quarta-feira, 30 de maio de 2012
AGENDA 1965
10/junho
Encaminho por escrito o meu pedido de demissão da empresa jornalística Archer Pinto & Cia. Ltda. Indico o Arthur Engrácio que fica em minha vaga. Me lanço, pois, ao centro da mãe de todas as batalhas, no dizer dos valentes Filhos de Maomé.
11/junho
A página literária do Clube da Madrugada não sairá no próximo domingo. Volta a faltar papel. - Meu pai na sala de visitas, esperando dinheiro para as despesas. Dou-lhe o que tenho, barbeio-me e vou à Uzina Rian solucionar o caso de uma operária. No retorno ingresso nas dependências do ¨São Marcos¨; ali estavam o Alberto Antonio e Fernando Collier. Chove. Tomo um conhaque e os convido para casa, onde esvaziamos juntos um garrafão de ¨Quinta do Pinhal¨. O almoço foi jaraqui no escabeche, preparado pela Izabel e D. Constância, tudo em comemoração ao restabelecimento da Eliana, enfim salva e saudável graças a Deus e a intervenção do Dr. Antenor Barbosa. À noite, cinema.
Mirante: o crepúsculo inunda este braço de rio chamado de Igarapé da Bica. Eu me debruço no parapeito da varandinha a olhar as catraias que levam e trazem passageiros do bairro dos Educandos para a escadaria da rua dos Andradas, e vice-versa. O cenário clama por um verso que seja, capaz de abrigar tanta serenidade. Mas esta eu retenho e conservo dentro de mim.
14/junho
Amanheci com uma espécie de aviso de que o Presidente Castelo Branco devolvera os processos de readaptação ao DASP, sem qualquer justificativa. Uma carta do Planalto assinada pelo Murilo recomenda que a turma se mantenha otimista, não deixe fanar-se a esperança no próximo mês de julho, e acrescenta que isso faz parte da política econômica do novo Governo.- A espartana Faride, minha mãe, cuja fúria tem desafiado as injeções que D. Haydé lhe vem aplicando no sentido de acalmá-la, tira-me a paz de espírito. Temo, portanto, que mesmo depois que tudo for resolvido, a situação dela fique no que está. As idéias traumáticas podem ter sua causa na morte súbita do pai, vitimado no Líbano pela gripe espanhola. Daí seu zelo pelos filhos e a mania de perseguição.
domingo, 27 de maio de 2012
DUETO PARA SOPRO E CORDA
SONETO
AO ZERO
Um
pedaço de cruz, uma tigela,
algo
que sobra do luar perdido,
a tinta
que não deu para uma tela,
o
que fica de um gesto pretendido;
a
nota curta de um gorjeio tido
por
dono da floresta ausente e bela;
uma
lembrança neutra de algum ido
que
assomou de repente na janela;
meus
sapatos cozidos pelas rotas
que
imagino fazer mas nunca faço,
alguma
coisa que sequer havia,
valem
pelo que são: aves ou botas,
em
qualquer travessia dão seu laço
este
laço do evento com a poesia.
sábado, 26 de maio de 2012
QUANDO AS NOITES VOAVAM
XIV
os caminhos que Boléka traçou
ficaram para sempre.
“Ainda hoje, poderosos pajés sombreados
andam por eles, cortando o espaço,
na estação chuvosa.
Quando aparecem, começa a relampejar.
é sinal de que estão passando”.
Pajés transluzem em todo o universo.
os grandes kumuá
fazem seus ritos com breu e com cigarro,
ao pressentirem sua vinda.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
AGENDA 1965
07/junho
Eliana começa a melhorar. A febre passou como por milagre. Na próxima quinta-feira eu publico uma nota de gratidão ao médico Antenor Barbosa, do SAMDU, única maneira de agradecer-lhe pelos serviços prestados.- Quanto ao resto, babau! Compromissos, dívidas, trabalho fora do trabalho, sem falar aqui e agora em meus pais, que dependem exclusivamente de mim e se mantêm num estado de semi-penúria. Que farsa a vida!
09/junho
À uma hora da tarde, no ¨São Marcos¨. Sentados comigo o Aluísio e o Ernesto. Trago-lhes notícias e jornais de Belém do Pará, remetidos pelo Guimarães de Paula, o nosso Guima. ¨A Província do Parᨠestampa, em reprodução, meu soneto ¨Ao recém-nascido do bairro do céu¨. Ernesto se emociona com dois versos do mesmo e condena algumas metáforas de mau gosto. Aceito a crítica do amigo, prometo substituí-las por outras.
sábado, 19 de maio de 2012
SONETO PARA “Rostro Hermoso”
SONETO
PARA “Rostro Hermoso”
(o
bar do poeta Luciano Maia)
È
tanto o pó de lua que embriaga
respirar
esta brisa; algo tonteia
e
sonha à só visão onde naufraga
o
dia, árvores calmas, sol de areia.
Lenda
feita de nuvens, noite cheia,
vento
claro, sutil, gume de adaga
nos
decepa do chão, simples candeia
da
claridade azul que nos propaga.
Lua
por trás das árvores cativas
sobre
telhados ocres, patativas
ausentes
da canção, de tudo ausente.
Move
a brisa suas hélices e aromas,
“Rostro
Hermoso” são múltiplos idiomas,
sendo
amor o que fala pela gente.
terça-feira, 15 de maio de 2012
DUETO PARA SOPRO E CORDA,
SONETO PARA CAMÕES
Camões, Camões, são tépidos os vales
triste a luz que se esvai e nos maltrata.
Viste, porém, no amor a forma exata
da recompensa para tantos males.
Entre lírico e épico, o ouro e a prata
fundes numa só liga; e embora fales
que a dor anima tanto quanto mata,
soubeste ter na luta o quanto vales.
Dinamene nas ondas. Sei que é baldo
o esforço que decide: a vida ou arte.
A escolha coube a Deus, o resto é saldo.
Na tentativa extrema de salvar-te,
brotara e frondejara nesse caldo
o idioma azul do mar que se reparte.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
QUANDO AS NOITES VOAVAM
XIII
recolhida na Casa Guardiã,
ou casa principal/transformadora,
a onça Invisível do Universo
estava ali, amarrada,
sem nunca poder soltar-se.
A menos que alguém, desavisado,
cheirasse o paricá.
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