quarta-feira, 7 de maio de 2014

ROMANCE DO CASARÃO


II

Álbuns também de família,
rompendo os frisos de gesso,
trouxeram de tais abismos
retrato mais velho ainda
de uma senhora com a ?lha.
E agora, vejam: que susto
nos prega roçar com os dedos
a superfície de um rosto
que há tantos idos mergulha
no esquecimento e no pó.
Prende a emoção de tocá-lo
em busca, talvez, de um nome,
letras gravadas na pedra
de algum jazigo – mas onde?
Foram-se todos. Herdeiros,
cansados se revezaram
até os últimos da silva.
Tanto que a pá, no trabalho
da ingrata demolição,
junto às paredes vencidas
deitou por terra, inclusive,
a alma do casarão.


segunda-feira, 5 de maio de 2014

ROMANCE DO CASARÃO



ROMANCE DO CASARÃO


Da infância antiga, o retrato
se revela a cada toque
da luz certeira que o mata.
Vai se gastando sem ecos,
parado, mas nunca imóvel:
testemunhando, se ausenta.
Quem sabe não vive alhures
sob outros tetos servidos
por tantos outros retratos
que o tempo, a chuva, o selênio,
não pesam nem des?guram.
Nos olha, e, salvo das traças,
conta as lebres e os cavalos
de seus domínios e cercas
travando as patas do escuro.
Ninguém lhe sabe, contudo,
a que ramos pertecera,
se ramos ou se pereira,
se judeu novo ou barão.
Se sabe apenas que um dia,
brotara de uma gaveta


sexta-feira, 2 de maio de 2014

POEMA-CORAL DAS ABELHAS



POEMA-CORAL DAS ABELHAS


Que sabe da morte a criança
Que sabe do trigo o fogão
Que sabe da grama o domingo
Que sabe da febre o ferrão
Que sabe do artelho o sapato
Que sabe do brinde o cristal
Que sabe do vidro a madeira
Que sabe da torre o castelo
Que sabe da ?or o pardal
Que sabe do peixe a tarrafa
Que sabe da fome o torresmo
Que sabe da chuva o telhado
Que sabe do amor o estafermo
Que sabe do crime a aliança
Que sabe da noite o arvoredo
Que sabe da pedra a cascata
Que sabe da luta a esperança
Que sabe do mar o silêncio
Que sabe do ouro o mercúrio
Que sabe do rio a paisagem
Que sabe do jogo a miséria
Que sabe de Homero o tugúrio
Que sabe da ?auta o gorjeio
Que sabe da fonte a miragem
Que sabe da trova a saudade
Que sabe do monte o centeio
Que sabe da lira o lagarto
Que sabe da terra o centauro
Que sabe da viga o morcego
Que sabe da rês o cutelo
Que sabe do tétano o dartro
Que sabe da faca o segredo
Que sabe da prece o defunto
Que sabe do enterro a escritura
Que sabe do gelo a fornalha
Que sabe do queijo o presunto
Que sabe do verde a lingüiça
Que sabe do índio Aristóteles
Que sabe do canto a roseira
Que sabe do arado a preguiça
Que sabe do cais o destino
Que sabe de Orestes o escudo
Que sabe do mundo o carbono
Que sabe do teucro o romano
Que sabe da estátua o seu dono
Que sabe de nós o que é humano
  Abelhas tiramos o mel
donde a bosta lógica planta
 todo o racional desamor

sábado, 26 de abril de 2014

LEITURA OBLÍQUA



LEITURA OBLÍQUA


De meus últimos exames
resultam fraturas.
Algumas consolidadas, outras
em franca perda da massa
indispensável
para minhas idas e vindas
à Praça do Ferreira.
São três no tórax,
duas na cabeça do fêmur
e bem ali,
num ponto sem qualquer referência,
a mais grave de todas
e a que menos se vê.


terça-feira, 22 de abril de 2014

O PESADELO



O PESADELO


O que vem deste passado
senão vendavais de sândalo,
calçadas com poças de chuva,
 e a soma de tudo
na gota escura de cada tinteiro
que, antes de qualquer gesto,
seca ou se evapora.


sábado, 19 de abril de 2014

PROVISORIEDADE


PROVISORIEDADE

Executado o projeto da casa
habitada por dentro
uma outra festa
quem sabe inaudível
começa a roer o sorriso
que aumenta os retratos.


quarta-feira, 16 de abril de 2014

A VIGÍLIA



A VIGÍLIA


A noite se crava em meus ossos.
Ela tem muito de mim:
guarda os milênios de chuva
destaca as fogueiras do mito
faz gotejar os pajés da Amazônia
sobre lagos & rios.
Essa noite não dorme
enquanto a prolongo.