terça-feira, 3 de julho de 2012

QUANDO AS NOITES VOAVAM





A LANÇA RITUAL



A invenção do Curare e
da Zarabatana

Para matar sem Pinlun,
ngoamãn (4) inventou o curare e a zarabatana.

Pegando, então, da zarabatana,
ele soprou-lhe uma seta bem no pescoço.

sentindo-se envenenado, sem Pinlun (5) deslocou-se
num pulo, em direção do leste.

o lugar onde caiu
ainda hoje pode ser reconhecido
pela forma de uma pedra que ali troveja. 



4 ngoamãn: o Criador.
5 sem Pinlun: trovão sobrenatural.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Folhas da Selva

    O autor deste livro, poeta Aníbal Beça, já lida com as fibras do haicai (viajando com Bashô) desde que a primeira folha desse curioso ideograma poético japonês consegue respirar o aguaceiro do inverno e sente, na forma do crisântemo, o zen da primavera.

                           Neste Folhas da Selva o haicaísta amazônico retesa ao máximo o arco de seu dia esponjado de lua, água, movimento e descoberta, até onde uma síntese verbal pode servir de exemplo à fixação de um sonho acordado, seja quando surpreende a resistência da flora ao calor insuportável das chamas, seja quando o aroma do café matinal se mistura ao domingo e sabe ao travo da baunilha.


                         Sutileza, respeito à tradição oriental, e sobretudo poesia, marcam a leitura desses textos que são, ao final, um só e bem estruturado poema, constituído de muitos outros do mesmo quilate, parecendo mais uma leve e  prolongada sinfonia, cujo tema central, a natureza, alterna com a bulha da cidade, o colóquio doméstico, o muro ácido dos gatos e o boi de piranha, entre armários e sapatos.


                      Dividido em partes condizentes com as várias fases de seu périplo em torno da magia floral encarnada nesses trísticos de origem nipônica, Folhas da Selva aproxima de nós o que só uma lente microscópica consegue fazer para transformar um simples pistilo silvestre numa galáxia de rosas. Na intensificação de vivências da infância e da província de seus amores, o poeta invoca, também, os mitos do folclore amazônico, a singeleza vencida pelos grandes edifícios plantados sobre bosques e sítios pitorescos, enfim, a nostalgia dos trilhos “riscando por ruas tortas – o bonde e a minha vida”.


                      Súmula aproximada, talvez, dos melhores haicais do Autor, esta obra nos dá, porém, a medida exata daquilo que é feito com amor e arte, conhecimento do ofício versus aplicação da palavra dentro do próprio motivo que a inspira; além de ser, daqui por diante, um breviário de consulta e alimentação para o verdadeiro modo de caminhar pelas sendas de oku.  Ali donde se ouvem os estalos da semente que leva à flor, ou da flor que leva à semente.  


                      Entretanto, o certo é que Aníbal Beça, dedicado cultor do haicai, procura reunir precisamente em formato de Livro (agora com L maiúsculo) o que seria a visão ou a ideia do poeta sobre esse tipo singular de composição ideográfica, antes de manejo coletivo, mas que sublinha a liberdade de cada um sob o paradigma de “achar” o melhor como um belo exercício que faz do homem uma árvore de palavras, gorjeios, tenuidades, vazios, saltos repentinos, ecos e ressonâncias.


                      O poeta, instalado frente ao computador, beneficiário da Internet, por mais que se esforce ele não troca o seu chão nativo pelos bisonhos fantasmas da virtualidade eletrônica, mas utiliza os recursos práticos da engenhoca moderna para tornar viável o sonho de permanecer incólume aos possíveis estragos do avanço científico.


                     Segundo Bashô: “Não durmas duas vezes no mesmo lugar; deseja sempre uma esteira que ainda não tenhas esquentado.” Ou como diz Aníbal:


                                                                                                     Pluma de pássaro
                        pousa suave no pátio –
                                                                                                     nasce um cabelo branco.

terça-feira, 26 de junho de 2012

DUETO PARA SOPRO E CORDA


II

Morto para sempre? O que dizer,
se a própria metafísica se esquece
que o pilriteiro, em ramos, não floresce
onde não há ninguém para morrer?

Morto para sempre? Ser ou não ser,
nostalgia de um quando que apetece...
O que nasce, definha; e o que amanhece
há-de ao nada, sem dúvida, volver.

Desperta-se do sono com a surpresa
de Lázaro da breve noite escura
ao lento enrubescer da natureza.

Para sempre se morre? Assim, precário
vai-se o corpo visível da impostura,
mas fica, dele, o corpo imaginário.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

DUETO


SONETOS PARA MARCEL PROUST

Que fazes, Proust, ao léu do teu cenário,
ao léu da infância que em teu rosto asila
da época feliz um tom de argila
e do vinho natal esse ordinário

calor do pão na mesa onde cintila
aquele estigma azul do legendário
sangue teu que nascera de um canário
posto no tempo como numa vila?

Em busca desse tempo então largaste
velames de metáforas, ao espanto
frágil daquela que tu tanto amaste.

Anos perdidos? Ganhos no entretanto,
pois em troca do sonho que sonhaste,
outros nos deste para nosso encanto.

terça-feira, 19 de junho de 2012

AGENDA 1965,





21/junho
A Lei federal que dá amparo e direito líquido e certo à demanda de quinze mil servidores federais, leva o número 3870 e é de 1960. A política econômica está nas mãos do Dr. Roberto Campos.- Carta do Antísthenes sobre um emprego no governo do historiador Arthur Reis. Espero êxito do amigo.- Recomeço a pôr alguma ordem na casa dos velhos: mudei o pavio da geladeira a querosene, fiz limpeza, paguei uma parte das dívidas contraídas. Reformas nos móveis e outros benefícios introduzidos de tempo em tempos, são iniciativas inócuas ao se oporem a obstáculos de ordem espiritual que atuam no ambiente familiar.- Consegui um empréstimo no BCP.
24/junho
Nossas farras homéricas cedem à reflexão do momento. Me volto às leituras com relativa disposição. Seis meses se passaram desde que me propus a respigar este banalíssimo cotidiano, pedaços de vida sem cor, nos quais, entretanto, reluz a vontade inquebrantável. Basta-me hoje o sorriso de Eliana na simplicidade de nossa varanda, esperando pelo pai.

26/27/junho
Re-assisto, no Cine Guarany, ao ¨Luzes da Ribalta¨, de Charles Chaplin, o Carlitos, sobre quem, depois de ver o ¨Luzes da Cidade¨, escrevi uma crônica que agora descubro entre outros recortes dos anos 50. Ela foi publicada em ¨O Centro¨, do Colégio Estadual do Amazonas, na gestão de Agostinho Balbi, irmão do Agnello. Hoje ela me parece mais um mini-conto.

domingo, 17 de junho de 2012

ROGEL ESTUDA TUFIC

ANTONIO CARLOS ROCHA

http://estudoliteraturas.blogspot.com.br/

Professor doutor em Teoria Literária, aposentado da UFRJ, autor de vários livros e consagradas reedições, Rogel desta vez partiu para um bonito ensaio. Diga-se de passagem que Rogel tem uma produção webensaística impressionante pela quantidade de textos.

Quem nunca fez versos elogiando a mãe? Certamente inúmeros fazem, fizeram e farão, com dotes poéticos e não-poéticos. Mas o interessante é que Samuel captou nas entrelinhas da obra poética de Jorge Tufic, algo mais que simples e merecidas declarações de amor à digníssima mãe.


Vejamos algumas palavras de Rogel Samuel:

“O pequeno livro é uma obra-prima em quinze sonetos. E começa por uma invocação.

Ler é nomear sentidos, faze-los funcionar, dar-lhes corda, os sentidos estão e/ou partem dali. Ler é um ato de mobilidade, de por em movimentação os sentidos. Mas não todos. Não há um todo, um limite. Por isso, diz Barthes, o esquecimento crítico é um valor do texto, haverá sempre sentidos esquecidos, nunca se poderá reunir todos os sentidos na arena da rigidez de uma grelha analítica.

Na filosofia se definem falar e dizer; num certo sentido: o falar remete ao falante, o dizer remete as coisas mesmas ditas”.

Resumindo: a arte de Jorge Tufic, que estreou na poesia em 1956, levou/inspirou Rogel a altos vôos filosóficos.

Gratidão aos dois: ao primeiro pela beleza poética, artística, estética e outros sinônimos. Ao segundo pela magnífica aula de filosofia.