quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

CANTIGA, APENAS CANTIGA








CANTIGA, APENAS CANTIGA



Louvo a deus,

louvo a formiga,

cada coisa em seu lugar. 

Louvo a difícil cantiga,

louvo a pedra,

louvo o mar.



Quem não louva a tudo isso

quem não se enxerga

a louvar,

é mais bruto do que a pedra,

muito mais surdo

que o mar.



Louvar é dar sentimento

Quem louva

a Deus se transfere,

nunca cessa de louvar:

louva o mundo que nos fere,

e ao tempo

que faz sarar.



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

SONETO INGLÊS PARA ANIBAL BEÇA


SONETO INGLÊS PARA ANIBAL BEÇA
 
Hoje sei que o meu tempo foi de algemas.
Atado ao mundo, pássaros de areia
se largaram de mim: lestos fonemas
trazem de volta o néctar que incendeia.
Habitante da noite, volta e meia
danço e cavalgo estranhas partituras.
Onde a poesia? Látego e correia
a suíte é rosa, música e nervuras.
A lua imensa bebe, nas alturas
todo o clarão que sobe dos teus dedos.
0 mar se expande em conchas e loucuras
solos e flautas contam seus segredos.
 
Tenda de Omar Khayyam, quem não te habita,
salsa-songo na pauta transfinita?

RETRATO DE UMA OBRA-PRIMA

RETRATO DE UMA OBRA-PRIMA
 
ROGEL SAMUEL
 
 
 
  Teus cabelos castanhos, tuas tranças
fazem lembrar as madres de Cartago.
Doce mãe, sombra tépida, murmúrio
de sonâmbulas fontes; poucos sabem
teu nome, enquanto, fatigada embora,
dás-nos o pão e o leite, a flor e o fruto.
Poucos sabem te amar enquanto viva
e, quando morta, poucos também sabem
da fraqueza que em força transformavas.
Ai, retrato de mãe, quanto mistério
se converte na tímida lembrança
destes álbuns que lágrimas sulcaram.
Na verdade, Ramón, só de lembrá-la
um soluço arrebenta-nos a fala.
 
Depois vem a casa, a cozinha, as comidas da culinária libanesa, a lentinha, o azeite, as cebolas fritas, a coalhada, o pão redondo, que a Mãe preparava... mas tudo isso passou. Onde estão as comidas, os pratos de lentilha, a terrina de azeite para as coalhadas, as cebolas fritas? Tudo passou... Como, ao redor da casa, o vento. Como passou o vento do tempo. Também passam a cerca do quintal, os vizinhos, as vozes cantantes, e passaram. E o que passa é aquele Calendário sem datas, o chão do passado, o que passa. A casa da mãe. O que passa. O chiar da frigideira. Os convites. O passado convida o leitor no seu chamado culinário: a mãe é aquela cozinheira das almas, das afetividades, da fraternidade, da ternura, o amor recende dessa mãe cozinheira, que ainda manda seus recados e canta, é assim que ela aparece, suada e infinitamente bela e luminosa, centro da vida familiar. Social.
A mãe é o corpo da “vida privada”.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

SONETO

Morto para sempre? O que dizer,

se a própria metafísica se esquece

que o pilriteiro, em ramos, não floresce

onde não há ninguém para morrer?


Morto para sempre? Ser ou não ser,

nostalgia de um quando que apetece...

O que nasce, definha; e o que amanhece

há-de ao nada, sem dúvida, volver.


Desperta-se do sono com a surpresa

de Lázaro da breve noite escura

ao lento enrubescer da natureza.


Para sempre se morre? Assim, precário

vai-se o corpo visível da impostura,

mas fica, dele, o corpo imaginário.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

SONETO PARA GOETHE

DUETO PARA SOPRO E CORDA




SONETO PARA GOETHE
O olhar de Goethe envolto pela história,
deslumbrado em saber-se parte dela:
Goethe na Itália como pôde vê-la
nos mármores pesados de sua glória.
O olhar de Goethe fixa a trajetória
dos tempos que se fundem; e a seqüela
das mudanças fatais  abre a janela
sobre a praça dos deuses e da escória.
Deambula este sábio que à paisagem
da antiguidade empresta a doce imagem
de um sonhador que pensa, enquanto voa.
Faz-lhe bem penetrar nos ventos mornos,
dar ao silêncio músicas e cornos,
que, mesmo em pedra, o velho Pan ressoa.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

RETRATO DE UMA OBRA-PRIMA

RETRATO DE UMA OBRA-PRIMA
 
ROGEL SAMUEL
 
 
É um tema banal, popular, vulgar. A mãe, já tão gasto motivo dos cadernos poéticos e saudades, pois todos nós tivemos ou temos a mãe a saudar, a lembrar, a louvar, a chorar. 
 
Mas Jorge Tufic é um poeta excepcional: com que realizou sua obra-prima, sonetos pós-modernos em que ele traça o perfil, o “Retrato de mãe“, de sua verdadeira mãe, ou da personagem mãe.
 
O pequeno livro é uma obra-prima em quinze sonetos. Começa por uma invocação.
O que lemos aí é a invocação de um sabor (de um saber), de um elemento gustativo, a maçã, o trigo, me o visual, fios de luz, e o táctil elemento do vento, e os aromas, a paisagem, a planície, os montes e as noites, a pedra, a febre, o martírio.
 
 
1. Venham fios de luz, aromas vivos
misturar-se às palavras, à centelha
do louvor mais profundo deste filho
que se depura e sofre com tua ausência.
Venha o trigo do Líbano, a maçã
de que tanto falavas; venha a brisa
tecer mediterrânea esta saudade
que vem de ti quando por ti me alegro.
Que venha a primavera, saturando
vales, planícies, colorindo os montes,
noites de luar caiando os muros altos.
Venha a pedra da igreja onde ficaste
quando em febre te ardias. Venham lírios
rebrotados de ti, dos teus martírios
 
 
Invocada, a mãe começa a delinear-se, começa a aparecer, vem em fragmentos, pouco  nítida, mas forte, sentida, ou pressentida, sim, começa ele a pintar o retrato interno da dulcíssima Mãe e que logo todos nós assumimos como nossa (quem consegue falar de sua mãe morta sem tornar-se piegas?), conjuntamente, nossa mãe síntese e simbólica, a Fonte, semente e nome de nossa vida, que tudo nos deu.
 
Tema freudiano, pois.
E no segundo soneto logo aparece um mistério: Quem será este desconhecido Ramón que aparece no penúltimo verso?
 
É D. Ramón Angel Jara, Bispo de La Serena, Chile, citado no pórtico do livro. No livro há citações, pós-modernidade. Ou seja, a obra se diz: “Calma, eu sou apenas uma obra literária”.
A descrição, o retrato começa pelos cabelos, as tranças, a voz, a lembrança. A fronte do  pão, do leite, da flor, do fruto. Mãe que é para “amar depois de perder”, como no verso de Drummond. Na verdade, Tufic, só de lembrá-la um soluço arrebenta-nos a crítica.