segunda-feira, 20 de julho de 2015
DOS JOVENS GOLIARDOS 1
DOS JOVENS GOLIARDOS
I
Que fim levara o sol dourando a espiga
das manhãs argentinas de meus ombros?
Que fim levara a polidez dos seixos
e a magia do riso entre os escombros?
Que fim levara a roupa do menino
seus cadernos suas penas seu tinteiro,
plumas de ganso ao fogo azul e branco,
pepitas de ouro e galo no terreiro?
Que fim levara a esguia namorada
e as chuvas regulares copas verdes,
chão coberto de mangas? Se este nada
era tudo e tão fundo e tão sublime
que nem toda a existência de palavras,
nem a vontade de morrer, exprime.
segunda-feira, 13 de julho de 2015
SONETO X
X
Era um jardim de mágicas a Sena (*)
dos meus tempos nanicos; pergaminho
crepitante nas árvores descia
fermentando palavras com seu vinho.
Formigas tinham asas, eucaliptos
varriam os céus da tarde longos finos,
em cujas pontas altas e solenes
faíscas de verão tocam violinos.
Rios bebidos pela tromba-dágua
retornam com seus peixes; nos telhados
jasmins de fogo e pássaros gorjeiam.
Transfiguradas noites, quando sonho
junto os fragmentos cegos dos meus dias
num montão descartável de elegias.
(*) Sena Madureira - Acre
domingo, 5 de julho de 2015
SONETO IX
IX
Meu irmão natimorto aos sete meses
foi plantado ali mesmo no quintal,
onde após sete meses florescera
com seus olhos nutrindo um roseiral.
Que música tocavam nas alturas
flautas de sete cores, quem sabia
nem soubera dizer, mas tinha o corpo
mergulhado em tenuíssima agonia.
Nas cloacas do sexo outros anjinhos
dissolvidos em ácido azulavam
pelas águas cativas, sumidouros.
Meu irmão natimorto aos sete meses
nada entende do mundo nem das feiras.
Só modela raízes e palmeiras.
sexta-feira, 26 de junho de 2015
SONETO VIII
VIII
Cantadores chegavam nos gaiolas
resplandecendo trovas consteladas,
e entre os sabores negros da partida
ardiam no alecrim das madrugadas.
Luas multiplicavam seus cavalos,
dragões comiam flor; e no tormento
das fogueiras solares se expandiam
desdobrando os cordéis do pensamento.
Comparava-se o mundo a qualquer bicho
que anda chutando os pobres de sua terra,
bicho-papão de sonhos e quimeras.
Nordestinadas levas, seringueiros
dos quais resta essa dor, viola serena
que nos consola porque vale a pena.
sexta-feira, 19 de junho de 2015
SONETO VII
VII
Sítios da infância, cálidas pitangas
avermelham no cio das cadelas.
Meninos e meninas no barreiro
e a vergonha desaba das janelas.
Bancos de praça rubros amanhecem,
saltam cabaços vivos em memória
de quem chega mas parte; e logo os ventres
a seu tempo confirmam cada estória.
Sobem depois as águas das enchentes,
latifúndios rastejam sob a lama,
montarias a esmo invadem ruas.
As chuvas lavam com rigor tamanho
que após ter o dilúvio sossegado
ficamos limpos, todos, do pecado.
quinta-feira, 11 de junho de 2015
SONETO VI
VI
A lua envelhecida ocupa os ares.
Desce inteira das nuvens, e assim plena
larga todas as vestes. Mês de junho
sabe a feitiço e os peixes envenena.
Algo desata a flor dos jasmineiros,
ventos carregam súplicas e brados.
Essa lua, porém, de que me lembro
tem o rosto senil dos afogados.
Jovens que se largaram pelos rios,
braços rijos nas faias, nunca mais
regressaram das margens convulsivas,
dos laços de algum réptil. Que eu recorde
todos dormem sonhados pela aragem,
ecos perdidos numa só voragem.
segunda-feira, 1 de junho de 2015
SONETO V
V
Eu disse um grilo ou coisa que, inventada,
foi motivo de súbita alegria;
uma palavra nova, enfim, naquele
deserto de palavras, florescia.
Os zéfiros dos livros e a brancura
das estrelas, depois, foram caindo
sobre as casas e as ruas; andorinhas
já não sabiam de onde estavam vindo.
Ouviram-se martelos que batiam
cravos de sol previstos para a carne
de quem se alara tanto, além das aves
e das cercas antigas e dos campos:
este ser pequenino, hoje encolhido
neste velho teimoso e distraído.
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