terça-feira, 16 de outubro de 2018

Clube da Madrugada

Clube da Madrugada

Pe. Nonato Pinheiro
(Da Academia Amazonense de Letras)
Há mais de um decênio que o Clube da Madrugada vem se firmando como expressão de tenacidade e pujança no campo das artes e das letras, movimento de vitalidade e renovação, dirigido por uma plêiade de talentosos moços, que encaram o problema da cultura com dignificante espírito de seriedade.
Quando surgiu o movimento inspirado em manifestações similares noutras áreas literárias e artísticas do país, no espírito que animou a “Semana de Arte Moderna”, promovida em 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, com palestras, conferências, declamações e exibição de artes plásticas, já era eu acadêmico, e senti, no dealbar ou na floração daqueles primeiros impulsos renovadores, certa descrença da parte de alguns vultos de nossas letras planiciárias. Desde o início, entretanto, observei nos rapazes acentuada posição para levarem a coisa a sério. Liam, estudavam, trocavam ideias e comentavam os últimos lançamentos do país, no mundo livresco. Acompanhavam o momento artístico e literário, aqui e alhures, com vivo interesse. Não dispunham de uma sala, sequer, para seus encontros. Que importava? Qualquer porão ou nesga de jardim bastavam aos seus intercâmbios culturais. A praça de Heliodoro Balbi foi palco das primeiras tertúlias e continua a ser teatro dos encontros dos clubistas, aos lampejos do sol, se é dia; sob o pálio das estrelas quando é noite.
Crescia o movimento. Novos sócios vinham unir-se aos primeiros. Alguns transferiram-se para a metrópole tentacular, sonhando com melhores vantagens e posições. Outros permaneceram, mantendo crepitante a chama do ideal. Outros ainda retornaram, renovando-se no espírito primitivo que animou o Clube. Vieram os primeiros lançamentos. E ao editar-se a primeira seleta, a “pequena antologia madrugada”, já o movimento estava consolidado. Cada nova manifestação dos clubistas era uma explosão e afirmação de pujança, de rigor, de vitalidade. Da fase sonhadora, mesclada talvez de certa indisciplina, compreensível nas instituições nascentes, passou-se às fases das definições, no encalço de uma disciplina e de um roteiro. As equipes movimentaram-se conscientemente, e a cidade tomou conhecimento de que os rapazes se decidiram a tomar posição, a despertar vocações nascentes, a incrementar o movimento artístico e literário, servindo com devotamento à cultura. O Clube da Madrugada era uma realidade seivosa.
Tenho consciência nítida da que sempre estimulei esses moços, que surgiam diante de minhas pupilas tocados pela centelha eletrizante de um ideal superior. É só consultarem minhas colaborações na imprensa amazonense, que já se avoluma de vinte anos, e terão a prova convincente. Cheguei a sugerir ao escritor Péricles Moraes, presidente da Academia Amazonense de Letras, ao tempo da fundação do Clube da Madrugada, de quem fui colaborador imediato e cotidiano nos movimentos culturais que entendiam com a Casa de Adriano Jorge, que observasse os rapazes, que lhes acompanhasse os passos na seara das letras. Avancei a ideia do aproveitamento de alguns para a Academia, no intuito de uma revitalização do sodalício. Os clubistas têm consciência dessa posição. Outros confrades, como Aristóphano Antony, também assim pensavam.
Como quer que seja, entendo que a linha do Clube da Madrugada não deve de incremento literário e artístico, tendo em mira o progresso cultural do Amazonas. Não devem ser forças antagônicas, mas forças vivas, formando uma mesma dinâmica pelo soerguimento pensamental, pelo esplendor das letras e das artes, pelo culto do idioma e da literatura nacional.
O Clube da Madrugada possui nomes expressivos em seus quadros: Aluísio Sampaio, Alencar e Silva, Edson Farias, João Bosco Evangelista, Álvaro Páscoa, Carlos Gomes, Farias de Carvalho, Jorge Tufic, Arthur Engrácio, Pedro Amorim, Ivens Lima, Jefferson Peres, Afrânio Castro, Evandro Carreira, Miguel Barrela, João Bosco Araújo, Saul Benchimol, Antonio Augusto Gurgel do Amaral, J. Maciel, Hahnemann Bacelar, Luiz Bezerra, Pe. L. Ruas, Sebastião Norões, Getúlio Alho, Ernesto Pinho, Ernesto Penafort, Antísthenes Pinto, Óscar Ramos Filho, Pedro Santos, Cosme Alves Neto, Guimarães de Paula, Nauro Machado, Nazareno Tourinho, Assis Brasil, Astrid Cabral, Nivaldo Santiago, Teodoro Botinelly de Assunção, Leopoldo Peres Sobrinho, Djalma Passos, Moacir Couto de Andrade. Servi-me de uma relação que me foi oferecida pelo clubista Jorge Tufic, cuja ordem nominal mantive.
Já é volumosa a coleção dos livros lançados pelos clubistas. Farias de Carvalho brindou-nos com “Pássaro de Cinza”, bem festejado pela crítica. É sem favor um dos mais belos talentos poéticos da nova geração, refulgindo ainda como excelente declamador. Jorge Tufic, outro poeta de raça e intelectual de elevadas preferências mentais, deu à estampa “Varanda de Pássaros”, na qual, em verdade, só gorjeia uma ave: o pássaro de sua maviosa inspiração. Alencar e Silva, que já nos havia dado “Painéis”, voltou com melhor garbo e amadurecimento em “Lunamarga”, sua última conquista, saudada com desbordante entusiasmo. Padre Luiz Ruas, um dos brasões mais refulgentes do Clube, é autor de “Aparição do Clown”, que revelou um poeta de impressivos e expressivos surtos e uma inteligência de radiosa claridade. “Poesia Frequentemente” é de Sebastião Norões, discípulo fervoroso de Dario e Guillén, livro que patenteia um intelectual e poeta de muita sensibilidade e intuição. Antísthenes Pinto, que estreara como inspirado poeta em “Sombra e Asfalto”, em que há claridades de plenilúnios e olhares serenos de pupilas de sonhador, surge agora como novelista, sobraçando o seu “Chavascal”, núperlançado. Na crítica literária acompanho com interesse e aplauso a desenvoltura de Aluísio Sampaio e Arthur Engrácio, cujas recensões refletem a agudeza e o faro de conspícuos analistas. Engrácio ainda brilha no conto e na novelística, e suas “Histórias de Submundo” dão-nos o fôlego e as dimensões do contista.
Na pintura, na escultura, na xilogravura, no campo fascinante das artes plásticas, o Clube da Madrugada apresenta uma plêiade de admiráveis artistas, alguns de renome nacional; Moacir Andrade, Hahnneman Bacelar, Getúlio Alho, Afrânio de Castro, Álvaro Páscoa e outros que honrariam os melhores e mais exigentes salões de arte.
Na eloquência e oratória há um nome que se impõe vitorioso: Evandro Carreira, já consagrado num concurso nacional de oratória. No campo das ciências sociais e econômicas Jefferson Peres e Saul Benchimol são figuras de alto relevo, que dignificam qualquer instituição de cultura. No mundo empolgante do canto e da música esplendem Nivaldo Santiago, Pedro Amorim e outros.
O Clube da Madrugada possui uma flor escarlate em seu jardim, que lhe dá realce e encanto: Astrid Cabral, a mais talentosa de quantas alunas tive no Instituto de Educação. É a única mulher, a florir com o seu formoso talento no sodalício presidido pelo meu amigo Aluísio Sampaio. Embora ausente, sei que Astrid não perde o contato com o seu Clube, e sempre envia suas produções.
Muitos são os que me perguntaram e perguntam acerca de minha posição em face do movimento do Clube da Madrugada. É de plena fraternidade e simpatia. Embora minha formação intelectual tenha sido eminentemente clássica e acadêmica, a verdade verdadeira é que nunca me prendi a escolas, pelos menos de um modo exclusivo. Sou como a abelha industriosa, que vai de flor em flor, à cata do néctar para o fabrico do mel delicioso. Sempre me atraiu o princípio da variedade: “varietas delectat”. Tenho poetas de minha mais alta estima e preferência em todas as escolas e correntes literárias. Afinal, o que monta não é a escola, mas o talento do intelectual e do poeta. Só há uma realidade: é a POESIA. Como quer que seja, dou em letra o meu abraço aos sócios do Clube da Madrugada, exortando-os à continuação da peleja em prol do progresso cultural de nossa terra. Ergamos bem alto o nome do Amazonas na comunhão nacional pela afirmação da nossa inteligência, no cultivo fascinante das boas letras e das belas artes!
(Publicado no Jornal do Comércio de 03 de abril de 1966. Mantido ipsis litteris o texto original, com adaptação à nova ortografia).
MINIBIOGRAFIA. Raimundo Nonato Pinheiro nasceu em Manaus, em 1922, e morreu em 1994. Era conhecido como Pe. Nonato Pinheiro, como geralmente assinava seus artigos jornalísticos. Foi sacerdote, jornalista, filólogo, latinólogo, professor, poeta, escritor, membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Grande orador e articulista brilhante de cultura polimorfa. Publicou as seguintes obras: “Dom José Pereira Alves, fulgores do Episcopado” (Editora Vozes, 1954); “Dom João da Matta” (biografia, 1956; e uma 2ª edição, Editora Valer, Manaus: 2008). Publicou na imprensa local artigos, crônicas, poesias e ensaios. 

domingo, 7 de outubro de 2018

Testemunho sobre Aparição do clown

Testemunho sobre Aparição do clown
(Jorge Tufic)
Capa da 1a. edição de Aparição do Clown (1959).
Concepção absolutamente inovadora do artista plástico Óscar Ramos.
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Esse ponto longínquo de nossa vida, o janeiro de 1959, se constitui num dos mais altos da literatura amazonense, em particular do movimento Madrugada. L. Ruas, tal como assinava os seus livros, artigos e crônicas, surpreende a todos com este seu longo poema, ao mesmo tempo estranho e revolucionário, mas no fundo mesmo uma projeção corajosa da personalidade do autor.
clown de Ruas é o ator ou o dançarino do universo que ele consegue libertar das amarras sociais e dos preconceitos irremovíveis, um corpo astral de silêncios e coisas que se transformam, ao menor toque de um bastão luminoso. Basta dizer que até hoje ninguém soube interpretá-lo, seja como texto, seja como fosse a partitura volátil de uma confissão transbordante, plena de movimentos em busca de uma unidade de sons e palavras, afinal conquistada.

Terá sido difícil a esse religioso evitar uma prática antiga daqueles que, embora poetas, se devotam a Deus ou a Krishna, e acabam por esquecer que à poesia não cabe o papel de servir, mas de ser servida.

Pois eu considero o Aparição do clown uma batalha entre a cruz, como dever a Deus, e a liberdade, como dever à Deus e à poesia. Uma forma terrena e divina de conciliação dos extremos, mas onde, graças à Poesia, os extremos também desaparecem, enquanto libertam.

Meu testemunho sobre L. Ruas abrange esse largo período de nossa existência, que vai da fundação do Clube da Madrugada, em novembro de 1954; atravessa os anos selvagens da ditadura militar; sangra nos tempos em que o poeta esteve longe de nosso convívio; termina com o seu falecimento e a minha transferência domiciliar de Manaus para Fortaleza.

Foram memoráveis os nossos encontros de final de semana!

Memoráveis os seus discursos ao pé do mulateiro, na Praça da Polícia Militar!

Memoráveis as missas que celebrava!

E os porres, também, com muita dignidade!


1975, lançamento de Faturação do ócio, de Jorge Tufic. L. Ruas discursa ao pé do mulateiro, árvore-símbolo do Clube da Madrugada. Atrás dele, de paletó, Luiz Cabral e Tufic. Ao seu lado, de perfil, Aluísio Sampaio.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

SONETO VIII

SONETO VIII



VIII

Cantadores chegavam nos gaiolas
resplandecendo trovas consteladas,
e entre os sabores negros da partida
ardiam no alecrim das madrugadas.
Luas multiplicavam seus cavalos,
dragões comiam flor; e no tormento
das fogueiras solares se expandiam
desdobrando os cordéis do pensamento.
Comparava-se o mundo a qualquer bicho
que anda chutando os pobres de sua terra,
bicho-papão de sonhos e quimeras.
Nordestinadas levas, seringueiros
dos quais resta essa dor, viola serena
que nos consola porque vale a pena.

CLUBE DA MADRUGADA


Compartilhando mais um texto do saudoso poeta Jorge Tufic, que foi quem mais escreveu sobre o tema, sobre este movimento, por isso, entendo que seus nomes se vinculam. Lembro aos neófitos que a placa de latão que Tufic alude e dela reproduz o texto, encontra-se agora afixada em concreto ao pé do mulateiro.

O texto foi sacado do Jornal Cultura, de setembro de 1975, acervo do Arquivo Público. A foto do repórter policial Jorge Tufic circulou na edição do extinto O Jornal, em 2 de agosto de 1952, portanto, há 66 anos. 





Jornal Cultura -setembro 1975



As origens mais remotas do Clube da Madrugada residem na Caravana dos Quatro Monges, composta por quatro jovens da década dos anos 50, do século passado: Alencar e Silva, Jorge Tufic, Farias de Carvalho e Antistenes Pinto. Estes jovens, sufocados pelo acanhamento intelectual da província, aproveitaram as benesses de uma passagem Manaus-Rio de Janeiro, em 1951, por um avião da FAB, chegando ao Rio deslumbrados, com seus versos parnasianos e seus poemas marcados pelas influências românticas e simbolista. Mas, o contato com a nova literatura brasileira fê-los renunciar, sem, demora, aos calhamaços que conduziam pesados na glória de tantos outros poetas do passado, egressos da província. Foi um terrível “auto-de-fé” aquele, quando milhares de suspiros poéticos tiveram que ser incinerados.

O verso livre e a poesia moderna haviam inoculado o seu vírus benéfico, contudo, porque desse reconhecimento do tempo presente nasceria depois o Clube da Madrugada. Isto porque a Caravana de Monges desfez-se para uma nova concepção do mundo em que seus fundadores viviam e ansiavam para afirmar-se.



Deste modo, voltando a Manaus, juntaram-se eles a outros jovens que faziam do Pavilhão São Jorge (Café do Pina) o seu ponto preferido na véspera da cada noite. Deste retorno, novos encontros com novas mentalidades, com novos elementos de outras áreas (pintores, sociólogos, economistas, políticos, filólogos, juristas etc.) foi germinando a ideia de uma agremiação eclética, universal, aberta a todas as manifestações do pensamento, que seria, ao mesmo tempo, o prenúncio da antecipação de uma Universidade Livre, sem fronteiras, sem preconceitos de raça, cor ou ideologia.



"Não seria preciso frisar que semanas mais tarde, tendo-se deflagrado a cápsula mágica do Clube da Madrugada, estaria o mesmo ancorando os seus ideais de cultura o liberdade ao pé do velho Mulateiro que, hoje, numa vivência física e espiritual do Clube resolve absorver lentamente em sua carnadura vegetal a velha placa de latão que lhe fora pregada com os seguintes dizeres:





“Pois foi. Jovens se reuniram sob a fronde desta árvore, e aconteceu. Quando madrugada, o Clube surgiu. Era novembro, vinte e dois. 1954, e fez-se.”

sábado, 21 de julho de 2018

“FIOS DE LUZ: AROMAS VIVOS”: a voz da saudade

“FIOS DE LUZ: AROMAS VIVOS”: a voz da saudade


“FIOS DE LUZ: AROMAS VIVOS”: a voz da saudade

por Tânia Du Bois

        Fios de luz, aromas vivos: leitura de Retrato de Mãe,soneto de Jorge Tufic, por Rogel Samuel: “Venham os fios de luz para tecê-la, aromas vivos para senti-la, às palavras do filho descrevê-la, proferi-la” (Rogel Samuel).
        Não conheço Jorge Tufic pessoalmente, e sim através de suas obras literárias: adoro! Penso que o Poeta merece uma homenagem especial, e o escritor Rogel Samuel dá essa atenção através de reflexões literárias em 15 sonetos de Tufic.
         Samuel ressalta o caráter literário da obra com olhar sobre o poeta. Revela o poder de quem interpreta costurando palavras e dando o significado à estrutura maternal dos sonetos, e declara que “o mundo poético e o mundo da realidade colidem, possuindo cada qual a sua própria verdade”.
        Fios de luz, aromas vivos – são sonetos que Jorge Tufic, inspirado na realidade, reconhece como expressão das lembranças. Segundo Samuel, “... acaba por ser mais real do que a própria realidade.” A voz de Tufic reflete a sua própria imagem, onde faz um testemunho do Retrato de Mãe. Em jogo de palavras, proclama histórias que espelham a sua relação com a sua mãe, como se fosse ontem e vivesse o amanhã. Cria significado através do tempo e das lembranças que sinalizam a sua ausência, buscando dar sentido à sua vida. “Que restara de ti, dos teus pertences? //... Tudo posto num saco humilde e roto. / Eu quis, então, medir esse legado, / mas limites não vi para a tristeza. / Davas a sensação de que o tesouro / se enterrara contigo. //... Que eternidade / pode igualar-se à voz desta saudade?”
        Através da imagem poética, mostra o seu eu versusmãe, ao alcançar a infinitude do tempo: sua intimidade desvela os mistérios da dor da ausência. Nesse horizonte, o poeta compreende, interpreta e projeta o sentido da herança da Grande Mãe que se perde com a morte.
        Fios de luz, aromas vivos revela a parceria de mãe e filho, onde apenas o amor é o único segredo. E a memória do poeta reconstrói os bons momentos sem se perder no tempo. “Nossa infância era tudo iluminada / pelas fontes da tua juventude. //... Ainda te vejo, o porte esbelto indo / por aqueles baldios transparentes / onde a luz, de tão verde, pincelando / os ermos...”
        Mesmo com a saudade presente, Jorge Tufic, em seus sonetos, volta ao seio materno para registrar a importância e a resistência da lembrança (viva) em sua vida. Ao escrever Retrato de Mãe, não teve medo de mostrar a outra face, o lado filho.
        O encontro entre lembranças e saudades, filho e mãe, deu a oportunidade ao escritor Rogel Samuel de fazer a análise detalhada da obra, mostrando o Poeta Jorge Tufic com o dom do mistério menor e mais emoção, revelando, mais uma vez, o seu talento literário.