresentar aos leitores este raro livro cujo título – O Samuel Benchimol que eu conheci – logo nos traz de volta a figura legendária do ilustre “homem apaixonado pelo mundo amazônico”, com quem tive o orgulho de conviver na qualidade de membro do Conselho Estadual de Cultura.

Sem dúvida, o autor desta coletânea (Documentário e Memória sobre o acervo de manuscritos da Capitania do Rio Negro, transferido de Portugal para a Universidade do Amazonas), sentira-se ainda mais inspirado com o fato nada comum de, ao obter o respeitoso acesso aos arquivos do grande amazonólogo Samuel Benchimol, deparar-se ali com todas as vinte e sete cartas que lhe foram enviadas e respondidas no período de 1978 a 1982, a partir de Manaus, Lisboa e Paris. Nada então, ou quase nada lhe impediria de realizar, com esse importante conjunto ativo e passivo de correspondências tão valiosas, a obra que certamente faltava em nossas estantes, nos levando, inclusive, a entender melhor o contexto sombrio de uma ditadura militar.

Comove-nos, e às vezes até nos angustia vivenciar a leitura dessas cartas, tanto as de Benchimol, quanto as de Renor, pois refletem elas, de maneira espontânea e coloquial, a realidade (e as hostilidades) que costumam rondar as iniciativas pioneiras em favor do resgate das fontes primárias de nossa história, ou seja, da verdadeira História do Amazonas, nos séculos XVII e XVIII.

Algumas digressões em torno do “gênero” podem ser necessárias. As epístolas, mensagens em forma de cartas, tornaram possível o Novo Testamento. É famosa, no Brasil, a correspondência de Guimarães Rosa com seu tradutor alemão Curt Meyer-Clason (1959-1967), sobre a qual depõe Francis Henrik Aubert: “Aqui flagramos, literalmente, os momentos dos diversos fazeres tradutórios, em um processo quase inédito de co-autoria” (João Guimarães Rosa, Correspondência com seu tradutor alemão Curt Meyer-Clason, pag.9, Academia Brasileira de Letras/Topbooks, 2003). Dos séculos XIX ao XX, igualmente famosa é a correspondência entre Machado de Assis e Joaquim Nabuco, organizada, com introdução e notas, por Graça Aranha. Referindo-se a ela, escreve José Murilo de Carvalho: “Trata-se de conjunto numericamente modesto de 53 cartas  e um bilhete. Machado comparece com 31 cartas, Nabuco com 22. De imediato, chama a atenção do leitor a distribuição cronológica da correspondência. A primeira carta é de Nabuco, um rapazola de 15 anos, aluno do Colégio Pedro II, que escreveu em 1865, agradecendo elogios feitos por Machado, então com 25 anos, um poema patriótico sobre a rendição de Uruguaiana, que recitara em presença do imperador. Machado elogiara o aluno (talvez em parte por ser filho de quem era), e Nabuco lhe escreveu para agradecer” (Machado de Assis &  Joaquim Nabuco, correspondência, Academia Brasileira de Letras/Topbooks, 2003). Estas correspondências abordam assuntos gerais e específicos da época, oscilam nos tratamentos, ora de “meu caro”, ora de “meu querido”, à medida que aumentam;  pedem desculpas por alguma pressa em dar as respostas, avançando desse modo no âmbito da intimidade, enquanto se identifica nos laços afetivos a causa abraçada por ambos, aplaudem os sucessos.

Tal e qual se verifica entre Renor e Samuel, essa prática dos homens de ciências e letras tem sido benéfica ao país, e, particularmente, aos estados do norte, em razão do espaço geográfico que os separam dos grandes centros urbanos, detentores do poder econômico e político desde que o Brasil foi descoberto. Quanto ao veículo – mucanda, epístola etc. – se não é uma arte de linguagem, virtudes não lhe faltam para motivar poetas e romancistas que dele se utilizam para suas deambulações filosóficas, artifícios líricos, recados, informações. A epopéia lhe subjaz.

Atendo-me, pois, resumidamente, ao núcleo temático deste elenco de cartas e bilhetes, ora tidos como documentos, ou corpus, de tantas pequenas batalhas, a par de enormes cotas de sacrifícios, aos quais também se juntam o esforço e a colaboração do ilustre e saudoso professor Roberto Vieira, baliza-me este simples roteiro de pesquisa, data vênia dos mestres, manuscritores e alquímicos da palavra final:

(a) As cartas do professor Benchimol são documentos preciosos, porque absorvem as duras preocupações de um momento dramático na História de nosso País (1978/1982);

(b) As cartas do professor Renor são, também, documentos (fontes primárias) revelando um grandioso trabalho realizado nos Arquivos Históricos de Portugal, trazendo até nós a memória geossocial da Capitania Colonial de São José do Rio Negro;

c) As notas de rodapé constituem a memorabilia do não menos ilustre professor Renor, sobre as circunstâncias daqueles quatro anos em que esse hercúleo trabalho de resgate histórico e cultural fosse concluído. Agora, vejam: quantos anos antes que o próprio Governo Brasileiro, através do Ministério da Educação, recebesse de volta os códices de nossa própria certidão de nascimento?

Segundo Renor, gestou-se o projeto de levantamento da memória do Amazonas ao longo de interessante “bate-papo” com mestre Benchimol, quando lhe fora apresentado pelo historiador Mário Ypiranga Monteiro, em 1977. Já em 1978, a conversa passa para as letras de cada um, dando-se conta dos primeiros passos em direção da microfilmagem do arquivo Histórico Ultramarino. “Deste modo”- escreve Benchimol em 04/07/1978 – “um judeu brasileiro amazônida e um católico nordestino vão se aliar para produzir a nossa história e reaver os preciosos manuscritos de Lisboa. É um serviço que vamos prestar.”

Por sua vez, Renor vai liberando seus relatórios nas cartas de próprio punho, numeradas de 01 a 28, sem faltarem os demonstrativos de receita e despesa, custos em escudos, além de várias comunicações de remessas de livros raros adquiridos nas livrarias, deixando transparecer algumas surpresas e dificuldades a caminho do espólio. Nessa troca de luzes, mantém-se o bom humor, a autoconfiança e o lema da fraternidade, da generosidade e da lealdade, com que define o legítimo ideário humanista de seu indomável companheiro de luta.

Ao tratar deste assunto, não devemos esquecer a ectódica, ou o temor dos retardatários nesse tipo de salvamento nada mais encontrarem nas velhas caixas de madeira, senão traças ou uma outra escritura deixada pela corrosão devastadora. Comenta Augusto Meyer: “A verdade é que o leitor moderno, acostumado à facilidade das tiragens amiudadas, em plena era gráfica, nem de longe poderá imaginar a aventura da transmissão dos textos antigos, ou considerados clássicos, através dos séculos” (pag. 23, “Os pêssegos verdes”, ABL, 2002). E Antonio Tovar: “No deberá olvidar nunca el  filólogo que los fundamentos, y la vez las aspiraciones y los límites de su ciência los pusieran Zenodoto, Aristófanes de Bizâncio, Aristarco, Erastóstenes. Es possible que hoy manejemos, al cabo de veinte-tres siglos, um material de major precision, pero las bases son las mismas, los problemas e los temas que nos ocupan están iniciados desde entonces” (idem). Ainda hoje quer-se decifrar as palavras que Jesus escreveu na areia, enquanto o interrogavam sobre o destino da mulher adúltera; mas os juízes, ao se retirarem do recinto, já tinham como certo que eles próprios também seriam julgados. Não há traço nem risco de pena que não possa desdobrar-se numa longa odisséia.

Restituído ao seu lugar de origem, este resgate promovido por Renor e Benchimol é a sementeira da História, a matriz de nossa infância cósmica, os olhos do pajé que se transporta na fumaça do cachimbo, a letra da verdade histórica, o sonho do conquistador e a escravidão do conquistado. E este livro é um diálogo de sábios, cuja terceira margem se concretiza no empenho de trazer do exílio a História do Amazonas.   


sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Milton Dias, Cadeira 13 (memorabilia)

Milton Dias, Cadeira 13 (memorabilia)

Jorge Tufic


     É a Cadeira que ocupo na Academia de Letras e Artes do Nordeste. Milton Dias é o meu patrono, sobre quem não disse ainda uma única palavra, apesar de tê-lo conhecido em Manaus, numa fase de minha vida de jornalista dedicado, inclusive, às crônicas semanais sobre qualquer assunto que viesse a calhar, principalmente sobre acontecimentos relativos à cultura; no caso, a visita desse ilustre escritor cearense à Capital do Amazonas, uma crônica de 15 de fevereiro de 1979, reproduzida a seguir.

     Uma dupla visita incomum, a do Vice-Reitor da Universidade do Ceará e do cronista Milton Dias, ambos numa só pessoa, tomam de assalto a bela residência do nosso prezado Geraldo Manuel para esse encontro líquido de um sábado chuvoso por fora, mas cheio de humano aquecimento no diálogo que contara também com a presença do magister Sebastião Matos, que acompanha o escritor em suas andanças oficiais. Muitas risadas, então, de ânimo inquebrantável diante das garrafas que se esvaziavam, e dos copos que se rompiam, vez por outra, ao mais leve descuido entre o gesto e a palavra.

     Milton Dias é autor de seis livros, já publicados, inclusive um romance que ainda não tenho, a maioria reunindo crônicas semanais de sua coluna no jornal ¨O Povo¨, em Fortaleza: “Sete-Estrelo”, “As Cunhãs”, “A Ilha do Homem Só”, “Entre a Boca da Noite e a Madrugada”, “Cartas sem resposta” e “Viagem no Arco-Íris”,  este em parceria com o poeta Cláudio Martins. De prosa fluente, o ar atencioso de quem se reserva para sondar o ambiente com as antenas da prudência, o homem e a obra se completam. Não avançam mais do que os extremos concedidos pela intuição e pela modéstia. Ouvi-lo falar é ficar recordando sua ternura pelas aves, sua visão perlongada aos amenos de uma Fortaleza que se rende aos que sabem conquistá-la, como neste salmo louvante à sua terra natal: “Aquele que habita e ama esta cidade será seu filho fiel, nativo ou de adoção e terá o sol por prêmio e o verde mar por testemunha”.

     Segundo Paulo Bonavides, a obra literária de Milton Dias sempre teve acolhida lisonjeira por parte da crítica do País. Do cronista disse Wilson Martins que “é um escritor de estilo próprio e agradável”, ao passo que Antonio Olinto ressalta nele “o toque de poesia e de humor de suas crônicas”. A saudosa Eneida vai mais longe e proclama: “Milton Dias é um dos melhores cronistas que possuímos!” De Portugal, chega-nos também o eco da crítica de Fernando Namora, que há algum tempo escrevera sobre “As Cunhãs”: “Um belo livro, pois, de verdadeiro escritor”.

     O que se pode acrescentar a tudo isto, senão a qualidade humana e límpida do “causeur”, a experiência marcante do “glober-trotter”, ou as lições de literatura francesa que espontaneamente ele vai entremeando ao papo descomprometido com as horas? E assim foi ao vê-lo chegar: alto, lépido e ágil nas saudações e nos cumprimentos, a roupa clara e o boné cambado sobre os óculos a lhe protegerem as pupilas miúdas e circulantes. Quase nada se adivinhava acerca de sua existência recolhida aos estudos, de solteirão convicto e amante de todas as coisas que fazem os arredores, presumivelmente inalteráveis, daquele trecho antigo da rua Coronel Ferraz, onde ele mora parede com a sua mãezinha, e a uma janela da praça ilustrada por Estrigas e Nice, conforme se lê numa crônica memorável de “Viagem no Arco-Íris”.

      Nessa crônica (“Tarde na minha praça”), reponta a quietude despojada das lutas inglórias: “Tão simples tudo. Um homem deitado tranquilamente, aproveita a sombra do caminhão, dorme debaixo, é talvez o ajudante que guarda o carro e aproveita a sua proteção, dorme numa atitude de sossego absoluto, tão sem problema, nesta hora em que banqueiros se preocupam com cifras e agiotas ambiciosos protestam letras e industriais discutem a produção das suas fábricas e autoridades se inquietam com o que lhes foi confiado para governar”. O sol, as ruas, os pássaros e as mulheres governam, por sua vez, os temas do cronista, enquanto recolhem as belezas da vida.

     Nas páginas dedicadas ao pai, ele confirma seu amor pelas criaturas simples do chamado jour-le-jour, ao convívio do espetáculo diuturno, comum a todos em dados momentos de solidariedade humana. E os seres, aqui, parecem dar-se as mãos para uma ciranda atingida por uma claridade que jamais se define, nem como amanhecer, nem como anoitecer. Pois deve tratar-se de uma luz gerada pelos resíduos das noites e dos dias bem vividos – que a linguagem transforma e restitui como um bálsamo de afetos impossíveis.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Moacir Andrade: 50 anos de lenda

 





Moacir Andrade: 50 anos de lenda





Jorge Tufic




Há cinquenta anos, precisamente, do primeiro risco a lápis diante da casa de Dona Cachica aos motivos lendários da paisagem fluvial (agora aplicando, em suas telas, a magia de cores e visgos da própria região amazônica), que Moacir Andrade faz de sua arte admirável uma ponte que liga a taba de Ajuricaba  ao resto do planeta.


Ainda recentemente, numa espécie de coroamento glorioso desta sua trajetória pelo mundo das artes plásticas, ele regressa da Europa trazendo consigo pouco menos de meia tonelada de honrarias na forma comum de troféus e medalhas valiosas, e na forma incomum, singular até, de pratos e brindes trabalhados a ouro, exclusivamente para serem ofertados ao ilustre representante do Amazonas junto às embaixadas e casas de cultura de Portugal.


Entretanto, além de pintor, escultor e desenhista, Moacir Andrade é, também, escritor, estudioso do folclore, poeta bissexto e antropólogo. Álbuns de memórias são outras de suas ocupações favoritas no resgate de sua Manaus antiga, uma espécie de fidelidade ao pitoresco como fonte de inspiração lírica do eu-poético, relacionado com a totalidade do ambiente amazônico (homens, animais e plantas; a natureza, enfim).


Na rolagem dos signos que marcaram nosso tempo de juventude, incontáveis audácias do artista poderiam ser recordadas. Uma delas, contudo, marcou-nos para o resto da vida: ambos, um dia, pilotando uma canoa, resolvemos desembarcar na superfície de uma bóia da companhia das docas, no meião do Rio Negro; e ali, enfrentando o perigo das ondas, Moacir instalou seu cavalete para colher a cidade da barra sob um ângulo ainda hoje impossível.


Concluída, então, a proeza, e já novamente a postos nos bancos da montaria, restava-nos agora comemorar, aos risos e gargalhadas, o que, de imediato, só se podia atribuir à visão de um boto que de repente parasse de sua caminhada para olhar a cidade de Manaus. Nunca mais tornei a ver esse quadro. Mas ele, para mim, se desdobra e fascina como lembrança do arrojo sem nome, quando todo perigo desaparece tomado pela coragem de surpreender o novo, onde quer que ele esteja.


Ensinou-me, também, a oportunidade deste lance, a descobrir melhor em sua arte regionalista, a linguagem do expressionismo que muitas vezes torna menos cansativa a temática dos rios e matas, ficando mais próxima do imaginário popular. Essa fase de sua pintura estabiliza, por assim dizer, a inquietação do artista no ponto exato em que se faz necessária a identificação da paisagem, seu conteúdo mítico e sua força cósmica.


À exemplo da Canoa Transformadora, do Arco-Íris e da Boiúna, vai, deste modo, o pintor e o antropólogo em viagem pelo universo aquático da infância em busca de terra mais favorável para o encontro do sonho que se fez Amazônia, e a plena consciência artística e ecológica dos seres que ainda mereçam habitá-la.


Após tantos estragos, afinal, somente a arte de alguém como esse Mestre do Bairro de Aparecida, em Manaus, poderá despertar interesse para a visualização de um trágico impasse no qual a natureza deixa de motivar, apenas, a cobiça internacional pelo que guarda (ou guardava) de precioso para o homem. Esta, para mim, deve ter sido a missão de quem atinge, agora, meio século de profunda e meditada dedicação aos múltiplos assuntos de um fenômeno geográfico que, depois de levantar-se em forma de Cordilheira, dera nascimento ao continente brasílico, sendo, portanto, o primeiro e último estalo do período terciário da Terra.


Nem precisa repetir que se trata, aqui, da inventada Amazônia, por cujos meandros, festejos e desdobramentos naturais, a paleta mágica de Moacir Andrade sente-se gotejada pelas estrelas daquela noite, já distante, em que os pajés puderam encontrar a única explicação para sua origem cosmogônica. Traços marcantes de seu pincel podem estar inclusive, na história das nações que habitavam o Alto Rio Negro, ao tempo do guerreiro Buopé. Ou seja, na presença de um luzeiro celeste cuja finalidade é zelar pela terra, protegendo-a dos maus, sobretudo pelo exemplo de que tudo, nela, é prodígio e beleza.


A crônica acima, inédita, é de 22 de setembro de 1991. Mas o “Traço e o Verso”, livro de nossa autoria editado pela SEMEC, em 1985, traz poemetos de nossa autoria como “ilustrações” dos primeiros desenhos de Moacir Andrade, entre os anos de 1936 e 1941, a exemplo dos abaixo transcritos:

A mangueira de dona Cachica 
madruga de frutos caídos no chão.
A cerca é de palitinhos de fósforo,
o teto da casa é de palha
e a nuvem que vem de oeste
assume um cavalo de chuva
trazendo São Jorge
numa rosa de fogo. 

Outro:

Paredes de estuque
telhas de cavaco,
esta casa lembra um ninho
desconfiado de ser pássaro.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Um bom romance de amor

Um bom romance de amor

Jorge Tufic
 
 
                                 Um bom romance de amor, numa época difícil como a nossa, quando se não distingue mais a beleza de um gesto no torvelinho frenético da vida cotidiana, nem o matiz de uma rosa do falso reflexo de uma lâmpada mortiça! Não sei se autobiográfico, mas esta narrativa de Carlos Costa nos toca profundamente.
                                Não há meio de parar com sua leitura, posto que os incidentes ocorrem de uma para outra página, e o tempo  ficcional do enredo anula os ponteiros do relógio. Nas quase 80 páginas do livro, foram poucos os intervalos do olhar sequioso por novas cenas e novos desdobramentos da estória desse homem,  personagem e narrador onisciente, capaz de seguir os avanços de uma doença pertinaz a minar seu próprio organismo, mas nunca de substituir sua paixão pela pessoa amada, de modo algum, pelo temor à morte.
 
                                Ressalte-se, nele, também, a linguagem poética e o estoicismo no enfrentamento do destino, assinalado, talvez, por um destes casos raros da medicina, embora os avanços da própria ciência em busca de um diagnóstico preciso. Fazer disso tudo a trama de uma novela sob o título de Amor no tempo do câncer, é ou não é vencer a fúria do caranguejo e triunfar, com glória, acima dos aparentes absurdos que a vida nos coloca diante dos olhos?

                               Carlos Costa, poeta, jornalista e assistente social, está de parabéns com mais esta obra de intensidade lírica e narrativa, para grandeza das letras amazônicas.

                                                               Trata-se de um texto definitivo. Linguagem e organização me parecem resolvidos. E as possibilidades de leitura ao alcance de todos, ou seja, daqueles que se fazem o objeto da narrativa enquanto ela própria; mas, se for o caso,também do aspecto histórico e biográfico do autor, situação ambígua no caso desta novela. Louve-se, afinal, a construção de significados além do simples relacionamento das personagens do livro, o que o torna prazeroso na transmissão de valores que interagem com o enredo sobremaneira complexo e surpreendente.
 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

As doces lembranças

As doces lembranças



         Jorge Tufic


“Doces lembranças”, de Dona Chloé Loureiro, é um livro original sob vários aspectos: ele conta a história de sua vida, retrata uma época de ouro, ensina a viver e, ao mesmo tempo em que narra os eventos cívicos, religiosos ou domésticos, transcreve as receitas que fizeram o sabor e estreitaram a convivência entre parentes e amigos. Em pinceladas vigorosas, mostra-nos ainda o que foi a Sena Madureira da sua e da minha infância nas décadas de vinte e trinta, quando, sempre com a diferença de uma década, nossos pais tiveram que trocar o ambiente semibucólico daquele município acreano pela cidade de Manaus.

Se os tempos deterioram, se a qualidade de vida do brasileiro deprime-se com o progresso e a cosmopolitização, Dona Chloé não recorda e faz recordar apenas para viver, mas, sobretudo, para salvar. E aqui está um livro, essencialmente brasileiro e puro, que nos indica o caminho de volta ao sentimento caseiro do afeto, aos encontros na praça, ao valor da amizade, ao cultivo fraterno da boa vizinhança. A criatividade e os milagres da cozinha também contam na levança dos hábitos, no enfrentamento cotidiano das dificuldades. Por outro lado, os pais e os filhos são incapazes de ver e sentir como vê e sente a mãe compenetrada, que saiu da curiosidade e dos anseios da primeira e segunda infâncias, dedicadas aos longos preparativos da mulher e da esposa, para as tarefas do lar. E as “Doces Lembranças” de Dona Chloé estão repletas de acontecimentos afetivos, e até de sustos e sacrifícios que somente a ela, e a suas doces lembranças, devem pertencer.

Mas, leiam com atenção este livro. Leiam e anotem, que há nas suas entrelinhas muitas outras receitas, de amor e sabedoria, que bem podem conduzir à felicidade. O cenário de nossa infância comum, tão barulhento para mim quanto suave e romântico para Dona Chloé, nos devolve aos idos que o leve debuxo que ilustra seus capítulos vai, aos poucos, sugerindo: a chatinha que dobra uma curva de rio, a canoa com seu japá, o relojão de parede, o bondinho, o quiosque da praça e os retratos de família. É assim, exatamente, que ficam na memória as cenas e os objetos de nosso passado. Só as lembranças, com suas tintas e suas cores, têm o poder de acordá-la numa paciente e amorosa recomposição de gestos, pessoas, eventos, cronologia. E a seguir, o elenco de receitas que alegravam o paladar, e dariam, a cada gênero de goma, seu clima e sua festa.

Com franqueza, eu não esperava emocionar-me tanto com a leitura destas reminiscências, depois de ter lido as memórias de Pedro Nava. O fato, no entanto, é que a terra de minha infância tem mais a ver comigo do que a Belo Horizonte ou a Juiz de Fora daquele autor mineiro, cuja obra, na opinião de Francisco de Assis Barbosa, é uma lição de vida e uma lição de Brasil, como as “Doces Lembranças”, de Dona Chloé serão, para nós, uma lição de vida e a lição de um Brasil diferente e esquecido. Se alguém duvida, compare a vitalidade interior das casas mineiras de antanho, descritas pelo mestre de “Balão Cativo”, com as suas congêneres do Acre, onde a casa do Dr. Areal Souto destaca-se como exemplo e modelo.

Decorridos alguns anos dos últimos episódios que marcam, com chaves de ouro, as páginas finais desta autobiografia, nós fizemos, eu e meus pais, esse mesmo roteiro fluvial de Sena Madureira a Manaus, e adivinho a emoção daqueles que deixavam suas raízes pela vida da Capital. Como se sabe, as únicas, assim consideradas naquele tempo Capitais da Amazônia, eram Manaus e Belém. São dezenas de pessoas que estiveram, momentos apenas, diante dos nossos olhos. Personagens reais, ou imaginários, seu tempo, hoje, é de fábula. Como aquele misterioso Ramayana de Chevalier que Dona Chloé viu e “fotografou” nas suas diversas e espalhafatosas aparições durante a viagem. E a quem tivemos por amigo no apogeu e na derrocada, apenas física e breve, de sua bela e prodigiosa existência.

Finalizando esta modesta apresentação da escritora Chloé Loureiro, eu tenho a dizer, simplesmente, que os ossos de seu baú “reencarnam” neste livro, não por arte de um saudosismo estéril e vazio, mas porque também florescem na dimensão poética de um legado cultural que vence a morte.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Solo das chuvas

 

Solo das chuvas

Jorge Tufic


Quem o disse? Pelo menos oito palavras se enraízam por muito tempo na escritura de cada autor, seja ele poeta ou ficcionista. Às vezes até para sempre. No caso da poesia, são as chamadas palavras-chaves, ou constantes, usadas para expressar ou dar forma aos sentimentos pares, que nelas encontram as nuances, o toque e o rastro dos objetos cativos. Dançamos a dança de Zorba: o fogo, de permeio, entre a vida e a morte. Quer seja a nossa, cotidiana e pertinaz, quer seja a dos laços afetivos intimamente difíceis de aceitar, a menos que outros se interponham, lhes dando continuidade.

Em José Telles, fenômenos como estes preenchem os vazios de sua lírica, ao mesmo tempo em que alimentam a notória evolução de sua arte maior, cada vez mais dedicada, absorvida e entregue à economia verbal, ao minimalismo ou momentos-monumentos revelados ao apelo das metáforas, sobretudo aquelas por conta das quais a necessidade do discurso pertence aos ecos de sua própria leitura.

Eu entendo que o mistério lunar desse modo, no autor deste livro, não abre mão do silêncio como a órbita de suas constelações temáticas. O silêncio-personagem, confidente ou antagônico. O silêncio da culpa com suas “goteiras de saudade”. A paisagem com suas tardes viúvas. O silêncio das fraturas em tempos de aceitação. A pedra e o sangue das raízes; a dor e o pânico nos sargaços da idade madura; lembranças, fugas, cicatrizes, brindes, contrapontos, falésias, alpendres, águas paradas; o azul e o tropel, também silencioso, das horas insólitas.

Poemas longos e bem sucedidos completam o volume, numa prova a mais de que fôlego e talento poético não lhe causam fadiga.

Pós-modernidade, revisitação aos parâmetros surrealistas, abstracionismo ou a súmula de tudo isso para obter a essência do canto que se degusta, tanto das perdas que o mundo lhe impõe, quanto dos ganhos que nada representam sem a forma das mãos e do olhar de sua mãe, como a vejo num dos mais belos poemas desta coletânea?

O jogo nascera com o dom da palavra. A escrita é um desses contatos. Mas o lúdico é atributo comum. Um lance de dados. Nem a matemática se aproxima do acaso. Quem acerta um número ou completa uma sena, não fora, contudo, obra do acaso. Alguma coisa existe e subjaz ao fenômeno, ao verso e ao simples acaso. A isto se dá o nome de arte. A arte do poeta, a arte que fez este livro pulsar, inscrever-se no bronze, na prata e no ouro.

Nele, José Teles alcança o melhor que poderia ter sido feito, entre uma produção e outra, desde que se estreara com seus “Poemas Estivais”. E posso afirmar que ele já tem seu lugar garantido entre os maiores poetas brasileiros do século XXI.