quarta-feira, 11 de agosto de 2021

A Grande Criadora

 A Grande Criadora

Podes dar tratos a imaginação
e conceberes o que se afigura
a ti mesma, um absurdo, uma loucura,
coisa além dos sentidos, da razão.

Podes imaginar uma aventura
a mais estranha, sem ter céu nem chão,
e o que de mais ousado na Criatura
cheque às raias da tua concepção.

Podes tudo pensar, tudo criares
em histórias e cantos singulares,
o que o sonho não pode e a alma não deve,

e ainda assim, hás de ver que não és louco,
que tudo o que pensaste é nada e é pouco
ante o que a própria Vida vive e escreve!

                       J. G. de Araújo Jorge


sábado, 26 de junho de 2021

Rostos que nunca vi, jacintos murchos

 Rostos que nunca vi,  jacintos murchos,

cujas sonatas frias me tocaram,
estes rostos não quero: eles são breves
no desfile das pálpebras cerradas.
Penso naqueles outros, familiares
rostos de toda a vida. Cataventos
da rua ainda sem nome, alagadiço
porão da infância, arpejos e trigais,
dai-me a ver novamente ou mesmo em sonho,
estes semblantes nunca repetidos,
graves alguns, mas todos inseridos
na memória dos dias voluntários.
Cemitério, talvez, dessas lembranças,
quantas, em mim, são rosas e crianças.

sábado, 28 de novembro de 2020

DO INFANTE AZUL


 DO INFANTE AZUL



Necessito do rio e da paisagem
que me vira partir quando menino.
Da visão surpreendida ou desse quanto
pode haver em redor do meu destino.
Eram coisas e seres do meu tempo,
partes de mim que a vida, em seu balanço,
foi deixando passar, nuvem sujeita
aos ventos, matéria sujeita ao ranço.
Rubros sóis de verão, colheita breve
de azeitonas e ocasos, também contam.
Soldado entregue ao chumbo dos brinquedos,
ao som, talvez, das águas deste inverno,
quero sentir na pele evanescente
como eu seria agora, antigamente.

domingo, 13 de setembro de 2020

NATAL 2008

 NATAL 2008


Natal me inspira estrelas e reis magos,
Natal revolve os séculos de usura,
Natal me faz pensar nessa loucura
de esperar pelos bens que foram pagos.
Natal de paz ou da canção dos lagos,
Natal de mim que em trevas se procura,
Natal de Deus na fé, quando obscura
ou quando se ilumina em breves tragos.
Natal de amor à mesa que nos prende
aos laços afetivos e ao consolo
de ter alguém que a mesma luz acende.
Natal da iniciação: que a cruz suporte
o corpo deste Rei, sangue e tijolo
do soneto que vence a própria morte.

sábado, 29 de agosto de 2020

OS PAIS DE TUFIC

 

Álbum de família: Farid e Tufic Alaúzo, os pais do poeta Jorge Tufic, casaram em Manaus em 1923.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

MANÁOS, FOTOGRAFIA

MANÁOS, FOTOGRAFIA

Manáos é um mito ou foto na parede?
O bonde nestas ruas se demarca
ao brando sol, vitral doutra comarca
onde outro mito, a arquitetura, vê-de:
é estável com os telhados, arcos; lê-de
agora esse passado à luz que encharca
a paz dos transeuntes; bronze e barca
da belle époque, dos trilhos e da rede.
Nas colunas do theatro há gritos ocos,
cantos, além, de pássaros; e o friso
dos vegetais no poente dos barrocos.
A data flui nas águas ferrugentas,
calhas abaixo do que foi preciso.
O azul parece roto; as horas, lentas.

sábado, 27 de junho de 2020

Poeta não se define: é um ser à parte

Poeta não se define: é um ser à parte

Jorge Tufic (1930-2018)


Poeta não se define: é um ser à parte.
De homem se veste, de animal caminha,
mas algo nele de anjo se avizinha
quando em fatias brancas se reparte.
Cheira o pão de seus versos; faz-se arte
pela dor que humaniza e que espezinha;
não a dor do egoísmo, a dor mesquinha,
mas a dor que se empluma no estandarte.
Pode ser o domingo que se anula,
um galgo que tropeça, o lenço esgarço
que, sendo de Marília, ainda tremula.
Para si mesmo estranho ele se enigma,
avesso ao paletó, caderno esparso,
nada o liberta, nunca, desse estigma.