quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Tosco, o antro da noite





Tosco, o antro da noite, 
em ocre ou madeira fóssil, 
aproxima-se de nós 
em máscara e mito. 

Seus olhos rasgados, 
por arte esquecida rastreiam 
cardumes de lava, 
silenciosos caminhos de chuva. 

O traço oval do conjunto 
é um pássaro fixo, 
antigo e severo. 
A boca é outro enigma 
que também nos devora. 


Jorge Tufic 


Do livro: "Fui eu", Escrituras, 1998, SP 

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

ROMANCE DO CASARÃO (JORGE TUFIC)

ROMANCE DO CASARÃO (JORGE TUFIC)



ROMANCE DO CASARÃO (JORGE TUFIC)
Terá dormido o operário
cujos pés calcaram notas
de alguma valsa perdida?
E os persistentes fantasmas
que moram nas dobradiças,
quantas pragas não rogaram?
De tudo oca, no entanto,
a foto já esmaecida
de um rosto branco, insepulto.
Perfil de brumas, rosal
de sonhos que se andaram.
Mãos que ainda tocam nos fusos
e ossadas em dispersão;
estes soluços discretos
ouvidos por trás da queda
do perempto casarão.

sábado, 1 de outubro de 2016

ALMAS DAS RUAS, AVULSOS CAMINHANTES

Almas da rua, avulsos caminhantes,
marginados, solenes — quantas frases
ruminaram sem eco: aqui estão eles
diante de mim fantásticos, lilases.
Beleleco, João Anta, Marinheiro
e outros que um dia isentos projetaram
sombras, tímidas sombras fugidias,
como tenham surgido, definharam.
Juncos, cachimbos, vestes remendadas
que restara de vós, semblantes duros,
brandos e bons com as trêfegas crianças.
Que o Museu dos Anônimos conserve
nalgum lugar a imagem que ainda faço
dos náufragos da vida e seu fracasso.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

SONETO 7

SONETO VII

VII

Sítios da infância, cálidas pitangas
avermelham no cio das cadelas.
Meninos e meninas no barreiro
e a vergonha desaba das janelas.
Bancos de praça rubros amanhecem,
saltam cabaços vivos em memória
de quem chega mas parte; e logo os ventres
a seu tempo confirmam cada estória.
Sobem depois as águas das enchentes,
latifúndios rastejam sob a lama,
montarias a esmo invadem ruas.
As chuvas lavam com rigor tamanho
que após ter o dilúvio sossegado
ficamos limpos, todos, do pecado.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

CLARÃO RETIDO

CLARÃO RETIDO


CLARÃO RETIDO


Nunca será a mesma
a face desta manhã;
tampouco o enxame da água
nas calhas do inverno.
Levíssimos pontos alados,
da mosca ao abutre,
se revezam na tensa geometria
que ameniza o verão.
Deve ser este o ritmo
que amadurece o ouro
e pulveriza o diamante.