domingo, 13 de setembro de 2020

NATAL 2008

 NATAL 2008


Natal me inspira estrelas e reis magos,
Natal revolve os séculos de usura,
Natal me faz pensar nessa loucura
de esperar pelos bens que foram pagos.
Natal de paz ou da canção dos lagos,
Natal de mim que em trevas se procura,
Natal de Deus na fé, quando obscura
ou quando se ilumina em breves tragos.
Natal de amor à mesa que nos prende
aos laços afetivos e ao consolo
de ter alguém que a mesma luz acende.
Natal da iniciação: que a cruz suporte
o corpo deste Rei, sangue e tijolo
do soneto que vence a própria morte.

sábado, 29 de agosto de 2020

OS PAIS DE TUFIC

 

Álbum de família: Farid e Tufic Alaúzo, os pais do poeta Jorge Tufic, casaram em Manaus em 1923.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

MANÁOS, FOTOGRAFIA

MANÁOS, FOTOGRAFIA

Manáos é um mito ou foto na parede?
O bonde nestas ruas se demarca
ao brando sol, vitral doutra comarca
onde outro mito, a arquitetura, vê-de:
é estável com os telhados, arcos; lê-de
agora esse passado à luz que encharca
a paz dos transeuntes; bronze e barca
da belle époque, dos trilhos e da rede.
Nas colunas do theatro há gritos ocos,
cantos, além, de pássaros; e o friso
dos vegetais no poente dos barrocos.
A data flui nas águas ferrugentas,
calhas abaixo do que foi preciso.
O azul parece roto; as horas, lentas.

sábado, 27 de junho de 2020

Poeta não se define: é um ser à parte

Poeta não se define: é um ser à parte

Jorge Tufic (1930-2018)


Poeta não se define: é um ser à parte.
De homem se veste, de animal caminha,
mas algo nele de anjo se avizinha
quando em fatias brancas se reparte.
Cheira o pão de seus versos; faz-se arte
pela dor que humaniza e que espezinha;
não a dor do egoísmo, a dor mesquinha,
mas a dor que se empluma no estandarte.
Pode ser o domingo que se anula,
um galgo que tropeça, o lenço esgarço
que, sendo de Marília, ainda tremula.
Para si mesmo estranho ele se enigma,
avesso ao paletó, caderno esparso,
nada o liberta, nunca, desse estigma.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

ASSIM ME FIZ

Assim me fiz de esponja e mó lavrada.
Pisei fundo os lugares que renego.
Na simpleza das flores cravei reinos
e a vida inteira é o fardo que carrego.
A estrela da manhã desfez-se em poeira
sobre meu rosto de pesar nativo.
Rosas do povo hemoptises rosas
me anoitecem curvado e pensativo.
Orfeus da mata atlântica, Vinícius,
Carlos Drummond, Cecília e quantos mais
foram se incorporando aos meus inícios.
Rimas e versos já não são, porém,
corredores do velho nem do novo.
Este mal não se pega de ninguém.

terça-feira, 2 de junho de 2020

RETRATO DE UMA OBRA-PRIMA

RETRATO DE UMA OBRA-PRIMA

RETRATO DE UMA OBRA-PRIMA
 
ROGEL SAMUEL
 
 
 
  Teus cabelos castanhos, tuas tranças
fazem lembrar as madres de Cartago.
Doce mãe, sombra tépida, murmúrio
de sonâmbulas fontes; poucos sabem
teu nome, enquanto, fatigada embora,
dás-nos o pão e o leite, a flor e o fruto.
Poucos sabem te amar enquanto viva
e, quando morta, poucos também sabem
da fraqueza que em força transformavas.
Ai, retrato de mãe, quanto mistério
se converte na tímida lembrança
destes álbuns que lágrimas sulcaram.
Na verdade, Ramón, só de lembrá-la
um soluço arrebenta-nos a fala.
 
Depois vem a casa, a cozinha, as comidas da culinária libanesa, a lentinha, o azeite, as cebolas fritas, a coalhada, o pão redondo, que a Mãe preparava... mas tudo isso passou. Onde estão as comidas, os pratos de lentilha, a terrina de azeite para as coalhadas, as cebolas fritas? Tudo passou... Como, ao redor da casa, o vento. Como passou o vento do tempo. Também passam a cerca do quintal, os vizinhos, as vozes cantantes, e passaram. E o que passa é aquele Calendário sem datas, o chão do passado, o que passa. A casa da mãe. O que passa. O chiar da frigideira. Os convites. O passado convida o leitor no seu chamado culinário: a mãe é aquela cozinheira das almas, das afetividades, da fraternidade, da ternura, o amor recende dessa mãe cozinheira, que ainda manda seus recados e canta, é assim que ela aparece, suada e infinitamente bela e luminosa, centro da vida familiar. Social.
A mãe é o corpo da “vida privada”.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

SONETO

A lua envelhecida ocupa os ares.
Desce inteira das nuvens, e assim plena
larga todas as vestes. Mês de junho
sabe a feitiço e os peixes envenena.
Algo desata a flor dos jasmineiros,
ventos carregam súplicas e brados.
Essa lua, porém, de que me lembro
tem o rosto senil dos afogados.
Jovens que se largaram pelos rios,
braços rijos nas faias, nunca mais
regressaram das margens convulsivas,
dos laços de algum réptil. Que eu recorde
todos dormem sonhados pela aragem,
ecos perdidos numa só voragem.