
Nova saga do cachimbo
Por Jorge Tufic
Para Haroldo de Campos, i.m
I
Na fria sala a brasa do cachimbo
queima o sândalo morno dos retratos;
tela à distância em que me vejo, nimbo
de outros corpos em torno de outros pratos
em torno de outras mesas; quanto limbo
de uma história que esqueço; estes relatos
vão-se nos rolos brancos: o elo o chimbo
restante da palavra ou destes fatos.
Na fria sala o sol visita o lenço
que deitei sobre lágrimas, e o grito
em cujas notas, hálito, me penso.
Sou página de ensaio sou refino
daqueles que me habitam, do que habito,
fábula tosca em noites de violino.
II
Agora que sou épico modelo
com as faias de Caronte o rosto amargo
desse mar que foi teu, já feito ao largo
a partir de uma estampa ou dum castelo.
Pouco importa se o texto é paralelo
às orlas de tua sede: o nobre encargo
de traduzir solapa as pautas de argo
como um barco se atira contra o belo.
Campos de Haroldo é A última viagem,
Calipso XXIV e Ulisses, este
que a Telêmaco entrega a própria imagem;
ou seja, o cetro e a ilha mais ofícios
de ampla ternura; e que se ponha a veste
dos deuses-lares para os sacrifícios.
III
Cachimbo a solidão deste feriado
quando a urbe completa fica ausente.
Henrique L. Alves surge reluzente
mas logo esvai-se para o Outro Lado.
Muitos partiram, raros têm ficado.
Nas ruas e nos prédios diferente
é o som das pedras largas; pouca gente,
fotomontagens, tempo sossegado.
Um pássaro bizarro altera o clima
do olhar sobre estas coisas; nada o prende
sendo ele vários, prévio, tarde acima.
Outros momentos cruzam-se (de leve).
Alguém pára, se volta; e, ao cabo, entende
que a permanência é estática, mas breve.
IV
Que são, final, cereja, noz, baunilha
no aspirado fruir da gema arcaica?
Pajé lendo caminhos saga incaica
dos primevos cachimbos? De que ilha
nascida de um trigal ou de uma antilha
veio até nós o argílico mosaico
o seco olhar da pedra o signo laico
de gravar entidades numa bilha?
Assim deve ter sido, a par do vinho,
a gênese do fumo e da fumaça:
aquele tinto, a outra feito arminho,
esta saindo em dueto, oval, discreta,
para depois fundir-se no que passa.
E no que passa, funde-se o poeta.
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