terça-feira, 29 de outubro de 2019

ODE À AMÉRICA DO SUL

ODE À AMÉRICA DO SUL



ODE À AMÉRICA DO SUL

JORGE TUFIC


Que o boné de Pablo Neruda 
e a lágrima fluvial de Santos Chocano, 
e o grito de Allende 
(enquanto os fuzis do terror e do medo 
repetiam o massacre da liberdade), 
venham flocar este chão consagrado 
por tantos modos e cantos diferentes, 
oh América do Sul. 
Os cravos de tuas noites mergulham 
na plumagem das Cordilheiras, 
e os ramos da paz que te ilumina 
e o relincho das pedras que desenham 
bisontes e tempestades, 
pousam como fósseis alados 
em tuas crinas de esmeralda. 
De Santa Marta à Terra do Fogo 
tuas espigas rebentam colares de jade 
e cintilam nas máscaras de ouro 
roubadas aos templos do sol 
e às pirâmides da lua. 
E ao sopro nativo da flauta 
exilada entre colméias, 
um tesouro de vasos, borboletas 
e animais de uma fauna imaginária, 
sacode o pó da argila e do granito 
em suaves movimentos. 
Atlantes e Laoccontes 
vigiam tuas muralhas indormidas, 
mas deixam livres as fronteiras do sonho. 



II 

Com a espada de Bolívar 
e a prosa rubra e latejante de Sarmiento; 
com as vestes de Antonio Conselheiro 
e a nervura semântica de Euclides da Cunha; 
com a suavidade de um verso de Lugones 
e os contos gauchescos de Simões Lopes Neto; 
com os arcos e flechas dos incas e aimarás 
e a clepsidra das ruínas de Zaculén; 
com as cinzas do uirapuru do Amazonas 
e os depurados muirakitãs do Espelho da Lua, 
eu te louvo, América do Sul, 
agora que revejo tua cerâmica do Marajó, 
tuas matas e teus rios, 
tuas cidades e tuas pontes, 
teus barcos possantes, tuas fábricas 
e tuas manchetes; e ouço a voz 
dos teus regatos, as canções de teus povos 
e vejo, deslumbrado, 
que uma ciranda feita de arrulhos e girassóis 
te enlaça, constantemente, 
do Atlântico semeado de praias 
ao Pacífico de pássaros 
e fontes azuladas. 


III 


Quantos martírios e sucessos 
pontilham tuas manchas ocres 
em cada solo ferido ou conquistado! 
Lembras-te, por acaso, dos gestos em forma de dança 
de teus ancestrais caribenhos? 
Do milho cor de cereja dos Aruakes? 
Dos artefatos barrancoides dos Walpés? 
Dos dialetos tecidos com a envira do silêncio 
e a toada dos riachos verdejando os caminhos? 
Da antigüidade seletiva dos tucanos, 
muras e cambebas? 
Lembras-te, por acaso, 
da bola de sernambi que estes últimos 
te deram, ainda em pleno século XVII, 
e do jogo que eles jogavam 
num campo sem traves e sem torcidas? 


Numa rede de dormir 
os brancos degustam teu massacre 
mas olvidam o teu legado, 
esse imenso legado que sucedera ao jugo, 
impiedoso e cruel, 
daqueles teus primeiros habitantes, 
plantadores de sombras, 
raízes da terra. 
Guitarras, malária, devastação e confisco, 
eles trouxeram de tudo. 
Mas tomam caxiri no delicado suporte 
de uma cuia rústica ou pitinga; 
alimentam-se de farinha de mandioca 
e têm muito de si no caboclo que se espreguiça 
para não ir ao trabalho; 
e têm muito de si na mestiça que se vende 
por las calles y los pueblos; 
e têm muito de si, também, 
nessa fusão de sons e melodias 
que fizeram do nheengatu das águas pretas 
a língua franca dos mitos 
e do lendário esquecido. 


IV 

Imitas um coração populoso e tranqüilo. 
Tens a forma de harpa ou alaúde 
com doze cordas festivas. 
E ainda podes ser vista como um rosto enigmático 
voltado para si mesmo. 
Desigualdades e semelhanças predominam 
assim, de um lado e de outro, 
entre vales, planícies e altiplanos. 
Em qualquer Atlas se lê, por exemplo, 
que há fome na Bolívia, 
que há tango, festas e greves na Argentina, 
que o Chile exporta minérios e vinhos, 
que o Brasil é o maior destes países, 
que o Equador tem reservas de prata e ouro, 
que o Peru não se expande, 
que o Paraguai continua bloqueado 
sem saídas para o mar. 
Em teu próprio nome, oh América do Sul, 
e em nome da história que te deram, 
hás de entender, no entanto, 
que ninguém pode ser feliz 
quando está cercado pela miséria, 
seja a miséria do egoísmo, 
seja a miséria das guerras; 
que ninguém pode ter paz 
quando há golpes e matanças 
do outro lado de suas fronteiras. 
Hás de saber entrementes que, 
por cima da fala dos caudilhos, 
paira a linguagem fluida ou tormentosa 
daqueles que te celebram; 
inclusive daqueles que apodrecem em tuas mansardas 
ou se debruçam nas torres de vidro; 
ou daqueles, ainda, que se confundem 
com os traços das telas que azedam em teus sótãos 
e em tuas águas-furtadas. 
Estes homens de letras ou picassos anônimos 
entregues à corrosão que desfigura 
e ao abandono que mata. 




Quantos equívocos te cercam 
antes e após a descoberta, por ti, 
do torno do oleiro, da roda e do arado? 
Que simpáticas figuras transoceânicas 
poderiam ter-te doado, 
oh América do Sul, 
carrinhos votivos de cerâmica, 
travesseiros de barro 
e selos em forma de bujarronas? 
E as tuas escritas? 
Terão sido trazidas por quem 
- fenícios, gregos, romanos – 
se colocam na origem de teus índios? 
Fascina acreditar, em vez disso, 
que provenhas, isto sim, 
de alguma centelha que se fez Avalon, 
Atlântida ou Atlas, 
segundo escrevem as aves migratórias 
quando te buscam nos pélagos, 
e adivinham teus ecos profundos 
nas cavidades do espanto. 




VI 

A cidade perdida dos incas 
são tantas cidades quanto as portadas 
que levam à presença do sol; 
e dali ao rio de espelhos e cardumes intactos, 
e dali às cavernas talhadas a ouro, 
e dali aos túmulos daqueles que sucumbiram 
ao peso dos colossos que protegem a montanha 
das patas ecoantes de Espanha. 

Em cada milímetro quadrado 
das alturas que saltaram de mares incalculáveis, 
Amarus confundem a inteligência 
dos homens de Pizarro. 
Labirintos ficaram, boiunas coleiam 
na ouriversaria das auroras. 
E ninguém poderá decifrá-las. 

Para Iucay se evadira Manco. 
E uma das primeiras guerrilhas da história 
consegue fazer das trilhas enganosas 
o desgastante baralho das Cordilheiras. 
A imagem de raios solares 
com mais de cem toneladas, 
em que leito de Vilcabamba 
terá se consumido em miríades de estrelas? 

Em Cajamarca, enfim, morrera Atahualpa. 
Em Viticos, chega a vez de Manco Inca. 
Sayri Tupã e Tito Cusi também foram imolados. 
Tupac Amaru expira em Cuzco 
levando no olhar a música do império. 



VII 

Grande é o solar do tempo nesta aldeia 
onde um galope nunca se interrompe. 
Este chão de Pizarro em Guamachucho 
de lavas contraídas pelo medo. 
Escarpas traçam rápidas figuras, 
pousam brilhos de séculos vencidos. 
E um velho terremoto, agora fóssil, 
arroja um tigre do alto de um penedo. 
A noite é um vinho branco. Mas o sangue 
que transborda do lago, não descansa: 
quer vingar a cobiça, o fogo e a traição, 
estes três assassinos de Atahualpa, 
daquele em cujo peito o sol dos incas 
despedaça o seu último clarão. 


VIII 

Nos porões soterrados debaixo 
das cidades, deuses animais de terracota 
aparecem ao lado da serpente, 
e ao lado da serpente 
paradigmas antropomórficos. 
Foi assim que teus nativos, 
pescadores de Valdívia, 
dominaram os ornatos circulares: 
perfis abstratos, 
bizarras entidades híbridas 
sobressaem nos relevos celestes; 
e ao lado destes, ardósias cônicas, 
traçados olmecas. 

Um portal contendo símbolos xamãs 
e sarcófagos dourados, 
torna visível o silêncio dos mortos 
na estática de teus músculos altivos 
prateados de neve. 

A Quinta Era, afirmam ali, 
pertence a Tonatiú, o deus Sol, 
habitante dos leques das palmeiras; 
e há de ser confirmada por graves, 
extensos abalos. 
Pumas alertam para as ameaças que sobem 
das Ilhas Arqueanas. 



IX (a lição dos rios) 



Tentando lavar este sangue 
inutilmente derramado, 
de cinco mil metros de altura despenca o Vilcanota; 
ele vai mudando de nomes 
até unir-se às águas revoltas 
do lendário Urubamba. 
Este, por sua vez, se socorre do Apurimac, 
quando formam, juntos, 
o Rio Amazonas. 

Muito tarde, porém. 
Um grande exemplo despercebido. 

Esses rumores até hoje incessantes, 
este chamado das vertentes comuns, 
somente os poetas o sabem distinguir 
na diversidade que amalgama 
e na dor que ensina. 


X (balada enquanto seja) 

Ao contrário de outras águas, 
nosso rio é movimento, 
serpe andina em debandada 
vai ele em busca do mar; 
desde que nasce de um fio 
por ondas rola barrento, 
vem à tona e vira vento, 
é estirão que sai do nada. 

Rio de lendas ficou, 
matreiro, curvo e norato, 
seu berço de concha e lua, 
com três nomes de batismo, 
três caminhos sete bocas 
por onde bebe a tormenta; 
mas tem mágicas, puçangas, 
e a cada estória, se aumenta. 

Pântano cósmico, diz-se 
por quem o lê pelo avesso, 
por quem ouve a queixa inata, 
por quem adentra seus peixes, 
por quem taboca faz beiço 
e sopra o fogo da enchente, 
pois este rio é começo 
da febre que torra a gente. 

Ao contrário de outras águas, 
o Amazonas, como um todo, 
pode tornar a seu fio 
como náufrago do lodo. 




XI (Thiago de Mello) 

Por caminhos de San Tiago, 
volta o poeta das angras 
a quem doara o seu canto 
pela causa dos humildes. 

Levara o corpo sadio, 
como quem leva a esperança 
marcada a fogo no brigue 
que, novo, se lança ao mar. 

Os Estatutos do Homem 
riscando o teto da noite 
com seus mastros decididos, 
quantos vilões não cegaram! 

Mas, igual à copa náutica 
das sapopemas gigantes, 
que pelas vias de Tiago 
desprendem flocos de sonho, 

retorna, depois da luta 
para o feno das raízes: 
a copa – rica de estrelas, 
o tronco – de cicatrizes. 





XII (a Pedra do Reino) 


Como então esquecer, 
neste painel de teus milagres, 
oh América do Sul, 
a oficina armorial desse múltiplo Ariano Suassuna, 
a poesia e a prosa que se deixam fundir 
em seu romance d´A Pedra do Reino? 
Assim também, igualmente, 
como esquecer os poemas de Carlos Newton Júnior, 
a cerâmica de Côca, 
as lâminas e os palimpsestos de Virgílio Maia 
ou a tenda agreste, mística e versátil de Audifax Rios? 
E como esquecer as andanças dos ¨padeiros¨cearenses 
em busca das cacimbas, 
do aboio crepuscular, 
do alpendre de seus avós e da espada 
de algum rei com sua túnica de abelhas? 
Pois é das artes desse Ariano vulcânico 
e de seus valerosos cavaleiros, 
as surpreendentes iluminogravuras, 
diante das quais apenas o arco-íris, o novilúnio 
e as doze talhas apócrifas da Via Dolorosa, 
não são réplicas inúteis. 




XIII (entrefala e louvação) 


Deixemos, portanto, as amoras, 
o etéreo veludo celeste, o filme vazio, 
a novela das oito 
e as ruas por onde não passaram 
bandeiras despedaçadas por um grito maior 
que a esperança dos mortos. 

Deixemos de lado as violetas 
que ardem nos versos prematuros 
daqueles que nunca percebem o gemido 
das salamandras 
nem a fuga dos girassóis alucinados. 

Deixemos de lado o jarro de Matisse, 
a gôndola que imita o cisne de Isolda, 
as olheiras roxas das janelas caiadas 
pelo terror dos massacres. 

Louvemos Neruda que, em sorvos miúdos, 
provara do vinho amassado com a terra, 
o suor e as lágrimas de quantos, 
no Chile, na Espanha e na Turquia, 
conseguiram, em seus momentos finais, 
erguer a face do entulho e da lama, 
cuspir na bota dos tiranos. 

Louvemos Neruda pelos gestos perenes 
de salvar um carneiro da morte, 
uma rosa da escuridão e muitos, 
centenas de amigos, 
do cárcere infecto e da bofetada humilhante. 

Saudemos Neruda 
com uma taça de beija-flores. 


XIV (sursum corda habemus) 


O giro vesperal das andorinhas 
sobrevoa os transcursos das cordilheiras; 
paira, depois, sobre os telhados gastos 
pelo mofo dos armários vazios 
e o esquecimento das chuvas. 
Elas tomam as sereias de tuas falanges, 
dedilham a ira dos terremotos. 
Mais do que nunca teu coração vacila, 
mas sente-se pleno em curtir a polêmica união 
entre o Ocidente dos filósofos 
e a pátria dos cardos ensolarados. 
Terá sido esta a pausa dos monumentos, 
o tremor que se estabiliza nos ossos, 
a reflexão que se deixou cair das pálpebras de água 
no enterro dos navios. 

Uma sombra te acompanha desde que nasceste, 
orográfico e triste, 
de pais que vestiam a paisagem dos trens de ferro 
com os andrajos da mulher de Bolívar, 
a insepulta de Paita. 
Teus versos são lições de uma geografia da alma, 
rochedos floridos de ternura. 
Soltos na madrugada, 
eles rastreiam fragrâncias, matizes, 
números e signos gravados na espuma 
e no cansaço das festas. 
São metáforas da hora incalculável, 
a incrível marca do passageiro. 

Depois das estradas, Neruda, 
o amor te concedera uma pausa, 
um silêncio neutro que irrompe dos tanques 
cobertos pelo trigo; 
uma pausa que pergunta a cada coisa 
se tem algo mais. E a cada palavra 
endereça uma rosa. Neruda épico, lírico, 
e que tampouco deixa de seguir os passos noturnos 
de Lautrèamont, de Pascal e dos Três Mosqueteiros. 


Teus cantos são cantarias de luar, 
pólens de ouro e neblina. 
Oh América do Sul 


(Publicado no jornal O PÃO de Fortaleza-CE, Ano V-No. 36-em 13-12-1996). Atualizado em 2008).

segunda-feira, 24 de junho de 2019

CARTAGO FUI EU

CARTAGO FUI EU






Canta um pássaro morto sobre o dia
que a muitos outros já se misturou:
algo abaixo dos ramos silencia,
treme a terra na pedra que restou.
Vem de que mares essa nostalgia
que meus ossos fenícios engessou?
De Cartago, talvez, da noite fria
transformada no pássaro que sou.
Esse canto noturno me extenua.
Vem de Cartago, sim; da negra lua
por dono o sol que abrasa, mas festeja.
Esplende a noite em látegos de urtiga.
Brinda-se à morte ao cálice da intriga.
Meu corpo, feito escombros, relampeja.



( Coral das Abelhas)

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Clube da Madrugada

Clube da Madrugada

Pe. Nonato Pinheiro
(Da Academia Amazonense de Letras)
Há mais de um decênio que o Clube da Madrugada vem se firmando como expressão de tenacidade e pujança no campo das artes e das letras, movimento de vitalidade e renovação, dirigido por uma plêiade de talentosos moços, que encaram o problema da cultura com dignificante espírito de seriedade.
Quando surgiu o movimento inspirado em manifestações similares noutras áreas literárias e artísticas do país, no espírito que animou a “Semana de Arte Moderna”, promovida em 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, com palestras, conferências, declamações e exibição de artes plásticas, já era eu acadêmico, e senti, no dealbar ou na floração daqueles primeiros impulsos renovadores, certa descrença da parte de alguns vultos de nossas letras planiciárias. Desde o início, entretanto, observei nos rapazes acentuada posição para levarem a coisa a sério. Liam, estudavam, trocavam ideias e comentavam os últimos lançamentos do país, no mundo livresco. Acompanhavam o momento artístico e literário, aqui e alhures, com vivo interesse. Não dispunham de uma sala, sequer, para seus encontros. Que importava? Qualquer porão ou nesga de jardim bastavam aos seus intercâmbios culturais. A praça de Heliodoro Balbi foi palco das primeiras tertúlias e continua a ser teatro dos encontros dos clubistas, aos lampejos do sol, se é dia; sob o pálio das estrelas quando é noite.
Crescia o movimento. Novos sócios vinham unir-se aos primeiros. Alguns transferiram-se para a metrópole tentacular, sonhando com melhores vantagens e posições. Outros permaneceram, mantendo crepitante a chama do ideal. Outros ainda retornaram, renovando-se no espírito primitivo que animou o Clube. Vieram os primeiros lançamentos. E ao editar-se a primeira seleta, a “pequena antologia madrugada”, já o movimento estava consolidado. Cada nova manifestação dos clubistas era uma explosão e afirmação de pujança, de rigor, de vitalidade. Da fase sonhadora, mesclada talvez de certa indisciplina, compreensível nas instituições nascentes, passou-se às fases das definições, no encalço de uma disciplina e de um roteiro. As equipes movimentaram-se conscientemente, e a cidade tomou conhecimento de que os rapazes se decidiram a tomar posição, a despertar vocações nascentes, a incrementar o movimento artístico e literário, servindo com devotamento à cultura. O Clube da Madrugada era uma realidade seivosa.
Tenho consciência nítida da que sempre estimulei esses moços, que surgiam diante de minhas pupilas tocados pela centelha eletrizante de um ideal superior. É só consultarem minhas colaborações na imprensa amazonense, que já se avoluma de vinte anos, e terão a prova convincente. Cheguei a sugerir ao escritor Péricles Moraes, presidente da Academia Amazonense de Letras, ao tempo da fundação do Clube da Madrugada, de quem fui colaborador imediato e cotidiano nos movimentos culturais que entendiam com a Casa de Adriano Jorge, que observasse os rapazes, que lhes acompanhasse os passos na seara das letras. Avancei a ideia do aproveitamento de alguns para a Academia, no intuito de uma revitalização do sodalício. Os clubistas têm consciência dessa posição. Outros confrades, como Aristóphano Antony, também assim pensavam.
Como quer que seja, entendo que a linha do Clube da Madrugada não deve de incremento literário e artístico, tendo em mira o progresso cultural do Amazonas. Não devem ser forças antagônicas, mas forças vivas, formando uma mesma dinâmica pelo soerguimento pensamental, pelo esplendor das letras e das artes, pelo culto do idioma e da literatura nacional.
O Clube da Madrugada possui nomes expressivos em seus quadros: Aluísio Sampaio, Alencar e Silva, Edson Farias, João Bosco Evangelista, Álvaro Páscoa, Carlos Gomes, Farias de Carvalho, Jorge Tufic, Arthur Engrácio, Pedro Amorim, Ivens Lima, Jefferson Peres, Afrânio Castro, Evandro Carreira, Miguel Barrela, João Bosco Araújo, Saul Benchimol, Antonio Augusto Gurgel do Amaral, J. Maciel, Hahnemann Bacelar, Luiz Bezerra, Pe. L. Ruas, Sebastião Norões, Getúlio Alho, Ernesto Pinho, Ernesto Penafort, Antísthenes Pinto, Óscar Ramos Filho, Pedro Santos, Cosme Alves Neto, Guimarães de Paula, Nauro Machado, Nazareno Tourinho, Assis Brasil, Astrid Cabral, Nivaldo Santiago, Teodoro Botinelly de Assunção, Leopoldo Peres Sobrinho, Djalma Passos, Moacir Couto de Andrade. Servi-me de uma relação que me foi oferecida pelo clubista Jorge Tufic, cuja ordem nominal mantive.
Já é volumosa a coleção dos livros lançados pelos clubistas. Farias de Carvalho brindou-nos com “Pássaro de Cinza”, bem festejado pela crítica. É sem favor um dos mais belos talentos poéticos da nova geração, refulgindo ainda como excelente declamador. Jorge Tufic, outro poeta de raça e intelectual de elevadas preferências mentais, deu à estampa “Varanda de Pássaros”, na qual, em verdade, só gorjeia uma ave: o pássaro de sua maviosa inspiração. Alencar e Silva, que já nos havia dado “Painéis”, voltou com melhor garbo e amadurecimento em “Lunamarga”, sua última conquista, saudada com desbordante entusiasmo. Padre Luiz Ruas, um dos brasões mais refulgentes do Clube, é autor de “Aparição do Clown”, que revelou um poeta de impressivos e expressivos surtos e uma inteligência de radiosa claridade. “Poesia Frequentemente” é de Sebastião Norões, discípulo fervoroso de Dario e Guillén, livro que patenteia um intelectual e poeta de muita sensibilidade e intuição. Antísthenes Pinto, que estreara como inspirado poeta em “Sombra e Asfalto”, em que há claridades de plenilúnios e olhares serenos de pupilas de sonhador, surge agora como novelista, sobraçando o seu “Chavascal”, núperlançado. Na crítica literária acompanho com interesse e aplauso a desenvoltura de Aluísio Sampaio e Arthur Engrácio, cujas recensões refletem a agudeza e o faro de conspícuos analistas. Engrácio ainda brilha no conto e na novelística, e suas “Histórias de Submundo” dão-nos o fôlego e as dimensões do contista.
Na pintura, na escultura, na xilogravura, no campo fascinante das artes plásticas, o Clube da Madrugada apresenta uma plêiade de admiráveis artistas, alguns de renome nacional; Moacir Andrade, Hahnneman Bacelar, Getúlio Alho, Afrânio de Castro, Álvaro Páscoa e outros que honrariam os melhores e mais exigentes salões de arte.
Na eloquência e oratória há um nome que se impõe vitorioso: Evandro Carreira, já consagrado num concurso nacional de oratória. No campo das ciências sociais e econômicas Jefferson Peres e Saul Benchimol são figuras de alto relevo, que dignificam qualquer instituição de cultura. No mundo empolgante do canto e da música esplendem Nivaldo Santiago, Pedro Amorim e outros.
O Clube da Madrugada possui uma flor escarlate em seu jardim, que lhe dá realce e encanto: Astrid Cabral, a mais talentosa de quantas alunas tive no Instituto de Educação. É a única mulher, a florir com o seu formoso talento no sodalício presidido pelo meu amigo Aluísio Sampaio. Embora ausente, sei que Astrid não perde o contato com o seu Clube, e sempre envia suas produções.
Muitos são os que me perguntaram e perguntam acerca de minha posição em face do movimento do Clube da Madrugada. É de plena fraternidade e simpatia. Embora minha formação intelectual tenha sido eminentemente clássica e acadêmica, a verdade verdadeira é que nunca me prendi a escolas, pelos menos de um modo exclusivo. Sou como a abelha industriosa, que vai de flor em flor, à cata do néctar para o fabrico do mel delicioso. Sempre me atraiu o princípio da variedade: “varietas delectat”. Tenho poetas de minha mais alta estima e preferência em todas as escolas e correntes literárias. Afinal, o que monta não é a escola, mas o talento do intelectual e do poeta. Só há uma realidade: é a POESIA. Como quer que seja, dou em letra o meu abraço aos sócios do Clube da Madrugada, exortando-os à continuação da peleja em prol do progresso cultural de nossa terra. Ergamos bem alto o nome do Amazonas na comunhão nacional pela afirmação da nossa inteligência, no cultivo fascinante das boas letras e das belas artes!
(Publicado no Jornal do Comércio de 03 de abril de 1966. Mantido ipsis litteris o texto original, com adaptação à nova ortografia).
MINIBIOGRAFIA. Raimundo Nonato Pinheiro nasceu em Manaus, em 1922, e morreu em 1994. Era conhecido como Pe. Nonato Pinheiro, como geralmente assinava seus artigos jornalísticos. Foi sacerdote, jornalista, filólogo, latinólogo, professor, poeta, escritor, membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Grande orador e articulista brilhante de cultura polimorfa. Publicou as seguintes obras: “Dom José Pereira Alves, fulgores do Episcopado” (Editora Vozes, 1954); “Dom João da Matta” (biografia, 1956; e uma 2ª edição, Editora Valer, Manaus: 2008). Publicou na imprensa local artigos, crônicas, poesias e ensaios. 

domingo, 7 de outubro de 2018

Testemunho sobre Aparição do clown

Testemunho sobre Aparição do clown
(Jorge Tufic)
Capa da 1a. edição de Aparição do Clown (1959).
Concepção absolutamente inovadora do artista plástico Óscar Ramos.
'
Esse ponto longínquo de nossa vida, o janeiro de 1959, se constitui num dos mais altos da literatura amazonense, em particular do movimento Madrugada. L. Ruas, tal como assinava os seus livros, artigos e crônicas, surpreende a todos com este seu longo poema, ao mesmo tempo estranho e revolucionário, mas no fundo mesmo uma projeção corajosa da personalidade do autor.
clown de Ruas é o ator ou o dançarino do universo que ele consegue libertar das amarras sociais e dos preconceitos irremovíveis, um corpo astral de silêncios e coisas que se transformam, ao menor toque de um bastão luminoso. Basta dizer que até hoje ninguém soube interpretá-lo, seja como texto, seja como fosse a partitura volátil de uma confissão transbordante, plena de movimentos em busca de uma unidade de sons e palavras, afinal conquistada.

Terá sido difícil a esse religioso evitar uma prática antiga daqueles que, embora poetas, se devotam a Deus ou a Krishna, e acabam por esquecer que à poesia não cabe o papel de servir, mas de ser servida.

Pois eu considero o Aparição do clown uma batalha entre a cruz, como dever a Deus, e a liberdade, como dever à Deus e à poesia. Uma forma terrena e divina de conciliação dos extremos, mas onde, graças à Poesia, os extremos também desaparecem, enquanto libertam.

Meu testemunho sobre L. Ruas abrange esse largo período de nossa existência, que vai da fundação do Clube da Madrugada, em novembro de 1954; atravessa os anos selvagens da ditadura militar; sangra nos tempos em que o poeta esteve longe de nosso convívio; termina com o seu falecimento e a minha transferência domiciliar de Manaus para Fortaleza.

Foram memoráveis os nossos encontros de final de semana!

Memoráveis os seus discursos ao pé do mulateiro, na Praça da Polícia Militar!

Memoráveis as missas que celebrava!

E os porres, também, com muita dignidade!


1975, lançamento de Faturação do ócio, de Jorge Tufic. L. Ruas discursa ao pé do mulateiro, árvore-símbolo do Clube da Madrugada. Atrás dele, de paletó, Luiz Cabral e Tufic. Ao seu lado, de perfil, Aluísio Sampaio.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

SONETO VIII

SONETO VIII



VIII

Cantadores chegavam nos gaiolas
resplandecendo trovas consteladas,
e entre os sabores negros da partida
ardiam no alecrim das madrugadas.
Luas multiplicavam seus cavalos,
dragões comiam flor; e no tormento
das fogueiras solares se expandiam
desdobrando os cordéis do pensamento.
Comparava-se o mundo a qualquer bicho
que anda chutando os pobres de sua terra,
bicho-papão de sonhos e quimeras.
Nordestinadas levas, seringueiros
dos quais resta essa dor, viola serena
que nos consola porque vale a pena.

CLUBE DA MADRUGADA


Compartilhando mais um texto do saudoso poeta Jorge Tufic, que foi quem mais escreveu sobre o tema, sobre este movimento, por isso, entendo que seus nomes se vinculam. Lembro aos neófitos que a placa de latão que Tufic alude e dela reproduz o texto, encontra-se agora afixada em concreto ao pé do mulateiro.

O texto foi sacado do Jornal Cultura, de setembro de 1975, acervo do Arquivo Público. A foto do repórter policial Jorge Tufic circulou na edição do extinto O Jornal, em 2 de agosto de 1952, portanto, há 66 anos. 





Jornal Cultura -setembro 1975



As origens mais remotas do Clube da Madrugada residem na Caravana dos Quatro Monges, composta por quatro jovens da década dos anos 50, do século passado: Alencar e Silva, Jorge Tufic, Farias de Carvalho e Antistenes Pinto. Estes jovens, sufocados pelo acanhamento intelectual da província, aproveitaram as benesses de uma passagem Manaus-Rio de Janeiro, em 1951, por um avião da FAB, chegando ao Rio deslumbrados, com seus versos parnasianos e seus poemas marcados pelas influências românticas e simbolista. Mas, o contato com a nova literatura brasileira fê-los renunciar, sem, demora, aos calhamaços que conduziam pesados na glória de tantos outros poetas do passado, egressos da província. Foi um terrível “auto-de-fé” aquele, quando milhares de suspiros poéticos tiveram que ser incinerados.

O verso livre e a poesia moderna haviam inoculado o seu vírus benéfico, contudo, porque desse reconhecimento do tempo presente nasceria depois o Clube da Madrugada. Isto porque a Caravana de Monges desfez-se para uma nova concepção do mundo em que seus fundadores viviam e ansiavam para afirmar-se.



Deste modo, voltando a Manaus, juntaram-se eles a outros jovens que faziam do Pavilhão São Jorge (Café do Pina) o seu ponto preferido na véspera da cada noite. Deste retorno, novos encontros com novas mentalidades, com novos elementos de outras áreas (pintores, sociólogos, economistas, políticos, filólogos, juristas etc.) foi germinando a ideia de uma agremiação eclética, universal, aberta a todas as manifestações do pensamento, que seria, ao mesmo tempo, o prenúncio da antecipação de uma Universidade Livre, sem fronteiras, sem preconceitos de raça, cor ou ideologia.



"Não seria preciso frisar que semanas mais tarde, tendo-se deflagrado a cápsula mágica do Clube da Madrugada, estaria o mesmo ancorando os seus ideais de cultura o liberdade ao pé do velho Mulateiro que, hoje, numa vivência física e espiritual do Clube resolve absorver lentamente em sua carnadura vegetal a velha placa de latão que lhe fora pregada com os seguintes dizeres:





“Pois foi. Jovens se reuniram sob a fronde desta árvore, e aconteceu. Quando madrugada, o Clube surgiu. Era novembro, vinte e dois. 1954, e fez-se.”