sábado, 6 de novembro de 2021

Eu disse um grilo ou coisa que, inventada,


 Eu disse um grilo ou coisa que, inventada,

foi motivo de súbita alegria;
uma palavra nova, enfim, naquele
deserto de palavras, florescia.
Os zéfiros dos livros e a brancura
das estrelas, depois, foram caindo
sobre as casas e as ruas; andorinhas
já não sabiam de onde estavam vindo.
Ouviram-se martelos que batiam
cravos de sol previstos para a carne
de quem se alara tanto, além das aves
e das cercas antigas e dos campos:
este ser pequenino, hoje encolhido
neste velho teimoso e distraído.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Rostos que nunca vi, jacintos murchos


 Rostos que nunca vi,  jacintos murchos,

cujas sonatas frias me tocaram,
estes rostos não quero: eles são breves
no desfile das pálpebras cerradas.
Penso naqueles outros, familiares
rostos de toda a vida. Cataventos
da rua ainda sem nome, alagadiço
porão da infância, arpejos e trigais,
dai-me a ver novamente ou mesmo em sonho,
estes semblantes nunca repetidos,
graves alguns, mas todos inseridos
na memória dos dias voluntários.
Cemitério, talvez, dessas lembranças,
quantas, em mim, são rosas e crianças.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Cantadores chegavam nos gaiolas


Cantadores chegavam nos gaiolas
resplandecendo trovas consteladas,
e entre os sabores negros da partida
ardiam no alecrim das madrugadas.
Luas multiplicavam seus cavalos,
dragões comiam flor; e no tormento
das fogueiras solares se expandiam
desdobrando os cordéis do pensamento.
Comparava-se o mundo a qualquer bicho
que anda chutando os pobres de sua terra,
bicho-papão de sonhos e quimeras.
Nordestinadas levas, seringueiros
dos quais resta essa dor, viola serena
que nos consola porque vale a pena.


 

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

A Grande Criadora

 A Grande Criadora

Podes dar tratos a imaginação
e conceberes o que se afigura
a ti mesma, um absurdo, uma loucura,
coisa além dos sentidos, da razão.

Podes imaginar uma aventura
a mais estranha, sem ter céu nem chão,
e o que de mais ousado na Criatura
cheque às raias da tua concepção.

Podes tudo pensar, tudo criares
em histórias e cantos singulares,
o que o sonho não pode e a alma não deve,

e ainda assim, hás de ver que não és louco,
que tudo o que pensaste é nada e é pouco
ante o que a própria Vida vive e escreve!

                       J. G. de Araújo Jorge


sábado, 26 de junho de 2021

Rostos que nunca vi, jacintos murchos

 Rostos que nunca vi,  jacintos murchos,

cujas sonatas frias me tocaram,
estes rostos não quero: eles são breves
no desfile das pálpebras cerradas.
Penso naqueles outros, familiares
rostos de toda a vida. Cataventos
da rua ainda sem nome, alagadiço
porão da infância, arpejos e trigais,
dai-me a ver novamente ou mesmo em sonho,
estes semblantes nunca repetidos,
graves alguns, mas todos inseridos
na memória dos dias voluntários.
Cemitério, talvez, dessas lembranças,
quantas, em mim, são rosas e crianças.

sábado, 28 de novembro de 2020

DO INFANTE AZUL


 DO INFANTE AZUL



Necessito do rio e da paisagem
que me vira partir quando menino.
Da visão surpreendida ou desse quanto
pode haver em redor do meu destino.
Eram coisas e seres do meu tempo,
partes de mim que a vida, em seu balanço,
foi deixando passar, nuvem sujeita
aos ventos, matéria sujeita ao ranço.
Rubros sóis de verão, colheita breve
de azeitonas e ocasos, também contam.
Soldado entregue ao chumbo dos brinquedos,
ao som, talvez, das águas deste inverno,
quero sentir na pele evanescente
como eu seria agora, antigamente.