quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
SONETO A RICARDO REIS
SONETO
A RICARDO REIS
Não
por teu verso fluido e transparente,
Nem
pelos deuses a quem sombra calma
Deste,
lembrando a suave permanência
Do
que puro inda resta onde não somos.
Mas
ao prazer deixado ali freqüente
Em
ler-te, aberto o livro e aberta a alma,
Todo
um orbe revelas na existência
De
um sorriso que em mármore supomos.
Pelas
horas de humano entendimento
Em
que dos tempos idos a beleza
Converges
para um tempo começado;
E
de, sendo tão parcos, um momento
Crer-se
que o bem maior, glória ou riqueza,
Nada
fica além disto que há sonhado.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
O PROTESTO DE BOCAGE
Ao lado do satírico, do burlesco, do pornográfico, via-se o ‘’ateu’’, o insatisfeito, o gozador emérito a recolher os instantâneos grotescos das excrescências irremediáveis: um nariz adunco, e lá vai ...
II - DETURPAÇÕES DE BOCAGE
Sobrepaira, deste modo, uma espécie de dúvida, cercada também de mistério, quanto ao último e verdadeiro soneto de Bocage, já que, dentre tantos referentes ao nada de sua constante metafísica, dois se nos deparam tão idênticos na forma quanto opostos no conteúdo ideológico. O primeiro, muito mais difundido, para provar que ele não foi ateu, ou pelo menos converteu-se na hora da agonia, atribui-se com freqüência sua autoria a um frade que cultivara o bom gosto de imitar o estilo do poeta. Este soneto aparece publicado com uma observação de que fora ditado nas proximidades da morte ao Sr. Francisco de Paula Cardoso de Almeida, morgado de Assentiz, consoante depoimento de Guerreiro Murta, etc. O segundo, das Eróticas, não deixa a menor dúvida de ter sido escrito por Bocage. O primeiro deles é este:
Já Bocage não sou: à cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento ...
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.
Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa... Tivera algum merecimento
Se um raio da razão seguisse pura!
Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:
Outro Aretino fui... a santidade
Manchei! ...Oh! Se me creste, gente impia,
Rasga meus versos, crê na eternidade.
O segundo é este:
Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi-gratia - o teólogo, o peralta,
Algum duque ou marquês, ou conde, ou frade:
Não quero funeral comunidade
Que engrole sub venites em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:
Mas quando ferrugenta enxada edosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:
Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
Passou vida folgada e milagrosa;
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.
A dúvida consiste nos seguintes fatos:
a) A ‘’conversão’’ do ateu no crente ora ocorre nas ‘’proximidades da morte’’, ora na ‘’hora da agonia’’, deixando supor que durante sua longa enfermidade;
b) Havia um interesse quase doentio daqueles que o cercavam e eram por ele satirizados, em obter de Bocage uma prova, mesmo forjada, de que se havia convertido. A prova maior seria naturalmente um soneto escrito ou ditado nos últimos instantes do seu trespasse;
c) Muitos eram na época os imitadores do estilo de Bocage, no qual, inclusive, o atacavam, satirizavam e o expunham ao ridículo. Como neste epigrama, assinado por D. Caldas Barbosa:
II - DETURPAÇÕES DE BOCAGE
Sobrepaira, deste modo, uma espécie de dúvida, cercada também de mistério, quanto ao último e verdadeiro soneto de Bocage, já que, dentre tantos referentes ao nada de sua constante metafísica, dois se nos deparam tão idênticos na forma quanto opostos no conteúdo ideológico. O primeiro, muito mais difundido, para provar que ele não foi ateu, ou pelo menos converteu-se na hora da agonia, atribui-se com freqüência sua autoria a um frade que cultivara o bom gosto de imitar o estilo do poeta. Este soneto aparece publicado com uma observação de que fora ditado nas proximidades da morte ao Sr. Francisco de Paula Cardoso de Almeida, morgado de Assentiz, consoante depoimento de Guerreiro Murta, etc. O segundo, das Eróticas, não deixa a menor dúvida de ter sido escrito por Bocage. O primeiro deles é este:
Já Bocage não sou: à cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento ...
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.
Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa... Tivera algum merecimento
Se um raio da razão seguisse pura!
Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:
Outro Aretino fui... a santidade
Manchei! ...Oh! Se me creste, gente impia,
Rasga meus versos, crê na eternidade.
O segundo é este:
Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi-gratia - o teólogo, o peralta,
Algum duque ou marquês, ou conde, ou frade:
Não quero funeral comunidade
Que engrole sub venites em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:
Mas quando ferrugenta enxada edosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:
Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
Passou vida folgada e milagrosa;
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.
A dúvida consiste nos seguintes fatos:
a) A ‘’conversão’’ do ateu no crente ora ocorre nas ‘’proximidades da morte’’, ora na ‘’hora da agonia’’, deixando supor que durante sua longa enfermidade;
b) Havia um interesse quase doentio daqueles que o cercavam e eram por ele satirizados, em obter de Bocage uma prova, mesmo forjada, de que se havia convertido. A prova maior seria naturalmente um soneto escrito ou ditado nos últimos instantes do seu trespasse;
c) Muitos eram na época os imitadores do estilo de Bocage, no qual, inclusive, o atacavam, satirizavam e o expunham ao ridículo. Como neste epigrama, assinado por D. Caldas Barbosa:
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
O PROTESTO DE BOCAGE
Aparecem em 1969, e quem sabe posteriormente, as ‘’Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas’’ do poeta, numa duvidosa Coleção Clássicos do Erotismo, da Editora Escriba Ltda., em São Paulo, explicando aos furtivos adquirentes da mesma que ‘’esta edição foi feita com base na publicada em Paris, em 1911’’, inclusive as notas incluídas na parte final do volume. Esta referência, embora cautelosa, nos faz duvidar se a editora baseou-se na melhor edição de Bocage ou simplesmente deturpou-a, levando ao público um texto pessimamente revisado, e, em vez do prefácio elucidativo da primeira edição, trazendo apenas uma série de itens sobre a origem dos poemas
e sonetos divulgados. Enfim, uma edição apressada, mal revista, dando a impressão de algo produzido unicamente para atender à sede de lucro fácil a que estão destinados outros clássicos da mesma coleção; a exemplo de ‘’Gamiani’’, de Alfred de Musset e ‘’A vida íntima de Ninon de Lenclos’’, de Autor Anônimo.
Este fato, sempre repetido, ilustra ao vivo as deturpações, paródias, imitações e demais acidentes por que vem passando, através dos tempos, a parte considerada ‘’imoral’’ da obra de Elmano, cuja marca de origem, no entanto, persiste e se avigora à medida que o lemos e interpretamos. Sua atualidade, com efeito, reside exatamente em ser ele, até hoje, um símbolo puro de rebeldia e protesto contra todas as forças que governam e conduzem os homens por um caminho negativo de sua própria humanidade.
Como lírico, Bocage extravasou sua alma embriagada pela beleza, batida pelo sentimento de transitoriedade das coisas terrenas, posta à margem pela condição plebéia de quem suspira, romanticamente, ao pé de uma janela impossível. Foi, porém, concessivo às fraquezas humanas de sua época, eternizando-se com ela. Como erótico, satírico e burlesco, apelou para o que trazia de mais secreto em seu íntimo conhecimento do quotidiano setecentista, fazendo valer os recursos de sua musa galhofeira no sentido de revelar as mazelas e os vícios de seus contemporâneos.
Ao lado do lírico marchava o crente, o poeta altissonante, o maçon, a parcela desejável da comunidade portuguesa.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
O PROTESTO DE BOCAGE
O PROTESTO DE BOCAGE
Desde bem cedo, por entre versos eróticos, anedotas e fatos envolvendo os tempos históricos da monarquia portuguesa, que temos ouvido e repetido Bocage, ou simplesmente Bocaes para os biliosos garotos da rua Amazonas, margem do Iaco, naquela antiga Sena Madureira de altíssimas árvores de eucalipto. Chegamos, então, ao ponto de antever-lhe mentalmente a célebre figura que ele próprio descreve em seu conhecido auto-retrato poético, um soneto tantas vezes deturpado, como tantos outros de sua lavoura pornográfica, sempre e exatamente naquelas chaves onde o poeta se deixa seduzir pelo êxtase do apelo dos instrumentos genitais em plena atividade. Dizemos êxtase, porque sua época foi marcada a fundo pelo misticismo religioso, que logo desperta nas consciências libertárias um sentimento antípoda chamado na prática de anticlericalismo. Bocage sublimou-se na consagração de tal sentimento: foi lírico, dramático, romântico e pornográfico na exata medida que dava a seus dias os altos e baixos que Olavo Bilac nos revela, ao dedicar-lhe uma das curvas mais belas de sua ‘’Via Láctea’’.
Assim foi que, anos adiante, ao deitar nossos olhos no retrato do poeta, tivemos de imediato a impressão de que a entidade retratada já era, sem tirar nem por, um velho conhecido nosso. Esse retrato foi reproduzido, em cores, na revista Panorama de arte e turismo, editada em Lisboa, Portugal, lá pelos anos sessenta. A reprodução traz o seguinte texto-legenda: ‘’Retrato de meio-corpo, em miniatura admirável e muito minudente, do poeta Bocage, vestindo sobrecasaca verde-azeitona, pintado com fidelidade do vivo, em Lisboa, provavelmente ao redor de 1797, por Máximo Paulino dos Reis, em madeira de carvalho (altura 220 mm e largura 340 mm), de mogno, marginada exteriormente com pau-santo e interiormente com metal dourado e canelado. Este retrato, que os anos patinaram, é preciosíssimo em todos os seus aspectos e o documento mais valioso que se reporta à iconografia do poeta Bocage. Tendo sido oferecido por D. Luís ao Conde de Peniche, e muitos anos incorporado no arquivo da sua Casa, foi vendido em leilão no Rio de Janeiro em 1962, pertencendo atualmente ao Dr. Jorge Felner da Costa.’’
Ali estava, diante de mim, o herói de tantas aventuras perfeitas, mesmo daquelas em que a imaginação popular utiliza o recurso novelesco (ou fabulário) da esparrela, ou do feitiço voltado contra o feiticeiro. A título de charge, lembremos aqui o Bocage surpreendido pelos verdugos do rei, o Bocage jogador, o adivinho, o subversivo, oposto aos bons costumes, etc. Grande no gênio, de vida sempre irregular e acidentada, ele encarna ao mesmo tempo o artista mais completo depois de Camões. Boêmio incorrigível, nato, agitador de verdades ferinas, irreverente no acicate ao falso pudor clerical e anti-burguês por natureza, o entrave do anonimato imposto à sua poesia erótica, burlesca e satírica tem sido responsável pela pouca divulgação que dele se tem feito nos países de língua portuguesa. Sua única obra completa nesse gênero fora, salvo engano, editada em Paris na segunda metade do século dezenove, precedida de longa e minuciosa introdução. Mas, infelizmente, este livro deve ser raro entre nós. Quem o possui, se ainda o possui, guarda-o a sete chaves. Há vários anos tivemos um exemplar em nosso poder, copiamos o mínimo de suas páginas, esquecendo-nos, todavia, de extrair dele o importante depoimento de seus editores a respeito da vida e obra de Elmano, o o glorioso M. M. de Barbosa du Bocage, conforme se assinava.
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
COTIDIANO E SENTIMENTO POÉTICO 2
Translado, rotina, jogo e clarividência, toda poesia é
social. Incursor e praticante de seu cotidiano, o poeta, este cidadão libérrimo, se toca e se arrasa em traumas silentes, envolto na fugacidade de uma existência criadora, mas vítima, ao mesmo tempo, das grandes e pequenas tragédias que montam a perspectiva e o absurdo do mundo contemporâneo. A sensibilidade moral e a condição humana, norteiam seus passos. Lírico ou épico, seu discurso traduz a lasca viva do torvelinho, da mudança e da transformação. Sua linguagem opera em todos os níveis, pois a linguagem poética está a uma linha quase invisível daquilo que se denota. É a linha imaginária que une os contrários diante da reflexão de um minuto, apenas. Este leve tecido humaniza e dá um sentido às coisas. Este sentido é poesia.
Publica o Suplemento Literário de Minas Gerais, em seu nº 1103, que Mário Quintana evita os entrevistadores, "chatos perguntativos", na sua opinião, para driblar perguntas e assuntos poéticos. Ele prefere conversar amenidades, ou coisas do cotidiano. Quintana, tido como o mais puro dos poetas, tira de suas passadas habituais pela cidade de Porto Alegre, a cor, o som, a palavra e o neologismo bem à maneira de seus poemas instantâneos, até de suas vírgulas. Ao contrário de certos colegas de ofício, que de tanto se confinarem em suas bibliotecas mais parecem livros do que gente, esse poeta gaúcho, estando agora numa fase de releitura do quanto lera e vivera em toda sua vida, é, portanto, na vida e no mundo que ele busca alimento para escrever. Seu coloquialismo retoca o Inferno de Dante... (1988)
Filósofos, cientistas e tecnocratas, ao cabo e ao fim de suas lucubrações, deparam com a verdade na poesia. Todas as aparências e projeções de fenômenos naturais ou mecânicos, apesar de infletirem qualidades variadas, dependendo do ângulo, da visão e do sentimento que observa, nunca se repetem. A luz do sol, o reflexo das águas e tantas outras "descargas" e toques subliminares, povoam nossos dias. A noite apanha estes sonhos, e navega com eles. Como seja a posição de cada um, nós tomamos desses objetos a imagem real ou a imagem ideal. Esse gesto comum, aliado a uma "estória" ou mesmo aos temas de nossa intimidade doméstica, se exprime por várias outras imagens e metáforas que às vezes se combinam de modo inconsciente. Essa imagem
ideal, que já existia, por exemplo, no projeto e no sonho do artista antes da imagem real, é um dos componentes do nosso cotidiano. Associada ao convívio afetivo, ela vai enriquecendo e aprofundando as demais vivências que tivemos nas idas e vindas em que tantos outros fatores - como o vento e as chuvas - tiveram sua parte.
social. Incursor e praticante de seu cotidiano, o poeta, este cidadão libérrimo, se toca e se arrasa em traumas silentes, envolto na fugacidade de uma existência criadora, mas vítima, ao mesmo tempo, das grandes e pequenas tragédias que montam a perspectiva e o absurdo do mundo contemporâneo. A sensibilidade moral e a condição humana, norteiam seus passos. Lírico ou épico, seu discurso traduz a lasca viva do torvelinho, da mudança e da transformação. Sua linguagem opera em todos os níveis, pois a linguagem poética está a uma linha quase invisível daquilo que se denota. É a linha imaginária que une os contrários diante da reflexão de um minuto, apenas. Este leve tecido humaniza e dá um sentido às coisas. Este sentido é poesia.
Publica o Suplemento Literário de Minas Gerais, em seu nº 1103, que Mário Quintana evita os entrevistadores, "chatos perguntativos", na sua opinião, para driblar perguntas e assuntos poéticos. Ele prefere conversar amenidades, ou coisas do cotidiano. Quintana, tido como o mais puro dos poetas, tira de suas passadas habituais pela cidade de Porto Alegre, a cor, o som, a palavra e o neologismo bem à maneira de seus poemas instantâneos, até de suas vírgulas. Ao contrário de certos colegas de ofício, que de tanto se confinarem em suas bibliotecas mais parecem livros do que gente, esse poeta gaúcho, estando agora numa fase de releitura do quanto lera e vivera em toda sua vida, é, portanto, na vida e no mundo que ele busca alimento para escrever. Seu coloquialismo retoca o Inferno de Dante... (1988)
Filósofos, cientistas e tecnocratas, ao cabo e ao fim de suas lucubrações, deparam com a verdade na poesia. Todas as aparências e projeções de fenômenos naturais ou mecânicos, apesar de infletirem qualidades variadas, dependendo do ângulo, da visão e do sentimento que observa, nunca se repetem. A luz do sol, o reflexo das águas e tantas outras "descargas" e toques subliminares, povoam nossos dias. A noite apanha estes sonhos, e navega com eles. Como seja a posição de cada um, nós tomamos desses objetos a imagem real ou a imagem ideal. Esse gesto comum, aliado a uma "estória" ou mesmo aos temas de nossa intimidade doméstica, se exprime por várias outras imagens e metáforas que às vezes se combinam de modo inconsciente. Essa imagem
ideal, que já existia, por exemplo, no projeto e no sonho do artista antes da imagem real, é um dos componentes do nosso cotidiano. Associada ao convívio afetivo, ela vai enriquecendo e aprofundando as demais vivências que tivemos nas idas e vindas em que tantos outros fatores - como o vento e as chuvas - tiveram sua parte.
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