domingo, 9 de fevereiro de 2014

Pacote poético

Pacote poético
 
 ROGEL SAMUEL
 
Em 30 de setembro de 1999 escrevi um texto que aqui transcrevo com algumas modificações:
 
Recebo um pacote pelo correio, um pacote amarelo que apalpo e que sinto, há objetos dentro, possivelmente livros: sim, são cinco novos livros de Jorge Tufic que eu lhe pedi pelo telefone e eu fico me lembrando que, há quarenta e três anos atrás, ele publicava o seu já clássico “Varanda de pássaros”.
 
Como pode Jorge Tufic manter 50 anos ininterruptos de poesia apesar da crise por que passa a produção cultural brasileira e a amazonense em particular? Porque depois daquele grupo do Clube da madrugada muito pouco produziu a poesia de Manaus.
 
Eu era adolescente e Tufic já era dono de uma grande obra que se afirmava principalmente nos seus sonetos extraordinariamente inovadores e pós-modernos.
Na década de 80 eu já morava no Rio de Janeiro (cheguei no dia 2 de janeiro de 1960) e nós nos correspondíamos por carta. Depois ele se foi para Fortaleza e o perdi de vista. Soube que foi homenageado no Rio de Janeiro, onde moro, mas não o vi porque estava viajando.
 
A última vez que o encontrei foi em Manaus, no restaurante Galo Carijó, onde eu gostava de almoçar sempre que estava em Manaus e onde também deparei ali com o Thiago de Melo, donde se conclui ser aquele bar um ponto da poesia perene.
 
Voltei a comunicar-me com ele este ano, quando eu tomei a ousadia de aventurar-me a candidato a uma vaga – a de Áderson Dutra, primo de minha mãe – da Academia Amazonense de Letras: fui derrotado mas valeu, pois me pus em contato com velhas e novas amizades. 
Agora, recebo alguns livros e várias pequenas publicações, entre as quais o belíssimo “Agendário de sombras”, uma coleção de sonetos dos quais cito, ao acaso:
 
Necessito do rio e da paisagem
que me vira partir quando menino.
da visão surpreendida ou desse quanto
pode haver em redor do meu destino.
eram coisas e seres do meu tempo,
partes de mim que a vida, em seu balanço,
foi deixando passar, nuvem sujeita
aos ventos, matéria sujeita ao ranço,
rubros sóis de verão, coleita breve
de azeitonas e ocasos, também contam.
Soldado entregue ao chumbo dos brinquedos,
ao som, talvez, das águas deste inverno,
quero sentir na pele evanescente
como eu seria agora, antigamente.
 
Ao poetas menores como eu, Tufic aparece como uma alta torre nos Himalaias, com a força da sua Linguagem, algo inimitável e inatingível. Mas como pessoa ele tem a gentileza dos mais nobres corações e nos brindou com imerecidas dedicatórias.
 
Dentre sua produção recente, no ano passado ele publicou “Sinos de papel”, um delicioso livro de haikais que bastaria para o consagrar:
 
Paineira caiada
Por uma lua de espuma
Tão cheia de nada.
 
Jorge Alaúzo Tufic nasceu no dia 13 de agosto de 1930 e publicou seu primeiro livro aos 25 anos de idade. A Amazônia dele se orgulha.
 

sábado, 8 de fevereiro de 2014

RETRATO DE UMA OBRA-PRIMA

RETRATO DE UMA OBRA-PRIMA
(A poesia de Jorge Tufic)
 
Rogel Samuel
 
 
 
 
Prefácio: As noites voadoras de Jorge Tufic
 
Na poesia de Tufic tudo voa, são estrelas, cintilam caminham no céu daquela Amazônia mítica, luas várias luas que se contam com as mãos, narrativas dos nossos mitos, viagem dos Desâna, canoas de cristal, transformadoras, estórias e sabenças de quem vive sozinho no meio do mato, faro de onça, muirakitãs da lua nua, que se despe na entressafra do amor,
 
despenca uma folha
e o verão estremece
 
Passarinhos que ouvem nossas conversas, na terra macia escrevemos nossos textos (nunca se sabe, tampouco, - porque se chama de vazio – o espaço da natureza).
 
Que será de ti, Amazônia? Cavidades, rangidos
 
Subitamente sou árvore,
flor, pássaro e livro.
Um livro cujas páginas
tomaram a cor e o risco
da música e da pedra.
 
..........
cinzel que não fere,
da jaula inconsútil.
 
(Texto escrito com “Quando as noites voavam”, de Jorge Tufic – Fortaleza, 2011.
Ele é o grande cantor da Amazônia!)
 
 
 
 
 


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

SONETO A UMA TELA ESQUECIDA

DUETO PARA SOPRO E CORDA



SONETO A UMA TELA ESQUECIDA
Douradas estações fazem seu lume
de ontens sangrados e amanhãs nevoentos.
Que somos nós? Tutores desses ventos,
breve fulgor, insólito perfume.
Celebrar esse instante era costume
sob as copas de bosques cismarentos;
dele jorraram vinhos sumarentos,
dele a canção do afeto e do negrume.
Entre o sono e a vigília, amor e tédio,
crestam videiras; lá, barra-se o dia
que à cena empresta um rústico debrum.
Assim pintores viam, sem remédio,
fixar-se o tempo escasso da alegria
na sucessão de um brinde apenas um.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O PROTESTO DE BOCAGE


BOCAGE

No canto de um venal salão de dança,
Ao som de uma rebeca desgrudada,
Olhos em alvo, a porra arrebitada,
Bocage, o folgazão, rostia o França:
Êste, com mogingangas de criança,
Com a mão pelos ovos encrespada,
Brandia sôbre a roxa fronte alçada
Do assanhado porraz, que quer lambança:
Veterana se faz a mão bisonha;
Tanto a tempo meneia, e sua o bicho,
Que em Bocage o tesão vence a vergonha:
Quis vir-me por luxúria, ou por capricho;
Mas em vez de acudir-me alva langonha
Rebenta-lhe do cú merdoso esguicho.


IX


Arreitada donzela em fôfo leito,
Deixando erguer a virginal camisa,
Sôbre as roliças coxas se divisa
Entre sombras sutis pachacho estreito:
De louro pêlo um círculo imperfeito
Os papudos beicinhos lhe matiza;
E a branca crica, nacarada e lisa,
Em pingos verte alvo licor desfeito:
A voraz porra as guelras encrespando
Arruma a focinheira, e entre gemidos
A môça treme, os olhos requebrados:
Como é inda boçal, perde os sentidos:
Porém vai com tal ânsia trabalhando,
Que os homens é que vêm a ser fodidos.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

SONETO PARA BOCAGE

DUETO PARA SOPRO E CORDA



SONETO PARA BOCAGE
Que sabes tu de mim, rosto sereno,
mão armada de cálamo, chinelo
diante do pé lanhado e não pequeno,
em tudo a imagem de polichinelo?
Que sabes do que sou, profundo anelo,
sempre avesso ao teu lodo, embora ameno
ou pálido me adentro em teu castelo
e bebo do teu vinho e teu veneno?
Que sabes deste outro que procuro,
Se reverbero enquanto te consomes,
e entre nós se levanta um novo muro?
Fardo que me aprisiona, quem imagina
ser um monstro fugaz, com tantos nomes
a fera em que me escondo e me assassina?

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O LÍRICO E O ERÓTICO

O LÍRICO E O ERÓTICO


Um aspecto característico da dupla personalidade de Elmano Sadino, nome árcade do nosso poeta, vai-se encontrar em Nize, Marília, Márcia, entre outros anagramas de suas amadas, e nomes reproduzidos na forma verdadeira, que tanto aparecem sob a roupagem lírica dos sonetos e poemas recolhidos em suas Obras Completas, como na obra considerada fescenina. Vamos exemplificar com Nize, personagem bastante familiar do fazer erótico de Bocage:


Não lamentes, oh Nize, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado:
Dido foi puta, e puta dum soldado;
Cleópatra por puta alcança a c’roa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado;
Essa da Rússia imperatriz famosa,
que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:
Todas no mundo dão a sua greta;
Não fiques pois, oh Nize, duvidosa
Que isso de virgo e honra é tudo pêta.


A mesma Nize aparece, depois de falecida, neste soneto-epitáfio profundamente evocador de sua inocente beleza anímica, interior, materializada na pureza dos olhos sofridos, que aos poucos a morte lhe fora apagando. Soneto XXXIX (39) das Obras Completas



Já no calado monumento escuro
Em cinzas se desfez teu corpo brando
E pude ver, ó Nize, o doce, o puro
Lume dos olhos teus ir-se apagando.
Hórridas brenhas, solidões procuro,
Grutas sem luz frenético demando,
Onde maldigo o fado acerbo e duro,
Teu riso, teus afagos suspirando.
Darei de minha dor contínua prova,
Em sombras cevarei minha saudade,

Insaciável sempre, e sempre nova.
Té que torne a gozar da claridade
Da luz, que me inflamou, que se renova
No seio da brilhante eternidade.

SERESTA FRUGAL

DUETO PARA SOPRO E CORDA



SERESTA FRUGAL
Bota a mesa, Raquel. Aí vem lua
pela janela aberta. A lua traz
constelações de frutas, muita paz
na brancura do pão que ora flutua.
Belos peixes do rio vão pra rua
da noite plena que esse bem nos faz.
Bota os pratos, que agora a mesa é tua,
farta desse clarão que satisfaz.
Lá fora o vento morno impõe o riso
de quem  degusta estrelas; e há licores
na sombra onde comer não é preciso.
Banquete assim, Raquel, preda os rancores,
enfuna o linho à mesa, engana o juízo
que assim volteia como os beija-flores.