quarta-feira, 1 de agosto de 2018

SONETO VIII

SONETO VIII



VIII

Cantadores chegavam nos gaiolas
resplandecendo trovas consteladas,
e entre os sabores negros da partida
ardiam no alecrim das madrugadas.
Luas multiplicavam seus cavalos,
dragões comiam flor; e no tormento
das fogueiras solares se expandiam
desdobrando os cordéis do pensamento.
Comparava-se o mundo a qualquer bicho
que anda chutando os pobres de sua terra,
bicho-papão de sonhos e quimeras.
Nordestinadas levas, seringueiros
dos quais resta essa dor, viola serena
que nos consola porque vale a pena.

CLUBE DA MADRUGADA


Compartilhando mais um texto do saudoso poeta Jorge Tufic, que foi quem mais escreveu sobre o tema, sobre este movimento, por isso, entendo que seus nomes se vinculam. Lembro aos neófitos que a placa de latão que Tufic alude e dela reproduz o texto, encontra-se agora afixada em concreto ao pé do mulateiro.

O texto foi sacado do Jornal Cultura, de setembro de 1975, acervo do Arquivo Público. A foto do repórter policial Jorge Tufic circulou na edição do extinto O Jornal, em 2 de agosto de 1952, portanto, há 66 anos. 





Jornal Cultura -setembro 1975



As origens mais remotas do Clube da Madrugada residem na Caravana dos Quatro Monges, composta por quatro jovens da década dos anos 50, do século passado: Alencar e Silva, Jorge Tufic, Farias de Carvalho e Antistenes Pinto. Estes jovens, sufocados pelo acanhamento intelectual da província, aproveitaram as benesses de uma passagem Manaus-Rio de Janeiro, em 1951, por um avião da FAB, chegando ao Rio deslumbrados, com seus versos parnasianos e seus poemas marcados pelas influências românticas e simbolista. Mas, o contato com a nova literatura brasileira fê-los renunciar, sem, demora, aos calhamaços que conduziam pesados na glória de tantos outros poetas do passado, egressos da província. Foi um terrível “auto-de-fé” aquele, quando milhares de suspiros poéticos tiveram que ser incinerados.

O verso livre e a poesia moderna haviam inoculado o seu vírus benéfico, contudo, porque desse reconhecimento do tempo presente nasceria depois o Clube da Madrugada. Isto porque a Caravana de Monges desfez-se para uma nova concepção do mundo em que seus fundadores viviam e ansiavam para afirmar-se.



Deste modo, voltando a Manaus, juntaram-se eles a outros jovens que faziam do Pavilhão São Jorge (Café do Pina) o seu ponto preferido na véspera da cada noite. Deste retorno, novos encontros com novas mentalidades, com novos elementos de outras áreas (pintores, sociólogos, economistas, políticos, filólogos, juristas etc.) foi germinando a ideia de uma agremiação eclética, universal, aberta a todas as manifestações do pensamento, que seria, ao mesmo tempo, o prenúncio da antecipação de uma Universidade Livre, sem fronteiras, sem preconceitos de raça, cor ou ideologia.



"Não seria preciso frisar que semanas mais tarde, tendo-se deflagrado a cápsula mágica do Clube da Madrugada, estaria o mesmo ancorando os seus ideais de cultura o liberdade ao pé do velho Mulateiro que, hoje, numa vivência física e espiritual do Clube resolve absorver lentamente em sua carnadura vegetal a velha placa de latão que lhe fora pregada com os seguintes dizeres:





“Pois foi. Jovens se reuniram sob a fronde desta árvore, e aconteceu. Quando madrugada, o Clube surgiu. Era novembro, vinte e dois. 1954, e fez-se.”

sábado, 21 de julho de 2018

“FIOS DE LUZ: AROMAS VIVOS”: a voz da saudade

“FIOS DE LUZ: AROMAS VIVOS”: a voz da saudade


“FIOS DE LUZ: AROMAS VIVOS”: a voz da saudade

por Tânia Du Bois

        Fios de luz, aromas vivos: leitura de Retrato de Mãe,soneto de Jorge Tufic, por Rogel Samuel: “Venham os fios de luz para tecê-la, aromas vivos para senti-la, às palavras do filho descrevê-la, proferi-la” (Rogel Samuel).
        Não conheço Jorge Tufic pessoalmente, e sim através de suas obras literárias: adoro! Penso que o Poeta merece uma homenagem especial, e o escritor Rogel Samuel dá essa atenção através de reflexões literárias em 15 sonetos de Tufic.
         Samuel ressalta o caráter literário da obra com olhar sobre o poeta. Revela o poder de quem interpreta costurando palavras e dando o significado à estrutura maternal dos sonetos, e declara que “o mundo poético e o mundo da realidade colidem, possuindo cada qual a sua própria verdade”.
        Fios de luz, aromas vivos – são sonetos que Jorge Tufic, inspirado na realidade, reconhece como expressão das lembranças. Segundo Samuel, “... acaba por ser mais real do que a própria realidade.” A voz de Tufic reflete a sua própria imagem, onde faz um testemunho do Retrato de Mãe. Em jogo de palavras, proclama histórias que espelham a sua relação com a sua mãe, como se fosse ontem e vivesse o amanhã. Cria significado através do tempo e das lembranças que sinalizam a sua ausência, buscando dar sentido à sua vida. “Que restara de ti, dos teus pertences? //... Tudo posto num saco humilde e roto. / Eu quis, então, medir esse legado, / mas limites não vi para a tristeza. / Davas a sensação de que o tesouro / se enterrara contigo. //... Que eternidade / pode igualar-se à voz desta saudade?”
        Através da imagem poética, mostra o seu eu versusmãe, ao alcançar a infinitude do tempo: sua intimidade desvela os mistérios da dor da ausência. Nesse horizonte, o poeta compreende, interpreta e projeta o sentido da herança da Grande Mãe que se perde com a morte.
        Fios de luz, aromas vivos revela a parceria de mãe e filho, onde apenas o amor é o único segredo. E a memória do poeta reconstrói os bons momentos sem se perder no tempo. “Nossa infância era tudo iluminada / pelas fontes da tua juventude. //... Ainda te vejo, o porte esbelto indo / por aqueles baldios transparentes / onde a luz, de tão verde, pincelando / os ermos...”
        Mesmo com a saudade presente, Jorge Tufic, em seus sonetos, volta ao seio materno para registrar a importância e a resistência da lembrança (viva) em sua vida. Ao escrever Retrato de Mãe, não teve medo de mostrar a outra face, o lado filho.
        O encontro entre lembranças e saudades, filho e mãe, deu a oportunidade ao escritor Rogel Samuel de fazer a análise detalhada da obra, mostrando o Poeta Jorge Tufic com o dom do mistério menor e mais emoção, revelando, mais uma vez, o seu talento literário.

sábado, 14 de julho de 2018

O BOTO

Autor, traço de Anísio Mello
Para comemorar 25 anos de poesia, o saudoso poeta Jorge Tufic elaborou uma série de poemas sobre temas regionais. Deu-lhe o título de "Os mitos da criação e outros poemas", e assim reinaugurava a circulação do Jornal Cultura, publicação do Fundação Cultural do Amazonas - Seduc, relativo a março/abril de 1980. 
Compartilho este poema, cujo tema nos é bem conhecido.


Recorte da publicação
 O BOTO 

Rema, Senhor: festança vai começar.Vento cheira à baunilha. As sombras andampara trás, como exércitos em fuga.Margem leste caminha vem trazendoa lua. São Jorge fica mais pertoenquanto o dragão lhe atiça a fogueira.Noite agora é um clarão, clarão de festa,onde o boto apessoado comparececom seu terno de linho. Madrugadaele volta ao perau. Leva, nos braçosa cabocla que dorme e que parececonsentir no feitiço que a tornaradona de um reino aquático, ou talvezde um sonho que mãe-d’água lhe contara.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

POEMA EM BLUE

POEMA EM BLUE


POEMA EM BLUE

Vou sendo a lua de março
cantada por Langston Hughes.
Vou sendo a noite que trouxe
uma asa quebrada
ao terreno baldio.
Vou sendo o ritmo de jazz
que vem das entranhas do mundo
para as foices de algodão.
Vou sendo este negro que tenho
em meu punho de rosas
e pregos descidos da cruz.