quarta-feira, 30 de novembro de 2011

VORAGEM

Voragem

Rostos que nunca vi, jacintos murchos
cujas sonatas frias me tocaram,
estes rostos não quero: eles são breves
no desfile das pálpebras cerradas.

Penso naqueles outros, familiares
rostos de toda vida. Cata-ventos
da rua ainda sem nome, alagadiço
porão da infância, arpejos e trigais,

dai-me a ver novamente ou mesmo em sonho,
estes semblantes nunca repetidos,
graves alguns, mas todos inseridos

na memória dos dias voluntários.
Cemitério, talvez, dessas lembranças,
todas, em mim, são rosas e crianças

SISTEMA

Sistema

O desenho de uma estrela
quantifica o papel
deslumbra o vazio.

A simplicidade
equaciona o absurdo.

Jorge Tufic

NA ACADEMIA DE LETRAS E ARTES DO NORDESTE

A foto registra o encontro de Jorge Tufic e Vicente Alencar, da Academia de Letras e Artes do Nordeste – ALANE e Academia Cearense de Letras – ACL, com Genuíno Sales. Nomes de destaque das letras de Norte e Nordeste, registrando-se que Tufic também pertence à Academia Amazonense de Letras

SONETO DO ERAM

Soneto do Eram (Jorge Tufic)





A moldura da infância eram pitangas
esquecidas das telas de Van Gogh.
As cercas eram poucas e distantes,
só meninos brincavam na paisagem.
Desses confins recortem-se os brinquedos
feitos a mão das sobras de meu tio,
construtor da cidade, mestre fino
cujas mãos eram bálsamo e verniz.
Manhãs e tardes vinham para o sono,
bichos falavam, bandolins ao longe
tinham letras, figuras, sentimento.
Deste passado há lendas e mistérios.
Guarda cada um de nós o que lhe cabe
saber das coisas que ninguém mais sabe.

TUFIC

Jorge Tufic






(Poética)

Comunicar-me? Antes seja com a vida
que me circunda, enigma sem palavras.
Depois o resto: a seca geografia
dos léxicos varridos pela fuga
dos centauros bordados pela chuva.
Me deixo então fluir secretamente
em tudo que me amplia ou me reduz
- meu corpo sobre lâminas imóvel
- minhas sandálias rotas de evangelho.
Agora, sim, de posse da linguagem
que me habilita, como o peixe ao mar,
comunico ao leitor possivelmente
algo mais do que sou - talvez aroma
de rosa a se cumprir num outro idioma.


Jorge Tufic
Sena Madureira - AC (1930)

terça-feira, 29 de novembro de 2011

POEMAS

Sistema

O desenho de uma estrela
quantifica o papel
deslumbra o vazio.

A simplicidade
equaciona o absurdo.







Antologias


Poetas e girassóis
estão sendo moídos,

E o pó de seus dedos
clareia os moinhos.





Búzios


Por que se fala tanto
na solidão dos relógios?
Ainda mais solitários
são os búzios, que guardam
nas aurículas de cálcio
os estigmas da terra
os rumores do caos.
E assumem a contagem regressiva
do éter e do granito.





Calendário


Calendário
vida,
ainda se fosse possível
compreender esses códigos
gravados na cripta
dos teus avessos.

Então
as palavras já nasceriam
feitas,
a lã
não teria seus pastores,
nem os pastores
seus montes,
nem as montanhas
suas grutas de rapina,
nem o chão da terra
os rastros da serpente.

Nem os maus seriam chamados
para mudar o caminho
da história;
nem os bons haveria
porque a bondade
e o martírio
jamais se banham nem se repetem
nas águas do mesmo rio.

A POESIA RENASCE

A poesia renasce - Jorge Tufic
Blog de poesiawm :Poemas de Wender Montenegro, A poesia renasce - Jorge Tufic
A meu ver, com este novo livro de poemas, Wender Montenegro já pode se candidatar para uma segunda lista de poetas emergentes, sempre a critério de Fábio Lucas, cuja sensibilidade não perde o sucesso, nem aplaude o equívoco. E veja o leitor que da primeira lista de Fábio não constam nomes badalados; antes, pelo contrário, ela retira os quase desconhecidos da sombra e do nada. Uma página de ouro: Wender dedica um de seus poemas a Francisco Carvalho, no qual extravasa o cântaro de sua percepção diante das metonímias, do caminhar sob pedras, do cais imaginário.
Pintar de ferrugem cada luz e riso; semear gerânios sobre cada grito. Este é um dos pilares em que se assenta o desejo do poeta, ao fazer da linguagem convencional um código fértil do voo que fica torto apenas para fazer a diferença entre o som da harpa e as teclas do piano. Agora o milagre, sempre a nos trazer do hipotético passado as imagens do afeto: o Chevalier de Ipanema, ligado ao Roniquito, amigo de Vinicius de Morais, era filho de meu querido irmão maior Ramayana de Chevalier. Daí porque esta página da coletânea, Ipanema, traz-me de volta a mansão da Dias da Rocha, em Copacabana, onde teria nascido o genial Roniquito, cuja língua viperina ele herdara do pai, que manteve, durante anos, a "Cadeira do Carrasco", uma coluna do jornal "O Dia", do Rio de Janeiro.
"Casca de nós", ou seja, a proteção externa dos suplícios internos, poesia, enfim, é o título que faz destas páginas um abrigo perene aos mais belos poemas de quantos tenho lido, talvez, além de outros recursos, pela audácia metafórica de estrofes como essa, a primeira do poema intitulado "a lua é uma vaca": a lua é uma vaca do rebanho de Deus / a sua cauda eriçada / mordida pelo ladrar dos cães / assanha as marés. São muitas, contudo, as pausas de encantamento e reflexão contidas neste livro, embora, em algumas, persista ainda o vezo de tematizar o próprio fenômeno poético, como se disto pudesse fluir uma nova Castália de estremecidas benesses.
Nem por isso podemos negar que todos os poemas deste volume número 2 da saga lírica de Wender Montenegro, impressionam pelo modo contencioso dos versos, a preocupação drummondiana com o "estado selvagem" de nosso cotidiano, sendo, inclusive, louvável esta sua adesão aos ínvios atalhos do pântano manuelino de barros, sem deixar de lado o pântano cósmico da Amazônia, sob a flauta do uirapuru.
Poesia é metáfora, revelação, descoberta. Ela não pode servir a nada e a nenhuma causa que lhe tire essa força. A nossa força.