quinta-feira, 16 de outubro de 2014

PAISAGEM GRAVADA





PAISAGEM GRAVADA



Na desbotada fotografia
o rio de minha infância,
o primeiro que vi
a me levar e trazer
entre margens provisórias.
Da janela de casa
a paisagem de sempre
noturna ou clara:
os peixes nas redes de sol
e a barrenta profundidade
onde estrelas se lavam
da queda impossível.



segunda-feira, 13 de outubro de 2014

CARTA DE RAMAYANA DE CHEVALIER

Uma carta de Ramayana de Chevalier


Ramayana de Chevalier, 1958


Rio, 9 de abril de 1967

Meu grandiquerido [Jorge] Tufic



A saudade é como a luz, não morre, todos os dias se renova. Vocês do Clube da Madrugada representam, para mim, um retrocesso no tempo, uma viagem amável ao País da Emilia. Poetas, o são como eu aspiro e sinto: vivos, aluando de vida, tontos de luz como os pássaros livres da nossa terra. Gostaria de viver com vocês. Já me distancio na eclética do destino, procurando rosas no meu deserto, mas amando ao Amazonas com todas as fibras da minha paixão.



Nos meus dias de solitude, diante desta Copacabana sofrida pelos cortes de luz recebo sempre dois pedaços do Clube da Madrugada: Antísthenes e Penafort. Poetas, romancistas, talentos de cepa fina, caboclos na mais larga acepção do vocábulo. Trazem-me notícias, livros, composições espirituais da planície. São vozes da floresta, rumos perdidos da selva nesta flumilândia de arranha-céus.



Fala-me de você, de sua casa admirável debruçada sobre o igarapé como a de Pearl Buck em Hong Kong, talhada em madeira de lei, nossas eternas madeiras amazônicas, magníficas perfeições da nossa arquitetura neolítica, olhando as águas como presentes de Deus as almas sequiosas de bondade. Lembro-me de soneto, “Possível Soneto a Dalva”, obra prima da cinzeladura glebária, notável conquista de um talento que representa a nossa raça, a nossa gente, o nosso futuro misturando sírios, franceses, nórdicos, mestiços no imenso caldeirão da Hiléia, mãe santíssima da nossa desventurada sensibilidade. “O resto é uma cidade e nela o meu orgulho”.

Sim, o teu e o de todos esses Farias, Elsons, Bacelares, Américos, Alencares, Ruas e ensaístas como Aluísio Sampaio, Engrácio, Batista, João Bosco Evangelista, um economista como Saul Benchimol, um Jefferson Péres, artistas ao jeito de Afrânio Castro, Getulio Alho, Álvaro Páscoa, Moacir Andrade, Assayag, um ficcionista como Benjamin Sanches, e o miniaturista admirável que é Óscar Ramos, exilado na Espanha dentro da luz e da cor.



E me recordo dessas noites de luar sobre o rio, onde, quando em Manaus, “o fogo brando como Dalva em meu peito, a consumia”. Tu, como um Alfonsus de Guimarães, que assinaria esse soneto a Dalva, namorando uma lua no céu e outra lua no rio, momento eterno de translumbramento, como as genialidades pictóricas desses artistas manauaras ou transplantados para lá, doces Messias da última mensagem, amando desmesuradamente ao Amazonas, frutos de seus esgalhos pendentes, flores dos seus lagos imaturos, nelumbos dos seus igapós dormentes.



Gostei de teus livros, amei os teus poemas. Silvei como as dobras da espessura, buscando imagens e belezas. Arfei como os fatigados manatins dos canaranais, respirando saudades. O capitalismo afastou-me das rotas distantes, impossibilita-me uma visita à minha terra. Há uma pousada a minha disposição. A casa de Stenio Neves, na praça da Saudade, que me foi oferecida, com o ar condicionado e outras vantagens modernas. Um dia saltarei por ai, de acangatara, ou só com a minha velha tara, rosnando de amor pelo Amazonas, que me atormenta de paixão como um eczema sentimental.


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Anúncio em A Tarde, 1939

Morrerei, Tufic, é o destino. Só me sentirei feliz se o Clube da Madrugada, coletando-me as cinzas, junto com flores de mamorana, descer, uma noite de plenilúnio o rio Negro, despejando-me os espólios na foz, rumo ao mar-oceano... Nessas pedras que andei, hoje asfalto, por essas casas humildes que me convidam ao sonho impossível para os que não poderão jamais compreendê-la.

Vou parar. Meu caminho é como o das lagartas volantes, não marca o chão. Tu, que tens na lama a vibração das palmeiras dos oásis e o fervor pelo destino dos pais, tu que és símbolo do bom filho, do bom irmão e do bom companheiro, tu que és poeta no ar que respiras e na limpidez aos teus momentos interiores, nos quais festejas a Morte, lembra-te do teu velho amigo, do Ramayana que é uma expressão da Amazônia onde quer que se encontre, um traço de Amor entre a terra e o infinitivo, um caboclo doente e triste, cujo sorriso é uma lua à superfície de um lago tranquilo.



Abraço-te a ti e aos nossos irmãos do Clube da Madrugada. Uma tâmara para o teu coração. Um cupuaçu para os nossos paladares boêmios. Meu endereço vai abaixo. Gostaria de entreter com vocês um entendimento de beira de cais. Receber jornais de Manaus, escrever para eles, escutar de longe as novidades da mais bela das cidades do Brasil, junto com a Bahia, porque autênticas.

Como na Roma antiga, direi de toga suspensa e num gesto digno: Vale!


Do teu ex-conde

domingo, 5 de outubro de 2014

CARROSSEL


CARROSSEL

Sei que o mundo navega
ao mesmo ritmo que o sangue
em meus joelhos dourados.
Sei que o dia vai indo
para um lugar talvez
onde juntos
seremos a noite.


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

GRAND FINALE








GRAND FINALE

Bastante esperei para que as vinhas
desabassem seus cofres,
amenas fragrâncias
golpeadas por cada sol
em trânsito
pelo deus que me habita.
Tim-tim portanto
para o fogo visível que me cerca
de mesas
e cadeiras aborrecidas.

sábado, 20 de setembro de 2014

PERFIL DO INSOSSEGO



PERFIL DO INSOSSEGO


Cai a tarde em meu corpo
senilizado pelas cruzes
do encanto vencido.
Cai o sol das frutas cozidas
pelo silêncio do orvalho.
Cai um décimo de meus dias
que levam, contudo,
o alarido das glórias que não tive
para a música dos seixos.



domingo, 14 de setembro de 2014

O CHÃO DA VARANDA



O CHÃO DA VARANDA


Do primeiro esquecimento
guardo a pitanga de chuva
a neblina dos rios amarelos
e a bolsa de prata
onde minha mãe também guardava
a solidão metálica
dos búzios.


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A EUGÉNIO DE ANDRADE


A EUGÉNIO DE ANDRADE

Conter, ou apenas sentir
o que ao peito faz eco
e vem, dobrando esquinas
como se dobram roupas
ao calor das alfazemas.
Quase inaudível, entre ramos alertas,
a voz do aconchego, o doce
rumor que atravessa colinas
mas não desliga o ninho
da mais íntima palha
que descobre o silêncio.
Em ti, poeta, o receio
de não sorver o cálice da manhã
até que o dia torne a ser visto
nas pálpebras de um sonho.